Todas as tramas apontam para a morte
Ruído Branco, Don DeLillo



Ruído Branco, o oitavo romance de DeLillo, é a história de Jack Gladney, professor universitário que vive com a família no meio oeste americano, numa cidadezinha evacuada após um acidente industrial. Dividido em três partes, o livro narra a vida disfuncional da família Gladney e suas idiossincrasias — aqui entendidas em suas formas mais amplas desde a predisposição particular que faz um indivíduo reagir de maneira pessoal à influência de agentes exteriores até as características comportamentais peculiares a um grupo ou pessoa — ; a rotina da cidade durante a “Formação da Nuvem Tóxica”, com a narrativa ganhando ares de ficção apocalíptica; e finalmente a vida após a tragédia e como cada personagem e a própria comunidade buscam seus caminhos em um recém-descoberto, mesmo que antes vislumbrado, mundo hostil e sem sentido.
A narrativa é transpassada pela sensação de aniquilação eminente, de fragilidade das formas de existências possíveis em uma sociedade híbrida entre as promessas do passado e os fracassos do presente/futuro, unidos por uma relação antropofágica, condensados até aglutinação, levados ao limite por possibilidades apenas vislumbradas. Todos os personagens incorporam de maneiras distintas o apocalipse que paira sobre o livro, buscando, ao mesmo tempo, a morte e a salvação.
Gladney leciona hitleroloria — eletiva focada na vida de Hitler — em uma universidade no meio-oeste americano onde mora com a esposa Babette e a infinidade de filhos, tanto dos casamentos anteriores quanto do atual. Como em outros livros de Don DeLillo, os diálogos exercem o papel contraditório da não-comunicação, reforçando o deslocamento dos personagens dentro das relações. Os diálogos são muitas vezes puxados para fora dos personagens por estímulos externos, como se apenas o mundo em constante trabalho fosse capaz de gerar essas rápidas conexões entre os indivíduos. Jack e os filhos conversam constantemente sobre o que estão assistindo na TV como se surpreendidos pelos conteúdos que consomem com avidez. Esse fenômeno intensifica-se nos momentos de interação entre grupos, onde a dicotomia de vozes e discursos somam-se para formar uma cama de pensamentos dissonantes e ao mesmo tempo unos. Nesses momentos, um dos talentos de DeLillo fica claro: a elevação de personagens às ideias, pensamentos que funcionam como engrenagem no caminhar da narrativa ao mesmo tempo que não desconfiguram-se nem abandonam seus papéis de personagens. Através desses diálogos, DeLillo encontra a fissura entre o indivíduo e o coletivo e mergulha em agudeza como uma pedra que, consciente da queda, premedita todo o percurso até o fim impossível.
Enquanto Jack Gladney representa uma mente inepta a situar-se no tempo e espaço da própria existência (é possível traçar um paralelo com o atual 10:04 de Ben Lerner), Babette, sua esposa, é o corpo da trama. As descrições de Babette focam-se no voluptuoso, montanhoso físico da mulher. Babette é o dispositivo gravitacional da família, da casa e do protagonista que se perde em suas carnes, mergulhado na mulher em busca de alívio contra o mundo. Alívio esse que lhes é negado. A esposa protagoniza uma das principais tramas do livro e confere fisicalidade ao principal tema da obra de Don DeLillo: a paranoia.
Babette é uma esposa discreta e adaptável — lê tabloides, aqui apresentados plataforma contemporânea para disseminação das tragédias humanas , para cegos e ensina postura para classes de idosos — e distingue-se por seu esquecimento e sua preocupação com a morte. À distinção dos demais personagens, a busca pela cura de Babette também vai de encontro à fisicalidade do mundo encontrando lugar em uma pílula mágica que promete a cura do medo da morte, a tranquilidade no momento do fim. O fim do medo. Situando o romance no contemporâneo, essa liberdade do fim do medo para Babette lhe é entregue por uma terceira parte, um laboratório, um homem. A liberdade não a pertence, é apenas entregue a ela por um mundo que é causa e solução.
A paranoia também ganha voz através de um dos personagens mais interessantes criado por Don DeLillo: Murray Jay Siskind. Ex-jornalista esportivo e atual professor universitário, Murray é um imigrante de Nova York, obcecado pela mídia americana e que leciona no Departamento de Ambientes Americanos da College-on-the-Hill. Como os outros professores desse departamento, Murray está preocupado com a iconografia da cultura popular americana e sonha em algum dia dedicar-se ao estudo de Elvis Presley. Murray não faz distinção entre sua vida acadêmica e cotidiana: ele sempre usa uma linguagem altamente acadêmica e intelectualizada, constantemente analisando e desconstruido o mundo cotidiano ao seu redor. Para Murray, a análise do mundo é importante na medida em que lhe permite elevar e celebrar o aparentemente insignificante. O supermercado, por exemplo, lembra Murray do local de detenção tibetano das almas mortas. Ele também acredita que a televisão emite enormes quantidades de informações espirituais e psíquicas, que as pessoas não sabem ler corretamente.
