Vocês só enxergam “turbantes” porque isso lhes convém

Se o pessoal das internet que acha que sabe de tudo fizesse um esforço mínimo de escuta, saberiam que o debate sobre “apropriação cultural” está inserido num conjunto de lutas e discussões sobre as relações entre cultura e racismo, que articula diversas outras ideias e conceitos, e que é travado por um conjunto de grupos, militantes e intelectuais. Com esse exercício de escuta, vocês teriam um pequena noção do quanto os nossos corpos pretos são cotidianamente interditados, interrompidos, tocados e objetificados. E que, talvez, deveriam dedicar esse tempo todo que usam na ~desconstrução de conceitos~, para somar nessas lutas também, já que vocês demonstram tanto interesse no assunto.

Essas interdições são muitas e, só pra exemplificar, vão desde a necessidade de estar sempre bem vestido pra evitar “confusões” e “mal-entendidos”, até a opinião que ninguém pediu sobre o meu “estilo exótico”, passando por um intimidade tirada de não sei de onde pra tocar ou comentar sobre nossos cabelos e corpos no meio da rua. Isso somado, é claro, às violências que nos negam acesso espaços como lojas (ou pelo menos um acesso condicionado a olhares desconfiados), a determinados empregos (não ser que a gente adeque nossos corpos às “normas da empresa”) e que, no limite, nos tiram a vida.

As timelines revoltadas diante dessa história do turbante (sério que vocês ainda estão nesse assunto?) somadas ao silêncio sepulcral diante dos nossos sofrimentos cotidianos não me dão outra alternativa, a não ser dizer: vocês são racistas. Vocês podem até achar que não são, podem teoricamente se posicionar contra o racismo mas, nesse momento específico, vocês fazem coro com o racismo. Reprodução pura e simples da estrutura racista em que vivemos. Isto porque, além de se preocupar, dar opinião ou ~corrigir~ os outros, a luta antirracista passa antes de tudo pelo exercício da escuta de quem o vivencia, o estuda e formula. E aí, somando a estes sujeitos, pensarmos juntos as soluções políticas pra isso.

Não nos ouvindo, vocês reproduzem o racismo que nos silencia e nos mata cotidianamente. O racismo que até hoje tenta nos alienar de nossa história, de nossos vínculos identitários. O racismo que nos nega a contribuição de nossos povos na formação da cultura e da história mundial, de nossos conhecimentos tradicionais, artísticos e científicos. O racismo que autoriza a gringos a nos pararem na rua, perguntarem se sabemos sambar (cadê a indignação de vocês?). O racismo que autoriza a brancos perguntarem como fazemos pra lavar nossos cabelos black power, dreads e tranças (cadê a indignação de vocês?). O racismo que autorizou um sem número de pessoas absolutamente aleatórias que já me gritaram na rua “vai cortar esse cabelo, vagabundo!” (cadê a indignação de vocês?).

O racismo que sempre põe nossas pautas em suspeita, que “até entende que realmente o racismo é um problema grave”, mas estão procurando o momento de dizer “aí não, vocês já estão exagerando!”, “vocês já estão sendo radicais!”, “vocês querem tudo pra vocês!”, “vocês não estão entendendo bem… deixe-me explicar”. O racismo que quer nos corrigir, adequar nossos pressupostos conceituais e metodológicos, nos ensinar a viver e lutar. Racismo que está sempre disposto a rir e debochar de quem somos, sempre disposto a nos chamar de “emotivos” e “irracionais”. O racismo que põe nossas vidas e vozes em suspeita.

Vocês só enxergam turbantes enquanto gritamos por nossos corpos, nossa história e nossas vidas. Vocês não entenderam coisa alguma mesmo.

Vocês só enxergam turbantes porque vocês querem ser coniventes com isso tudo. Vocês não querem ser expostos em seu racismo. Vocês não querem ser racializados. Vocês odeiam abrir mão do conforto e do privilégio branco. Vocês amam ser a norma, a regra, a métrica universal que mede o mundo.

Vocês não se enxergam — e amam isso.