A maior de todas as metáforas

Ainda estou sofrendo com o fora que levei. Ando pela rua tentando me convencer de que ele é um babaca, um não merecedor do meu sentimento, mas quanto mais me esforço para provar que ele não presta, mais óbvia fica a extensão do meu amor, e todos os meus tiros saem, uma saraivada de balas vãs, pela culatra.

Talvez para parar de pensar nele, interrompo o fluxo automático dos meus passos e entro numa praça, numa passarela que logo dá num parquinho. Três babás ocupam o único banco disponível, de forma que sento numa gangorra, numa tábua de madeira pintada de um vermelho já não tão vermelho assim. A menina aparece, não sei de onde. Senta na outra ponta da gangorra e, com os pés suspensos, faz força para baixo, me obrigando a gangorrear com ela. Deve ter uns seis, sete anos. Uma figura simpática, de sardas e franja. Mas eu estou na fossa, eu não quero exercitar as minhas pernas dessa maneira. Depois de subir e descer umas cinco vezes, aponto em volta para outras crianças que correm para lá e para cá e digo para a menina: por que você não brinca com eles? Pega-pega é legal. Ela dá mais um impulso para cima e diz: porque não posso correr. Faço uma vistoria rápida no seu corpo. Tem dois braços, duas pernas, uma cabeça. Qual o problema? Como adivinhando a minha pergunta, ou apenas querendo manter a dinâmica verbal e mecânica agora estabelecida entre nós, ela continua: eu uso marca-passo. Paro por um segundo, me pergunto se a menina está brincando. Ela continua: tenho uma doença congênita. E agora tenho certeza que ela não está brincando, que outra criança falaria essa palavra com a naturalidade de quem fala bola, vassoura, sabão? Ela continua: meu coração bate fraco, pode parar a qualquer hora. Me assusto com a informação. Imagino a menina parando de funcionar na minha frente, como um daqueles soldadinhos que gastam a pilha e estancam no meio do movimento, um braço a meio caminho, o sorriso congelado no rosto. Mas ela segue se mexendo, os pés impulsionando-se contra os pedriscos, a existência teimando em existir, um pequeno resumo do que somos nos pés impulsionando-se sem parar contra os pedriscos, e então reparo que as sapatilhas que ela usa têm corações, um estampado na ponta de cada pé. Ela percebe para onde olho e diz: tem coração em tudo que é lugar. Você nunca reparou? Nunca, digo, e paro um pouco para pensar, e nessa hora (e depois) me vem a cabeça coração em capa de caderno, em camiseta, em almofada, em cartão de aniversário, em papel de presente, em peito de Nossa Senhora, em neon de sex shop, em pote de margarina, em pichação de muro, em abertura de novela, em logomarca de seguro, em embalagem de camisinha, em pano de prato, em bíceps tatuado, em árvore talhada, em expressões como coração despedaçado, coração de mãe, meu coração saiu pela boca, em não sei quantas letras de música. Me dou conta de que essa é a metáfora mais usada de todas (talvez nem tudo esteja perdido enquanto a metáfora mais usada de todas for relativa ao amor). Depois impulsiono a gangorra de novo e digo para ela:

Meu avô também usa marca-passo.

E ele não acha ruim não poder correr?

Acho que não, digo sorrindo.

Percebo que ela fica intrigada, certamente pensando em como meu avô não se importa com algo tão relevante.

Logo depois uma outra menina aparece e chama a sardenta para ir com ela ao balanço. Eu fico mais um pouco por ali, observando as duas, me sentindo ridícula por choramingar por causa de um homem que não me quer, enquanto esse serzinho tão mais novo do que eu se debate com um problema tão mais importante. Mas assim que saio do parque meu peito volta a apertar, de dentro desse lugar do qual nunca escaparemos meu peito voltar a apertar, como uma folha de plástico se retorcendo perto da chama de um isqueiro. Será apenas uma metáfora?