Murray é uma sátira do professor universitário pós-moderno , que encontra um significado profundoem tudo — particularmente coisas que outras pessoas considerariam superficiais ou irrelevantes. No entanto, muitas vezes, no coração das palestras de Murray sobre televisão e consumismo, existe uma percepção precisa, talvez um tanto extrema, do mundo contemporâneo. Por baixo de sua personalidade intelectual deliberadamente construída, com jaqueta velha e veludo cotelê, Murray é propenso a generalizações e estereótipos e gosta de ser contrário e de, como dizemos atualmente, resistir.
Se é possível apontar um evento principal do livro, este seria a nuvem tóxica que abate a cidade na segunda parte da narrativa. Seria como se este acontecimento, que aproxima todos os personagens da morte, exerce a força de um novo nascimento, delineando personalidades e lançando sombra no passado e presente da história. O acontecimento é como todos os outros: sem sentido ou explicação. A família de Jack Gladney acorda e no horizonte está a Nuvem Tóxica, um cogumelo de fumaça negra produzido após o vazamento de Niodene D., segundo as notícias. A tragédia é eminente, porém sempre apresentada com certa distância e essa distância escolhida por DeLillo cria o palco perfeito para a abordagem de assuntos caros ao autor: a velocidade das notícias e informações, a influência da mídia na vida das pessoas, as diferentes formas caricaturais do medo e de como o enfrentamos. As filhas mais novas de Jack, Steffie e Denise, começam a apresentar diferentes sintomas que seriam, segundo as notícias, causados pela substância espalhada pela Nuvem Tóxica e, assim como as notícias mudam, os sintomas também se atualizam.
The enormous dark mass moved like some death ship in a Norse legend, escorted across the night by armored creatures with spiral wings. We weren’t sure how to react. It was a terrible thing to see, so close, so low, packed with chlorides, benzines, phenols, hydrocarbons, or whatever the precise toxic content. But it was also spectacular, part of the grandness of a sweeping event, like the vivid scene in the switching yard or the people trudging across the snowy overpass with children, food, belongings, a tragic army of the dispossessed. Our fear was accompanied by a sense of awe that bordered on the religious. It is surely possible to be awed by the thing that threatens your life, to see it as a cosmic force, so much larger than yourself, more powerful, created by elemental and willful rhythms. This was a death made in the laboratory, defined and measurable, but we thought of it at the time in a simple and primitive way, as some seasonal perversity of the earth like a flood or tornado, something not subject to control. Our helplessness did not seem compatible with the idea of a man-made event.
O evento age em Heinrich, filho adolescente de Jack, desajeitado, analítico e desapaixonado, como um rito de passagem. Durante o longo período no qual todos da cidade se veem desabrigados e vivendo em uma quadra esportiva, o menino ganha ares de homem, aplicando suas principais características com êxito em um mundo perdido, sob o olhar desesperado de pessoas que precisam apenas de algo — ainda que incerto — que as garanta que irão sobreviver. Na terceira parte do livro, durante o jantar, a família discute o evento tóxico e Heinrich afirma que as autoridades não estão relatando tudo o que sabem ao público e, em seguida, declara que vazamentos tóxicos não representam a maior ameaça para os seres humanos. O mundo está cheio de perigosas radiações domésticas, vindas de linhas de energia, televisões e micro-ondas. Por ser um possuidor de informações, Heinrich é um homem agora, assim como o pai. A forma como essas informações foram obtidas é questionada por Babette no mesmo jantar, mas ninguém da família consegue apontar onde ou como aprendeu alguma coisa. A informação simplesmente existe como um fator externo à vida humana.
Um técnico checa Jack por sinais de Niodene D., aos quais ele pode ter sido exposto durante uma parada para abastecer o carro. Jack é informado que está infectado, mas apenas em termos vagos e abstratos. DeLillo demonstra o outro extremo negativo da informação: a ausência dela.
Jack e Heinrich discutem o conhecimento que as pessoas poderiam transmitir se fossem jogadas de volta no tempo. Heinrich observa que ele e Jack realmente não sabem nada sobre tecnologia moderna e não podem contar aos gregos antigos nada sobre o mundo deles. Rumores de desastre e morte se acumulam, e Jack se maravilha com o poder da imaginação em tais circunstâncias. Ele se consola sabendo que os pastores-alemães estão protegendo-os. Ele observa as crianças dormindo e fica surpreso e tocado quando Steffie murmura “Toyota Celica” enquanto dorme. As crianças constantemente repetem slogans e nomes de marcas enquanto dormem ou em momentos de distração, comprovando que a consciência e o mundo exterior misturam-se ao mesmo tempo que nunca deixam de ser a mesma coisa: criador e criatura, em um ciclo de consumo e perpetuação constante, sem noção — ou consciência — das próprias funções.
