O Cômodo Escuro

Um cômodo escuro, não é possível ver nada, absolutamente nada. Há um fiapo de vida la dentro, apenas uma impressão de vida, talvez sequer com vida, mas há algo lá. Isso provinha de um ser com forma indiscriptivel, sabe-se lá se posso chamá-lo de ser, era algo, um amontoado de carne que se debatia no chão do cômodo. Não tinha consciência, se contorcia sem vida propriamente dita, eram apenas reflexos, espasmos como que mecânicos. Se debatia e fazia barulho no chão molhado do quarto escuro. Alguém que estivesse lá dentro, sem ver, poderia dizer que era um peixe fora d’água em seus últimos esforços para se manter vivo, mas ainda assim o peixe teria mais vida que essa coisa.

Não era possível ver mas havia uma porta no quarto. Dois homens que passavam conversando do lado de fora pararam de frente à porta. Um destrancou-a e abriu-a, deixando um feixe de luz entrar no quarto. Fez sinal para que o outro entrasse e disse:

-Não se preocupe, vou ficar logo aqui se precisar de mim, mas tenho certeza que você vai conseguir fazê-lo, não é difícil.- Dito isso o outro homem entrou e a porta foi fechada atrás dele, acabando com o único vestígio de luz que entrou naquele cômodo em muito tempo, deixando o quarto escuro novamente.

Lá estava o homem de pé no quarto escuro, com aquela coisa se contorcendo no chão incessantemente. O homem se inclinou para baixo, ajoelhou-se e pegou com as mãos aquilo. Não era muito grande, devia medir pouco mais que um palmo. Sua superfície era quente, estava molhado, coberto do mesmo fluido espesso espalhado no chão, que não era água mas também não tinha cheiro. Sua textura lembrava pele humana, era como se fosse um órgão decepado mas que não estava morto.

Após contemplar aquilo em suas mãos por alguns instantes, o homem abocanhou a coisa impiedosamente, a ponto de arrancar um pedaço dela, e com isso os espasmos não cessaram, pelo contrário, pareciam desesperados agora, mesmo que a coisa não fosse capaz de sentir dor. O homem mastigou o pedaço da coisa e o engoliu antes de dar a segunda mordida e depois disso a terceira, a quarta, e só saiu do cômodo depois de ter devorado aquela coisa inteira.

Ao sair do quarto foi recebido com um abraço do companheiro que esperava lá fora, que o congratulou-o com ênfase. O homem que saiu do quarto estava pasmo, mas não podia esconder certa satisfação. Gaguejando um pouco perguntou:

-Então, como eu me saí ?

-Bem, você demorou um pouco mas isso não compromete nada, foi ótimo.


de “O Cômodo do Enfermo”, cap. XXII

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