A profecia

Você passou por mim naquele parque? Devia ser você, eu queria que fosse. Ainda que eu não soubesse o que dizer ou como me comportar (em todas as vezes que eu ensaie você não podia rebater os meus argumentos, me calar ou me fazer sentir mais envergonhado do que estou agora), eu sequer sei ao certo se conseguiria me aproximar e dizer algo. Mas eu faria questão de ficar parado alguns instantes, olhando e analisando todos os gestos, decorando os trejeitos e imaginando a cor dos seus olhos quando vistos bem de perto, só para eu poder ter você mais uma vez. Eu não sei dizer ao certo como chegamos aqui, ou melhor, como não chegamos. Era você, eu tenho certeza. Ainda é você, eu sei. Mas a minha inabilidade para demonstrar isso quando ainda valia algo nos arruinou (ou quem sabe foi a minha insistência em decidir tudo sozinho, incluindo o dia em que eu conclui que deveria parar de ter magoar em definitivo, sem te consultar, sem saber se era isso que você queria, sem tentar). Não ter tentado deve ser o motivo para o meu estômago ter assumido o controle do meu corpo e eu estar sempre com esse nó na garganta e no peito, que temo que nunca irá passar. Eu sempre tive tantas coisas para te dizer, mas não disse nada, é essa a sensação, todas as coisas que eu te disse, foram poucas para o acúmulo do que tenho agora.

Eu sei que, caso você fosse aquela garota, manteria distância de mim e eu te daria razão. Talvez até me ouvisse por educação ou quem sabe só acenasse com um sorriso de mágoa e tristeza. No fim, foi o que eu deixei. Ter consciência disso me mata aos poucos todos os dias, são esses mesmos dias que passaram a ter 72 horas e não fazem mais sentido algum. Sabe aquele filme de terror que você nunca viu até o fim? Aquele desenho animado? Aquelas músicas? Eles são todos maiores agora, infinitamente maiores do que eu, porque eles são você.

Você me achou, me resgatou e sequer sabe disso. Todo aquele caos dentro de mim costumava ser acalmado pela sua implicância, pela sua discordância, pelo que você me causava tarde da noite quando eu só queria ficar e a gente precisava dormir.

Eu ia te magoar, você ia acabar me odiando.

Agora, sozinho, seguindo os meus dias, eu sei que acabou. Não existem mais chances quando já se esgotou as possibilidades. Como poderiam existir? Agora que, de alguma forma, estou pronto para me sentir inteiro, não mais poderia ser preenchido. Agora que eu sei que sou teu, do que me adianta?

Esse último ano eu não sei traduzir o que eu fui, mas sei que fui tudo que você nunca imaginou e da pior maneira. Envergonhado, eu gostaria de apagar completamente alguns dias e algumas conversas, quem sabe o ano inteiro.

Há dois meses eu tento me reencontrar, dois longos e infindáveis meses, mas parece impossível, no caminho a seguir não existe você. Sozinho, eu sei, nada poderia nos atrapalhar, mas é tarde e a profecia já se concretizou.