As últimas semanas estavam sendo na realidade uma total perda de tempo e de dinheiro para R. Lênio até que na terça feira de manhã depois de ter andado alguns metros entre onde desceu do ônibus e a portaria do prédio onde ficava o escritório onde trabalhava lhe ocorreu que um indigente velhaco o surpreendeu e segurou com força — usando as duas mãos — seu braço esquerdo, tartamudeando com uma linguagem que era indiscriptível em meio ao barulho do trânsito que os rodeava. Lênio levou a mão direita — a que estava livre — ao bolso de trás da calça à procura de sua carteira, assumindo que se tratava de um pedinte, mas antes que pudesse alcançar aqueles míseros tostões que podia se dar ao luxo de ceder por piedade, o lazarento depositou em sua mão determinado objeto que não podia ser identificado apenas pelo tato e foi embora fugaz, se esquivando de R. Lênio e se esgueirando para dentro da bruma urbana, onde desapareceu.


Ficou olhando fixamente para a caixa de fósforos inédita na palma de sua mão, e mesmo sabendo que ela não tinha nenhum valor atribuído ou qualquer utilidade significante em sua vida, R. Lênio encontrou nela um motivo para dormir bem à noite. Nunca havia ganhado um presente antes. Dormiu como um bebê por pouco mais de uma semana, estava disposto e com alto nível de rendimento em diversos paradigmas, estava de bom humor, desempenho impecável no trabalho, estabilidade econômica relativamente satisfatória, até que em outra fatídica manhã — dessa vez uma quinta-feira — um pequeno grupo de jovens de pouca idade portando o que pareciam ser armas de fogo de autenticidade questionável — mas não contestável diante da situação — o abordou, reclamando os bens materiais do ludibriado, que mais uma vez se lamentava com autopiedade por ter se desgraçado ao andar inocente — distraído — justamente pelo lugar errado, justamente no momento errado em troca de sua vida miserável, que agora indubitavelmente os pertencia. O pobre diabo, sem nada mais o que abrir mão, cedeu aos gatunos sua única posse, a caixinha de fósforos. Ao verem aquele pequeno retângulo pairando nas mãos trêmulas de R. Lênio, os jovens ficaram abismados, se rebelaram e com toda sua ira deram a Lânio a vingança que merecia . Tratava-se de uma caixinha que o mendigo da outra semana havia roubado e limpado sua culpa nas mãos de R. Lênio ,— o primeiro pedestre que cruzou seu caminho naquela manhã de terça — , depositando nelas o vírus que viria a ser aquela caixa. Duas balas na cabeça foram suficientes para enterrar uma história mal contada.

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