Não-exposição de um não-lugar

Gente, alguém me explica aquela exposição do CCBB? Erwin Wurm a apresenta como O Corpo é a Casa. Até aí, tudo bem. Se levarmos para um lado mais espiritual, como os rastas que acreditam no corpo como templo, ou os yogis, que se apropriam do corpo como forma de equilíbrio e sabedoria… Mas ei! A exposição não tem nada a ver com isso! Logo de cara, tem uma casa gigante dos Smurfs, você entra dentro dela e tem um vídeo da mesma falando! Sobre relações filosóficas entre o homem e a casa, a necessidade da casa pro homem, a arte na arquitetura… Ou melhor, um professor de arquitetura em formato de casa dando aula!

- Colé, zé! (image source)

Ok, vamos lá, depois dessa introdução suave, com um Relâmpago McQueen deformado ao lado (apud. Wendell), resolvi dar uma chance ao artista, na expectativa de me surpreender, assim como me surpreendi com a Patrícia Piccinini. No caso desta, apesar de passar ideia de entretenimento (olha, o menino vai cair das cadeiras!), existe um conceito forte em seu trabalho, sintetizando a evolução humana a partir das máquinas, em uma relação simbiológica. É muito mais que entretenimento, quando você entra em uma sala com poros audiovisuais executando composições ofegantes e constrangedoras, mas ao mesmo tempo, tão íntimas e familiares. Ou até mesmo, seus girinos em formas automobilísticas, levando a espécie máquina para outro patamar de desenvolvimento. Dá para viajar…

(image source)

… Diferente desta atual. Segui hesitante e resistente, apesar de ignorá-la durante maior parte da temporada. Ultimamente, tenho notado um gosto duvidoso por parte da instituição, no que diz respeito à propostas de ocupação de suas galerias. Exposições voltadas para o livre entretenimento das massas, angariando muitos visitantes e pouco senso crítico. Entre nós, a exposição anterior, ainda possibilitava certa imersão em torno de conhecidos como Van Gogh, Portinari ou Modigliani. A figura humana (descrevendo a temática) percebia-se muito mais plausível e palatável, sendo que uma hora ali ainda poderia tornar-se muito pouco para entender movimentos que influenciaram a inspiração destes artistas, através de recortes curatoriais. Wurm infelizmente, não convenceu. Haviam pedestais que propunham a interação entre pessoa/pessoa e pessoa/objeto, por meio de ações pouco pragmáticas e levemente bobas. Allan Kaprow conseguiria melhor em performance, ou até mesmo, os restritos objetos sensoriais da família Clark. Quando pensei ter visto de tudo, eis que me deparo com uma sala cheia de pepinos e salsichas, salsichas banhadas a ouro, salsichas dançando, e entre elas, a fotografia de uma moça expelindo saliva em seu copo de bebida, com olhar de desejo e sedução. What?

Mensagem subliminar, dãhnn. (image source)

E tem mais, mobílias amassadas, com marcas de pneu, produzidas por materiais que nem eram de mobília. Tratava-se da escultura de um objeto doméstico deformado, ou o que quer isso significasse.

O Relâmpago McQueen agora perdeu o sentido, pensei. Nem estrutura de carro ele tinha mais, só enfeite… (image source)

Assim como Anitta e Pabllo Vittar, o artista demonstrou que também sabe jogar bem na sua cara, reservando a sala final para exibição do clipe musical de Can’t Stop, de Red Hot Chili Peppers. Sim gente, eu não sabia, ele trabalhou na composição do vídeo (sic). Melhor que ele agora, só o Gringo Cardia. Minha mente ficou tão perturbada e ameaçada que digitei este texto, por fim, na expectativa de que nossa sanidade nunca se perca, e ainda que em tempos difíceis, reflitamos.

That’s all folks! (image source)