o casamento

O auto-proclamado duque Agares estava de pé no altar, esperando pela chegada da noiva. Estava nervoso e quase se afogava no próprio suor, era como se aquilo que não conseguia chorar pelos olhos chorava pela pele, como se seu corpo tentasse expelir algum mau elemento de dentro de si, talvez fosse aquela presença demoníaca que ele vinha sentindo dentro de seu corpo nos últimos anos entrando em atrito com o ambiente da igreja. Também eram estranhos para Agares aqueles novos sentimentos quase humanos que forçavam para baixo seus ossos pelo próprio peso, dúvidas e inseguranças e imprevisibilidade e ansiosidade e insuficiência e algumas coisas que não sabia dar nome. O dito duque via-se fraco sem ter nas mãos o controle de tudo como costumava ter. Não se reconhecia, antes era alguém deliberadamente imoral e puramente mau, agora via-se em condições de auto desprezo, percebeu que ele não era mais quem costumava ser. Ela estava demorando demais. Agares amava Manakela*. Ele estava convicto. Não se arrependia propriamente da escolha de casar-se com ela, passar o resto da vida junto a outra pessoa — principalmente alguém como Manakela — nunca esteve exatamente em seus planos, mas Agares estava disposto a isso. Além disso, Manakela e Agares eram exatamente perfeitos um para o outro. Agares a amava. Manakela era especial— pensava o duque com seus botões — então no início Agares começou a a viver em constante atuação para que ela acreditasse que ele também o era, para fingir que era bom, para mascarar aquela sua verdadeira podridão natural, sua existência meramente má — antes fosse apenas fútil. Ele mentia com boas intenções, mas agora, Agares amava, não mais fingia. Talvez agora a culpa lhe houvesse começado a fazer sentido. Agares era só um humano, Agares até amava.
Manakela era a mulher da vida de Agares, não havia como ser mais perfeita, ela era boa demais para ele, até porque ele não era bom, ele era mau. Não seria suficiente falar da majestosa beleza física dela, seus traços finos e delicados constituíam uma feição angelical que faziam Agares delirar de paixões ao olhar para ela de manhã enquanto ainda dormia, serena e inocente, quase infantil. Ela se portava e se movia com certa leveza que a dava um aspecto de fada, e com seu purpúreo feitiço, fecundava folhas de papel com palavras que germinavam e cresciam lindos poemas. Para ele — que não sabia escrever — isso a tornava uma deusa, ela era a musa e o poeta, a portadora da magia das letras, era a mais legítima e voluptuosa artista que poderia existir, e que audácia, coexistia com ele, ser fétido e podre, produto do esgoto mais subversivo, criatura mais subalterna, filho de ratos, nascido na esquina rota de uma viela mal iluminada do subúrbio. Ele cuja presença exalava perigo, cuja feiura despertava lágrimas, náuseas e pesadelos, se via apaixonado por uma anjo como Manakela, não parecia possível, eles conspiravam contra o céu e o inferno, ainda fardados ao mundo, único lugar onde suas existências antagônicas não se aniquilariam ao seu encontro.
Culturalmente a noiva entrava atrasada na igreja, e naturalmente o duque estava ansioso, queria que ela chegasse logo para que finalmente — culturalmente — pudesse tê-la inteiramente para si. Agares tentava evitar olhar para aquelas centenas de rostos e seus milhares de olhos curiosos focados em sua imagem, a imagem do noivo em seu elegante terno alugado, cabelo limpo e penteado para trás, barba feita, seu pé esquerdo batendo incessantemente no chão em silêncio por nervosismo enquanto se postava de pé sozinho no altar. Ele não entendia o porquê de tantas pessoas ali assistindo à cerimônia, era como um público, uma platéia, estavam lá para ver a encenação de um casamento como qualquer outro, ouvir os noivos prometendo e mentindo diante do padre, presenciar aquele estranho ritual que representava a união completa e irrefutável deles, selado com um beijo, mas ninguém estaria lá para ver o casamento em si, os sacrifícios, os prazeres, toda a dissolução e materialização, ninguém veria o casal se isolando do resto do mundo e um do outro, ninguém veria a construção daquilo que os dois queriam destruir e nem a destruição do que criaram.
