Dedê
Ela é a mais nova membra de uma família com, agora, quatro integrantes. Bem carequinha, a Dedê é a alegria de seu pai, o Chocolate, um negão quatro-olhos que sempre quis uma menina e, enfim, pôde realizar seu sonho. A mãe, Perninha, penteia com um garfo seu permanente da moda e está sempre ligada com aquela espevitada bebê, que faz e acontece agora que está aprendendo a andar no andador.
É domingo de manhã, devia ser novembro ou dezembro tamanho o calor que fazia no bairro das Castanheiras, um sol senegalesco daqueles que o ovo frita ao se espatifar no asfalto. E, claro, um dia como esses pede o quê? Exatamente, tirar o carro da garagem pra lavá-lo. E o Chocolate tinha uma charanga maneiríssima, um Corcel II verde-água, daqueles que, se bem cuidado (o que não era o caso desse), chamava a atenção em qualquer lugar que chegasse.
Balde com sabão e pano de chão velho em mãos, o patriarca dessa família pede auxílio ao pequeno Ginsana, o filho mais velho de cinco anos que adora brincar de bola e de futebol de botão. O garoto adorava fazer aquele tipo de trabalho com seu pai, haja vista que não o via com frequência durante a semana, já que o Chocolate era um honrado contador com um escritório no centro da cidade. Perninha era uma bibliotecária de respeito, mas estava de licença do trabalho pra cuidar da protagonista da história.
Bom, a dupla masculina dá início aos trabalhos de deixar o Corcel brilhando, enquanto a dupla feminina está brincando na sala de estar, próxima à porta que dá pra garagem do sobrado em que moravam. A panela de arroz está no fogo cozendo, Perninha pretende fazê-lo junto com um feijão preto e uma carne assada que dá gosto só de imaginar. Ela era um monstro na cozinha, minha nossa.
Numa distração, Perninha sente um cheiro de queimado do seu arroz e pede, aos berros, para Chocolate ficar de olho na bebê. Ele dá de ombros, ocupado que estava cuidando do possante e também porque o samba do Fundo de Quintal estava no talo. O ritmo acalmava o pai e ficava na memória do Ginsana, que crescera nesse meio e aprendeu a gostar desse tipo de música.
E aí, deu-se a melódia, como diria o outro. Não é que a espevitada criança que acaba de vir ao mundo e está aprendendo a andar saiu na rua sozinha? E nenhum dos três se deram conta da ‘fuga’ da Dedê. A mãe teve de ficar um tempo a mais na cozinha cuidando dos preparativos do almoço, pai e filho estavam entretidos na atividade de limpeza e ela saiu por aí. A rua em que moravam era movimentada, a calçada era uma descida cheia de imperfeições por conta dos maus tratos dados pela prefeitura da cidade, ou seja, a Dedê poderia ter tropeçado e se machucado feio. Mas foda-se, ela saiu sozinha e todo mundo daquela casa ficou moscando.
Quinze anos depois, essa história voltou à tona. O Ginsana e a Dedê já eram mais velhos, aborrecentes malas com hormônios em constante transformações, coisas da idade. A mãe deles contou a história acima mas nunca a tinha terminado, passou-se tanto tempo que aquilo se perdeu na memória de Perninha.
Assim, novamente num domingo de manhã, todos acordados pra tomar aquele café em família que poucas coisas são mais legais que isso. Os meninos lembram das peripécias de bebês, perguntam aos pais como eles eram nessa fase. Os dois, claro, babões, lembram de coisas que podem achar uma babaquice sem tamanho mas, para eles, são lembranças muito bacanas. E torna a Perna lembrar da história da fuga de Dedê. O diálogo é mais ou menos assim:
“Vocês sabem que, nesse dia que a Dedê saiu sozinha, eu fui tomada por um desespero tão grande que vocês não tem nem ideia. Eu saí pra procurá-la na rua e, logo, dei de cara com ela segurando na mão de uma senhora.”
“E aí?”
“Essa senhora falou que a encontrou no final da rua e a Dedê disse a ela que morava aqui…”
“Mas você lembra dela?”
“Aí que está: quando eu fui agradecê-la por ter achado a Dedê, ela já tinha sumido. Eu nunca mais a vi pela vizinhança”.
“Nossa, deu até um negócio estranho agora”
“Filhos, vou dizer uma coisa, seu pai acho que nem sabe disso mas, pra mim, quem trouxe a Dedê de volta na mão foi minha mãe, nada me convence do contrário!”
“Como assim, sua mãe?”
“Parem e pensem: a bebê saiu sozinha, voltou de mão dada com uma senhora que nunca mais foi vista por aqui, até tentei dar uma volta pelo bairro pra ver se eu a achava e a agradecia pessoalmente por isso, mas nunca mais a vi. Só pode ter sido minha mãe, ela sempre me protegeu de tudo, a nossa ligação era uma coisa muito forte, vocês sabem disso! Não tem como isso ter sido coincidência…”
A explicação da mãe fez todo o sentido pras crianças, até hoje eles disseminam essa história por aí, talvez por serem pessoas com a fé muito aflorada e não acreditarem em coincidências, afinal, isso foi a maneira que Deus encontrou para permanecer anônimo, não é?
