PT: UMA CHANCE PARA SE REINVENTAR

Digo: o real não está na saída nem na chegada. Ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. João Guimarães Rosa.

Refleti se valeria a pena perder tempo escrevendo uma reflexão sobre o PED PT UDI. Pelo que tenho visto, o nosso diálogo é sempre uma disputa de narrativas. As palavras não conseguem comunicar, no sentido de atingir o outro; de ler e de provocar reflexões. Não conseguem comunicar porque não há entre emissor e receptor disposição de dialogar. Sem essa disposição a palavra de nada serve. A maioria de nós sequer lê os textos. Prefere-se o "ouvir dizer", a "queimação" ou a "fofoca". Tiramos conclusões parciais. Não há síntese possível entre semelhantes. Então, pra que escrever? Mas vou tentar… quem sabe?!

A burguesia está executando seu plano de morte do PT, do fim de Lula e de destruição do projeto democrático-popular petista. Somos odiados e criminalizados o tempo todo. Querem "extinguir a raça petista". E, nem assim, somos capazes de nos unirmos contra o inimigo de classe? Ou, pela nossa sobrevivência histórica? Em todos os níveis, o PT não consegue firmar fins comuns para reagir e derrotar nossos antípodas. Seguimos sentados no próprio rabo, socando o dedo no olho do outro. A comunidade PT morreu antes da sua possível extinção?

Por que não levantamos bandeira branca (ou vermelha?) adiando por um tempo as eternas lutas internistas? Por que não sermos generosos ao menos uma vez? Seremos incapazes de construir uma síntese narrativa, na qual cada um possa admitir que o outro está correto nisso, eu errado naquilo? E, vice versa? Não significa negar diferenças ou divergências; apenas, estabelecer objetivos comuns e buscar os pontos de convergências para a travessia dessa tormenta que pode ser mortal. Igualmente, renegar o secundário (o poder partidário e o controle do aparelho a qualquer custo!). Se olharmos os textos das chapas há mais de 90% de concordância sobre o inimigo, as bandeiras de lutas e as palavras de ordem. Todos falamos em mudar, mas só queremos a mudança se "meu grupo" detiver o aparelho. Mesmo que seja um aparelho falido. Nossa maior crise partidária é também a crise de nossos vícios, aparelhismos e sectarismos. Envelhecemo-nos em idade, em concepções e em práticas. Mudar é imperativo! Mas a real mudança somente se fará na travessia, não na chegada.

No caso do PT Uberlândia, nossa crise tem três condicionantes: o golpismo e a odiosa criminalização, a profunda derrota do governo municipal e a completa falência organizativa do partido. Muito já se falou dos culpados e responsáveis. A DS fracassou na prefeitura e na direção do PT; os "pradistas" foram autoritários e nos traíram; os mandatos se sobrepuseram ao PT, afastando o partido ou deixando de contribuir para investir nas suas estratégias eleitorais; os comissionados não contribuíram nem participaram etc. Todos temos alguma responsabilidade, maior ou menor. Todos sabemos dos problemas.

Mas agora se trata de reorganizar o partido, até para haver o que disputar. Em dois anos de mandato, é possível, juntos, envidarmos esforços para uma unidade de autodefesa da comunidade petista e soerguer a estrutura partidária. Para construirmos uma nova maioria, dando espaços às forças e pessoas que não dirigiram o PT. Fazer um esforço democrático de convivência de todas as forças e independentes participando da direção. Em especial, com o gesto de recuo das duas forças que foram majoritárias no PED anterior.

De que serve dispender energias para culpar esse ou aquele pela falta de quórum no PED do dia 09 de abril? O fato é que há uma oportunidade de ouro para nos darmos as mãos. Para mudar de verdade! De início, evitarmos a despolitizada repetição do falido PED, e realizarmos um congresso de real debate político. Que asseguremos regras factíveis de participação e de quórum para esse congresso. Acreditar que a mudança começa na travessia para atingir as grandes mudanças. Trazendo novos e históricos petistas para construirmos uma agenda positiva. Com espírito de composição em um salutar, respeitoso e franco debate interno.

Inquieta-me a consciência e dói-me a alma ser mais uma geração da esquerda a condenar-se ao melancólico destino de somente se unir "no câncer ou na cadeia". Temos a chance de mudar e reinventar o PT. Vamos perder essa chance?

Gilberto Neves, petista.

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