Rumores de microrganismos capazes de comer as toxinas nas nuvens se espalham, e Jack reconhece que isso soa como algo saído de um tabloide. Babette observa que cada novo avanço na tecnologia a deixa ainda mais assustada, a aproxima da morte. Um homem segurando uma TV entra no centro da sala. Ele diz a todos que não há relatos sobre o que está acontecendo e que a mídia e a TV em geral não deram atenção ao evento que se abateu sobre eles. Ele pergunta:
“Mesmo que não tenha havido grandes perdas de vida, não merecemos alguma atenção pelo nosso sofrimento?”
Este último trecho conversa diretamente com a relação homem-mídia atual, com os papéis de provedor e consumidor diluídos e suas conexões subitamente alteradas, substituídas pela elevação da persona à única forma de meio e fins de consumo de informações possíveis. A mídia pertence ao homem que se vê sem pertencimento algum, escravo de seu próprio regime ditatorial.
Jack e sua família voltam para casa nove dias depois.
A informação exerce diferentes papéis nesse trecho da narrativa. Através dela os personagens são expostos ao horror, através dela eles buscam sobrevivência, através dela eles são derrotados. A “Formação da Nuvem Tóxica” é apenas o conduíte para a ação do mundo contra esses indivíduos que, violentamente, percebem que estão sozinhos em um mundo letal e antagonista. A sobrevivência arremessa toda a cidade em uma rotina de medo e preparação para a morte, de pura paranoia. Simulações são feitas constantemente, onde os moradores da cidade atuam como vítimas e salvadores em um possível próximo evento. Aqui, os personagens buscam duas recompensas distintas: a sobrevivência — em caso de mais um evento trágico — e pertencimento, dentro do mundo caótico e aleatório.
Diferentes personagens do romance abordam a morte de formas distintas, muitas vezes contraditórias. Jack se aproxima com terror. Heinrich enfrenta a morte de forma desapaixonada e analítica. Murray vê a morte ao seu redor e permanece continuamente fascinado e engajado por ela. Jack e Babette especulam que a morte poderia ser nada mais que um zumbido eterno de ruído branco: pedaços de dados destacados, algarismos distorcidos e sons sem sentido, todos vibrando a uma frequência igual, de modo que nada em particular se destaca e tudo permanece potencialmente significativo.
Esta sensação eminente da tragédia que percorre toda a narrativa também atravessa do leitor de forma violenta.
Em Affect and American Literature in the Age of Neoliberalism, Rachel Greenwald Smith examina o efeito da “Affective Hypothesis” ou a crença de que a literatura é mais significativa quando representa e transmite especificidade emocional das experiências humanas, ligando essa hipótese com o impacto do neoliberalismo na existência contemporânea.
“These subjective aspects of neoliberalism coincide startlingly with the assumptions underlying the affective hypothesis. While neoliberalism casts the individual as responsible for herself, the affective hypothesis casts feeling as necessarily owned and managed by individual authors, characters, and readers. Neoliberalism imagines the individual as an entrepreneur; the affective hypothesis imagines the act of reading as an opportunity for emotional investment and return. The neoliberal subject is envisioned as needing to be at all times strategically networking; feelings, according to the affective hypothesis, are indexes of emotional alliances.”

Não há recompensas em Ruído Branco: o vazio, que permeia as existências dos personagens e cada trama da história, dilata a distância entre cada aspecto da narrativa até que ele seja a única possibilidade de experiência para o leitor. O livro nos apresenta mundos fragmentados que em seu despedaçamento formam, estranhamente, um universo completo. Essas vidas esfaceladas funcionam como círculos dentro de círculos, como um alvo, construindo uma fortaleza de significados em torno de Jack Gladney.
Exemplo disso está no ultimo capítulo do livro, Wilder — o filho mais novo de Jack e Babette — depois de andar de triciclo pelo quarteirão, passa pela rua sem saída e leva a bicicleta até a beira da estrada. Ele pedala através das duas faixas de tráfego, parando apenas brevemente para levar sua bicicleta pelo meio gramado enquanto os carros passam, assustados e confusos. A tragédia está no não-acontecimento, na possibilidade imaginada, mas nunca dita pelo livro. A tragédia está no leitor.
Jack, Babette e Wilder vão para o viaduto para assistir ao pôr-do-sol, que, após o desaparecimento da nuvem tóxica, tornou-se uma experiência em alta definição, muito superior à vida antes do apocalipse. Jack observa que a maioria das pessoas não sabe o que sentir quando se depara com esses lindos pores-do-sol. Os homens em trajes de proteção da empresa responsável pelo desaparecimento da nuvem tóxica e todos os treinamentos e simulações de sobrevivência, permanecem na cidade, coletando seus dados sem alcançar qualquer tipo de informação e o supermercado reorganiza os itens em suas prateleiras, jogando os idosos em estado de pânico e confusão. A vida permanece.
DeLillo desafia o leitor ao entregar um livro onde a narrativa e a consciência dessa narrativa testemunham contra suas próprias existências. O fio que conduz a narrativa é substituído por pequenos recortes de cordas tecidas por outros pequenos recortes de narrativas que se contrapõem em um caos profundo e, ao mesmo tempo, habilidoso ao formar, para o leitor, um exterior de ordem, uma consciência esfacelada que se entende completa. O ruído branco da vida.

