Que a injustiça não me seja indiferente

Como jovem profissional de jornalismo (e desempregado) vivo um dilema.

De um lado, minha formação como pessoa me faz acreditar em alguns valores que estão sendo frontalmente atacados pelo governo. Falo da dignidade do trabalhador. De outro lado, meu desejo de trabalhar fazendo o que gosto me dá medo de manifestar esses meus valores publicamente.

Isso porque empresas e chefes (jornalistas como eu, só que alçados a posições de comando) muitas vezes, são porta-vozes de discursos e autores práticas que vão de encontro a minha postura como profissional. E não me refiro aqui a opinião política, religião ou paixão clubística, afinal todos têm a liberdade de pensar como quiserem…

Me refiro a algo que já vi e vivi na minha curta experiência no mundo do jornalismo. Foram situações lamentáveis, nas quais jornalistas expõem outros jornalistas a constrangimentos inaceitáveis como racismo, jornadas exaustivas, salários de 300 reais, homofobia, machismo, assédio moral, flexibilização de direitos garantidos por lei e por aí vai.

Por vezes, a necessidade do emprego faz com que muitos colegas aceitem a exploração. Não os julgo. Só quem sente o calo apertar sabe como é. Eu, por não sustentar nenhuma casa ou família ainda, pude me dar a oportunidade de rejeitar lugares como esses.

Mas não sem medo do futuro…

Porque, como muitos trabalhadores que não têm condições de negociar o valor de seus atributos profissionais com o patrão de maneira justa, eu tenho medo de não poder negociar os meus atributos como jornalista — lidar com fatos, opiniões, controvérsias, conflitos e tudo o que irrompe da superfície lisa da história — crendo no que eu creio, precisando do que eu preciso e sendo quem eu sou.

Tenho certeza que minha formação como cidadão e jornalista não me impede de fazer o meu trabalho de maneira correta. Mas as empresas e chefes que agem da forma mais perversa querem um profissional assim ou querem alguém que seja conivente com a lógica exploradora que eles mantêm?

Correndo riscos, me lembro da música de León Gieco imortalizada em vozes geniais como as de Mercedes Sosa e Beth Carvalho. Eu só peço a Deus que, com medo ou sem medo, eu não seja indiferente a tudo o que está acontecendo.

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