*Antes que a Barbárie Assombre a Todos*

Creio que boa parte das pessoas que foram às ruas protestar contra a corrupção e apoiar o impeachment da presidente Dilma o fizeram na busca por dias melhores. Queriam a correção do mal feito, em vez de "estancar a sangria". Queriam a moralização da política. Paz e justiça!
Não perceberam porém os sinais degradantes que surgiam nas imagens misóginas da primeira mulher presidente ou do seu boneco pendurado numa forca. Parecia mera pilhéria o deboche da mão deficiente faltando um dedo. O direito de oposição confundia-se com a vazão de primárias atitudes de escárnio ao ser humano. Não prestaram a atenção de que o futuro pós-impeachment não seria a imagem do civismo verde-amarelo, mas o desabrochar de selvagens filhotes latentes nos ovos de serpentes que se espalhavam.
Independente de paixão política esquerda X direita, o que o descortínio anti-ético dos médicos que riram e desejaram a morte da moribunda ex-primeira dama revela? Há algo no ar denunciando que, em vez de melhorar e ser pacificado, o país está degenerando. Em vez do fim da corrupção, estamos vendo a dignidade da pessoa dando lugar à insanidade. Vai ruindo o respeito à diversidade e os sentimentos cristãos. Preocupantes sintomas de uma barbárie vão ganhando força, e só parece piorar.
Ódio, intolerância, morbidez, violência, xingamentos, desumanidade, chacinas e mortes seriam apenas a estridente linguagem própria da sociabilidade nascida do golpe, não fossem os valores constitutivos de uma cruel sociopatia almejada e defendida por líderes de largas parcelas hoje muito influentes. Hora um juiz determina ilegal e seletiva condução coercitiva de um cidadão sequer acusado e buscas humilhantes ao leito de uma mãe em repouso; um secretário de governo defende que detentos se degolem; médicos prescrevem procedimentos de morte; um deputado se gaba de ameaça de estupro a uma colega; e, um procurador de justiça destila ranço mortífero contra uma mulher somente pelo fato de ser esposa de seu desafeto político. Não há mais compaixão? Demostrações de horror vão se tornando rotina sob aplausos de muitos. Não Justiça e paz vão sendo pisoteadas.
Ficamos com a sensação de estarmos dentro de um macabro filme de jogos mortais. Antes fosse uma ficção. Como podem as pessoas estarem alheias a esse horror social? Será que é porque essa trágica violência não chegou aos lares de quem "não gosta de política"? Ou, será que tanto ódio acabou com a noção de limites? É preciso reagir, antes que a barbárie assombre toda a sociedade.

Gilberto Neves, professor e advogado.

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