Her?

“Ela não é apenas um computador.”

Levando em conta o livro “Cibercultura” (1997), de Pierre Lévy e fazendo uma analogia com o filme “Her” de Spike Jonze a partir da ótica de que a trama do filme se desenrola num cenário sutilmente mercadológico, onde não se explicita o fato de o sistema operacional nomeado Samantha (Scarlett Johansson), co-protagonista do filme ser um produto que é comprado pelo sensível e solitário Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), um escritor de cartas profissional da cidade de Los Angeles e também a emergência do ciberespaço no filme, que é condicionante para as relações entre humano e tecnologia. A própria profissão de Theodore já evidencia o quanto as tecnologias permeiam as relações humanas naquele cenário que mais parece um “futuro vintage”. A existência de um profissional escritor de cartas mostra a necessidade da técnica entre a interação humana.

Sendo sucessor de um SO menos moderno, o OS1 (ou Samantha, se preferir), promete proporcionar uma melhor interação com o ser humano, ou seja, seu dono, o que de fato acontece ao longo da trama. Os sistemas operacionais acabam por fazer parte das relações pessoais entre humanos, ocupam espaços de melhor amigo(a), namorado(a), amor de sua vida… E é a partir daí que se questiona tanto a racionalidade dessas relações, como evidencia uma fala da própria Samantha no filme: “Esses sentimentos são reais ou apenas programação?”. Mas o que é considerado real sob essa perspectiva?

Falando em virtualização, o autor destaca que a partir da acepção filosófica: “É virtual toda entidade ‘desterritorializada’, capaz de gerar diversas manifestações concretas em diferentes momentos e locais determinados, sem, contudo, estar ela mesma presa a um lugar ou tempo em particular” (1999, p. 47). Portanto a relação de Theodore e Samantha não deixa de ser real por ser virtual.

Já a romantização da aquisição do sistema operacional no filme pelo personagem Theodore dificulta — mas não impossibilita — que se observe as relações de marketing existentes no filme. A imposição do mercado para a atualização de um software por outro mais avançado, não deixa de ser igual como já acontece atualmente. Os meios de tecnologia estão sempre em modificação e com isso, empresas que fornecem estes produtos estão sempre estimulando a aquisição de uma nova versão deste produto através de ações de marketing. No filme isso acontece de forma sutil, já que o diretor foca nas tecnologias digitais como meios de propiciação e suprimento de relações afetivas.

A sacada do diretor é genial, por fugir dos convencionais filmes de ficção científica, dispõe de um roteiro brilhante que une amor, ciência, melancolia, mercadologia, relações afetivas e virtuais. É um filme que, sem data ou lugar aparente, nos faz refletir nas nossas relações do presente. Até que ponto estamos nos satisfazendo de relações virtuais em detrimento das físicas? Já que o virtual também é real. Fica aí o questionamento enquanto eu ouço “The Moon Song” (por sinal, que trilha sonora linda).

Desculpa, “Black Mirror”, mas isso é muito “Her”.

“Tocar música da bad.”
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