Desculpe o transtorno, preciso falar sobre o Pedro

Bem, vamos lá. Quem me conhece e já conversou alguma vez sobre relacionamentos comigo sabe quem foi o Pedro. Saber quem foi o Pedro não é necessário para a leitura desse texto, mas vamos lá, um breve resumo. Pedro foi um rapaz por quem eu fui ridiculamente apaixonada e com quem não tive chance alguma. Quer dizer, dizem as más línguas que chance eu até tive, mas não soube aproveitar. Enfim, não deu certo. Ele era apaixonado por outra menina e eu nunca tive chance. Ele vivia perseguindo um fantasma e eu também.
Pedro é também o personagem masculino principal de quase todas as minhas histórias. Mas não é o mesmo Pedro. Não é o de carne e osso. Não. O meu Pedro é o Pedro da expectativa. Tudo o que eu imaginava que o Pedro — o muso inspirador — fosse. Há muitos anos ele deixou de ser aquele Pedro (real) para se tornar esse Pedro (literário) — e esse Pedro é muito melhor que o original. O motivo é simples: ele não existe.
O Pedro real também teve uma musa, ah sim, Ana. Às vezes eu acho que ela foi apenas fruto de sua imaginação ou excesso de Engenheiros do Hawaii. Ele também se passou por amigo imaginário durante muito tempo. “Vocês estão inventando ele”, diziam. Talvez, de certa forma, ele fosse sim inventado. Uma amiga minha também se apaixonou por ele. Nesse momento vocês devem estar achando que ele era o cara mais incrível do mundo, não é? Bem, ele era. Para mim, naquela época, pelo menos. Mas ele era um cara normal, só mais um menino nerd que cresceu nos anos 90, meio gordinho, inseguro, tímido, que ouvia músicas espanholas bregas. Não tinha nada que o destacava das outras pessoas. Ele era mais um, seguindo o fluxo. E eu o amei e C. também, eu acho, o amou. Escreveu, inclusive, um conto belíssimo sobre ele e esse talvez seja um dos motivos pelos quais eu ainda escreva sobre ele: nenhuma das minhas histórias é tão triste e intensa quanto a dela. C. talvez tenha o amado até mais do que eu — ou ela só escreve melhor mesmo.
Um dia eu escrevi uma carta para ele, dizendo tudo o que eu sentia. Nunca a entreguei. Escrevi no meio de uma madrugada regada a lágrimas e guardei durante muito tempo dentro de uma gaveta, até que decidi rasgá-la. Tempos depois escrevi outra carta; essa eu entreguei. Eu tenho ela até hoje, a cópia. Nunca consegui me desfazer. Foi a carta mais honesta que eu já escrevi para alguém. Escrevi também um conto intitulado “Te amo até te matar”, onde eu o mato, metaforicamente, claro. E durante um tempo adiantou. Eu havia fechado o ciclo.
Mas o que eu não entendia ainda naquela época é que, há muito tempo eu já não falava mais do Pedro real. Todos meus escritos, incluindo a última carta, apesar de baseada na pura realidade, eram a mais verdadeira forma de ficção. Pedro se tornou uma ideia, ou melhor, um ideal. O homem perfeito. O cavaleiro na armadura dourada. Sérgio Mallandro a cavalo em Lua de Cristal.
Agora, existe uma frase do Lawrence Durrell, erroneamente atribuída ao Henry Miller, na qual ele diz: “There are only three things to be done with a woman. You can love her, suffer for her or turn her into literature.” Eu levei essa citação para o coração e para o papel. Pedro é tão imaginário quanto Beatrix Kiddo, apesar de menos violento. Ele gosta do oceano, sabe velejar, deixou o cabelo crescer, salvou uma menina do suicídio. A única coisa que eles tem em comum é a cor dos cabelos e gostarem de Engenheiros do Hawaii. E eu, claro, me metendo em suas vidas.
Hoje eu li o início de um livro que um rapaz me passou. Umas duas semanas atrás, eu li uns poemas que um menino me enviou. Eu ouvi um podcast falando sobre escrita criativa e sobre a necessidade de criar. Eu não escrevo para ser famosa, eu não escrevo para ganhar dinheiro. O motivo pelo qual eu escrevo está na minha bio. Está também na definição de poesia que John Keating dá para seus alunos em Sociedade dos Poetas Mortos. Escrevo histórias que me alegram, que exorcizam meus demônios, que me permitem viver um dia após o outro. Eu amo escrever, talvez seja uma das coisas que eu mais ame nessa vida. Não é a toa que eu escolhi trabalhar com livros. Uma boa história pode mudar a sua vida.
Ainda na adolescência eu comecei a escrever um conto chamado “Filha da mãe”. O Pedro também está lá. Foi uma das primeiras aparições dele, inclusive. Eu nunca terminei de editar esse conto, pois ele é tão real pra mim, que se torna difícil.
Ambos os Pedros vão continuar existindo. O real, eu espero que esteja bem. Espero que esteja feliz. O outro ainda tem muitas aventuras para viver. Um foi uma das pessoas que eu mais gostei. O outro é o único homem que eu amo agora (com exceção do Jess de Gilmore Girls, claro). E a vida continua. Só não podemos parar de vivê-la e criá-la.