Todos viam a impaciência de Agares, de suas axilas chovia, terremotos saíam de seu pé inquieto, o demônio dentro dele se revirava e se debatia por dentro de seu corpo, desesperado para escapar daquele ambiente, sair daquela maldita igreja… como podia sequer ter sido convencido a entrar em uma igreja? Agares era mau, mas estava tão dopado com aquele amor que até se esqueceu do que odiava e começou a aceitar mecanicamente — também odiava a aceitação mecânica — as vontades de Manakela. Ela o enfeitiçava e fazia se contradizer e se desculpar por sua índole, por sua personalidade, mas ele fazia tudo isso de bom grado, era como se o auxílio dela o fizesse avançar, evoluir como ser vacilante, inferior e mortal de fútil existência errante que precisava daquele amor para guiá-lo eternamente. Devia ser alguma magia mesmo. A única coisa que Agares não odiava era Manakela, ele se alimentava de cólera, mas ainda assim, agora amava.
“Ela não te ama”, lembrou Agares das palavras que seu amigo, o duque de Asteroth, lhe disse em uma daquelas noites ébrias no mais soberbo submundo da cidade. Arrependeu-se de não ter dado ouvidos ao amigo, Manakela não o amava, ela o abandonara, ele não conseguia pensar em nenhuma outra explicação plausível para a demora. Ele odiava aquela demora, toda aquela paciência que conservou com abundância por anos agora se convertia em mais ódio ácido que corroía ao correr em suas veias. Ele queimava por ela e ela sequer se dava ao esforço de aparecer. Podia odiá-la? Ele mataria por ela — e nada dela aparecer — ele se mataria por ela — e nada dela — ele a mataria por ela — e nada. Odiava amá-la, odiava o amor, o amor corrompia sua maldade, ele tentava ser bom para satisfazê-la, mas parecia que quanto mais bom ficava, ela o amava menos, ela, que era o bem, odiava o “bom” Agares. Ela não o amava. Não podia amar o mal, mas não podia odiar o bem — ela já era o bem — , ela era o amor, criatura diviníssima, amava tudo, menos Agares.
Manakela odiava Agares. Precisava odiá-lo, afinal, ele era mau — era o mal — , ela precisava odiar algo, Agares era perfeito para Manakela, era o único que ela podia odiar, mas Agares amava Manakela, estava completamente louco por ela, ela era a única que podia amar — precisava amá-la, afinal, ela era o bem — , mas se ele amava, não podia ser mau, e se não era mau, Manakela não podia odiá-lo. Agares sabia disso, lia isso nos olhos dela enquanto ela sorria, mas nunca conseguiu decifrar, enquanto a amasse não poderia compreender, mas odiava o sorriso pleno dela para o ódio, nenhum ódio podia passar despercebido por Agares, ninguém conhecia o ódio tão bem quanto ele, seu corpo era composto quimicamente por ódio e discórdia, mas ainda assim, amava.
O ódio de Manakela por Agares era equivalente ao amor dele, era puro, belo era substancial, ela necessitava do ódio e apenas o encontrava em Agares, ela queria cavar o peito dele até encontrar o enxofre negro e espesso da essência má dele, e com isso, se deleitar, mas ele a amava tanto que deixava-se levar pelo bem dela — que ela era — e acabava se esquecendo de seu próprio mal. Agora, de pé sozinho no altar, esperando impaciente na ausência dela, o mal voltava a fluir em seu ser, odiava. Era isso que ela queria, Manakela amaria Agares se ele a odiasse, mas ele sabia que na presença dela a perdoaria e a amaria como nunca.
