Folhetim

1

Era fevereiro e o ano novo pra mim já tinha acabado. Conectei-me à rede pra me desconectar da vida. Havia um rosto novo querendo minha amizade fria de rede social. Aceitei. Há sempre uma possibilidade em cada novo clique. Há sempre uma queda e uma saída também. Ele era da outra cidade, mas parecia bem real. Conversas. Emoticons. Talvez eu tenha ouvido sirenes. Os dias pareciam primaveras fora de época. Os sonhos começaram a ganhar cores que eu nunca tinha visto antes. Marcamos de nos encontrar.

2

O ônibus da faculdade chegou atrasado como sempre. E como sempre entrei na faculdade a caminho da minha sala. Era tumulto dentro e fora de mim. Na porta da biblioteca, no meio do pátio, uma multidão de acadêmicos. Foi quando com violência um olhar penetrou a minha mente. Fiquei hipnotizado. O mundo pareceu estar em câmera lenta e eu só via aqueles olhos cor de mel. Era mel a cor dos meus sonhos. Aqueles segundos pareceram uma vida toda. Talvez eu tenha ouvido violinos. Talvez eu tenha entendido tudo o que eu sempre busquei entender. Até me esqueci de que tinha que encontrar com um amigo da internet.

3

Já era a hora marcada e eu saí da sala de aula pra ir à praça de alimentação da faculdade. Fui encontrar o cara que eu conhecia só através das telas. Os caracteres. As fotos. Já era a hora marcada e meu coração batia no ritmo dos segundos que o meu relógio fabricava. Cheguei na lanchonete e lá estava ele. Camisa vermelha, calça jeans, cabelos castanhos e olhos cor de mel. Quando o vi, não pude acreditar que eu havia esbarrado com ele quase uma hora antes. Ele fazia administração e eu envergonhava a minha família.

4

- Você não quer ir lá pra feira? – ele perguntou.

- Vamos. – respondi. Ele se levantou. Ele é mais alto do que eu, e apesar de termos a mesma idade, ele parece ser mais velho do que eu. Eu odeio a minha cara de adolescente e meu físico que não atrai ninguém sexualmente. Ele tem cicatrizes de um acidente que quase o fez perder a vida. Mas até suas cicatrizes me deixam encantado. Elas me lembram de que a gente pode superar as coisas que acontecem que o passado pode estar presente como fator que muda as nossas vidas, e que somos fortes e frágeis ao mesmo tempo. Estamos sob as estrelas.

5

Conversamos sobre tudo. Sujei meu braço de sorvete e ele ria como se eu fosse um palhaço. Mas aquele riso me fazia rir mais. Talvez eu tenha chorado em algum lugar dentro daquele riso. Mas eu não estava nem aí. Os dias se passaram e nossa amizade ficou intensa. Ele disse que eu era o irmão que ele sempre quis. Eu sentia o mesmo, mas eu queria ser muito mais que apenas irmãos. Eu queria que ele fosse a minha vida. Decidi que ia contar tudo pra ele, e ele disse que tinha um cartão de páscoa pra me entregar. Que só tinha feito o cartão pra poucas pessoas especiais naquele ano.

Já era noite e eu acabara de receber meu cartão. Quando ele me contou o segredo que não havia me contado ainda. Justo quando eu achava que já sabia tudo o que poderia saber sobre ele. Sobre amar alguém. Ele disse que tinha namorado.

6

Já faz um mês que a páscoa passou. Há feridas que não se curam. Meu celular chamou e era ele. Ainda éramos amigos, e acredito que sempre seremos. Só amigos. Eu quero muito fazê-lo feliz, mas entendi que eu não poderia. Não da mesma forma que o namorado dele. Swinging with the old stars. O tempo passa, mas há feridas.

7

Eu odeio despedidas, mas precisei aprender a conviver com elas.

“Gui, não sou bom em palavras... Mas vou tentar expressar o máximo do carinho que sinto por você. Primeiro quero agradecer pelo privilégio que você me da de ser seu irmão, depois quero agradecer por todos nossos momentos, nossas babaquices e nossas cumplicidades. Eu sinceramente não sei o que seria eu, sem você nos intervalos da faculdade, você é pra mim, um grande amigo em quem eu confio e posso ser eu mesmo quando na sua companhia. Você me entende o jeito de expressar, de pensar e até sorrir. Confesso que minha vontade na hora que vi lágrimas em seu rosto por minha causa era de lhe dar um abraço hiper apertado, mas a minha ignorância de pensar no que as outras pessoas podiam pensar ou achar falou mais alto. Irmão, quero que você conte comigo pro que precisar, pois grandes amizades continuam se fortalecendo mesmo com a distância. EU TE AMO!”

8

Aquele ano se tornou difícil. Ele se foi pra longe, e nos tornamos, outra vez, amigos virtuais. Ele ganhou o mundo e eu ganhei cicatrizes. Ele ama, ele vive. Já se foram 5 anos desde então. E eu queria tanto deixar de amá-lo. Ele é a minha fraqueza e ao mesmo tempo a minha força. Ele é tudo aquilo que eu não vou conseguir. Desde então não consigo me envolver com ninguém. Procurei as cicatrizes dele em outros homens. Já provei muitas bocas, mas nenhuma tinha o gosto dele. O gosto que eu nunca senti. Eu nunca mais veria aquelas cores de novo.


Publicado originalmente em 03 de outubro de 2015 em Todas as Memórias das Lutas e as Noites Sob Luzes Azuis.