Houve um homem — um filósofo — que certa vez disse que o amor está para além do bem e do mal, mas não nesse caso, o amor precisava do bem e do mal, oscilava entre o bem e o mal estava justamente nos limites entre bem e mal, assim como o bem e o mal dependiam do amor — e consequentemente, do ódio. Agares e Manakela eram exatamente o que faltavam um para o outro, eles se completavam, eram perfeitos, se encaixavam como peças de um quebra cabeça, e exatamente por isso lhes era impossível o consenso, eram opostos, inversos, Manakela se agarrava naquele ódio para não se sufocar em amor enquanto Agares precisava daquela gotícula de amor que o resgatasse da sua existência naturalmente fracassada, desgraçada, imersa no mal. Repetir as falhas tentativas de explicar o que se dava entre Manakela e Agares era fútil, insuficiente, bastaria admitir que era impossível — e foi só aí que ele chegou à conclusão que era impossível — , tudo aquilo era impossível, inviável, absurdo, tanto ele para ela quanto ela para ele eram as pessoas certas, foram feitos um para o outro, mas não destinados a ficarem juntos, jamais, simplesmente não era o certo, os dois implodiriam nas colisões daquela união — os atritos deles contra si próprios se contradizendo e de si próprios contra o outro — , eram inversamente proporcionais, equivalentes, como que iguais, suas falhas eram exatamente as virtudes do outro, suas falhas eram o que o outro precisava, suas falhas eram suas perfeições, sua sincronia, eram gêmeos, criados no mesmo molde mas com ingredientes contrários, e por isso precisavam estar fardados a nunca se encontrar, era óbvio que à primeira vista ele — o mal — a amaria, e ela — o bem — o odiaria. Quando o aglomerado de moléculas que compunha a superfície concreta da mão dele tocaram a dela pela primeira vez, o universo inteiro foi condenado. Eram iguais. Eram o mesmo. Por isso, não podiam sequer estar no mesmo lugar ao mesmo tempo, ao estarem juntos, rasgavam as leis da física, assassinavam Deus, destruíam a lógica, se eles existiam juntos, a existência era absurda.
Quando isso tudo repentinamente se esclareceu para Agares, não mais aguentou ficar ali de pé sozinho como um idiota. Deu-se de costas para o altar e para o padre e começou a caminhar em direção à porta, indiferente quanto àquele mar de olhos inconsolados e confusos que o seguiam e o fitavam em conjunto e em harmonia estalavam fazendo um som cavernoso que ecoava por causa da acústica da igreja toda vez que piscavam — piscavam ao mesmo tempo. Sem mais, Agares saiu e bateu a porta. Manakela estava lá do lado de fora, sentada no chão com seu formoso vestido branco de noiva, segurava um cigarro aceso na mão trêmula enquanto com a outra massageava as têmporas em agonia. Agares se aproximou e sentou-se ao seu lado. Ela se assustou.
-Não se preocupe — ele disse, sinalizando que também queria um cigarro — eu já percebi tudo.
-Tudo aquilo? — ela deu-lhe o último cigarro do maço e jogou no chão a embalagem vazia.
-Sim, tudo aquilo — ele olhava para o chão enquanto ela olhava para ele, tentando encontrar seus olhos.
-Bem, então… e agora?
Os dois ficaram em silêncio. Ninguém sabia exatamente como proceder. Não sabiam o que haviam acabado de se dar conta. Aquilo tudo parecia demais para eles.
-Ah, acho que você faz ideia do que deve fazer — disse Agares — sei disso porque estou certo de que isso deve ser feito.
-Você tem certeza?
-Tenho. Não se preocupe comigo.
E Manakela não se preocupou. Com um resquício de hesitação, empunhou aquela velha pistola que Agares trazia sempre consigo, alinhou-a na linha do coração dele, concentrou absolutamente todo o ódio que tinha — e o que não tinha, o que deixava de ter — na ponta do dedo que encostava no gatilho, e finalmente, em desespero flexionou-o. Aquele tempestuoso estrondo catártico ressoou no céu e no inferno. Em questão de menos de um segundo, Agares deixou-se dominar completamente por amor e abnegou seu mero corpo, sua mera vida de bom grado, para saciar aquele ódio avassalador que de sua amada transbordava. Sentiu aquele projétil de metal atravessando gradativamente sua pele, seus músculos, seus ossos, seus órgãos, destruindo aquele sistema de perfeita ordem que lhe permitia a dádiva da vida. Agares não sentiu dor, mas satisfação, havia amado, e Manakela não sentiu remorso, mas alívio, havia odiado.
O corpo dele bateu duro contra o chão, inanimado, frio. O sangue sujou o terno alugado e espirrou por todo o vestido branco da noiva antes de escorrer pelo chão e formar a grande poça vermelha onde Agares deitava sereno, silencioso, se banhando e se limpando no amor que sangrava, já sem vida. Manakela se aproximou e beijou o cadáver na testa. Não mais odiava. Virou-se para começar a andar na direção oposta à da igreja. Finalmente estavam casados.
