O Homem Duplicado

Desci do meu apartamento para a rua de manhã cedo, estava frio, chovera durante a noite inteira. Às sete da manhã as ruas de Belo Horizonte não estavam mais livres da sugestão, da propaganda, do barulho e nem da fugacidade de jovens à espreita de algum descuido que evidenciasse a marca de alguma carteira em algum bolso de trás de alguma calça que passasse por lá. E como toda vítima da rua, comecei a seguir seu fluxo que seguia em direção a todas as partes da cidade, mas eu ia a lugar nenhum, não tinha um trabalho para ir como a maioria das outras pessoas lá tinham, e por isso não tinha muito dinheiro para gastar em lugares quaisquer, como o resto das pessoas lá tinham. Saí do apartamento por impulso, não fazia muito isso, não ia muito para o lado de fora, mas acho que eu estava meio cansado depois de uns três dias sem dormir, meu cérebro já não computava direito como a máquina que sempre foi.

Só trazia comigo algumas moedas para que com sorte conseguisse comprar um café ou um cigarro na primeira padaria que visse, ou então talvez para que as desse a alguma criança de rua mais necessitada que eu, uma daquelas crianças que costumam pedir com o olhar triste e morto da infância perdida, vendida por outros para mantar a desigualdade favorável para si; aquelas crianças que pediam para gradativamente arrastar sua sobrevivência, para mascarar sua crônica desistência da existência, e que geralmente sequer haviam aprendido a contar para saber a quantia que recebiam, a única educação que lhes foi proporcionada foi a de automaticamente pedir “por favor” e depois “obrigado”.

E no meio da calçada, rodeado pelas vozes que não vinham de minha cabeça mas vinham à minha cabeça para atacá-la ou persuadi-la, e lá se emaranhavam, finalmente travei. Algo que vi me deixou pasmo, não encontrava reação, não encontrava sensação. Lá estava, um pouco mais à frente na calçada, um homem idêntico a mim, na mesma posição em que eu estava, olhando para mim como se fosse um espelho posto frente a mim no meio da multidão. Todos os outros rostos passavam, instantâneos no mar de rostos da rua, mas o único que eu reconhecia era meu próprio rosto. Ele estava me fitando, provavelmente desde antes de eu encontrá-lo, e permanecera lá, parado, abismado como eu. Me pergunto o que passava em sua cabeça, não se passava nada na minha. Ele não aparentava espantado ou assustado, sua expressão transmitia certa tranquilidade diante do absurdo, como que se esse acontecimento fosse indiferente, banal. Seus olhos, firmes, não tiravam os olhos de mim, do grande show de horrores que se desenrolava na calçada que ninguém além dos envolvidos se dava ao trabalho de perder seu precioso tempo para presenciar. Tudo à volta continuava normal, tampouco algo era importante, tudo na rua se movia em sua respectiva direção, exceto pelos dois homens exatamente iguais, imóveis, encarando um ao outro no meio da calçada estavam parados no tempo.

Após um longo período de contemplação, aquele homem finalmente se virou de costas para mim e tornou a andar para sabe-se lá onde estava indo antes do infortúnio, distanciando-se de mim. Não pude me contar e em um reflexo comecei a correr — na medida do possível — atrás dele para encontrá-lo e falar algo com ele, fosse o que fosse…só precisava fazê-lo porque sim. Fui me desviando por entre as pessoas na rua entupida, mas nunca parecia avançar. Ainda via o homem de costas, ele se destacava na multidão por sua alta estatura fora do comum e por causa de um chapéu tão singular que trazia na cabeça, mas a cada passo que eu dava ele parecia mais distante, como se soubesse exatamente por onde passar naquela confusão, como se o oceano de gente se abrisse para sua passagem, até que em um ponto finalmente o perdi de vista. Foi decepcionante, mas ainda assim permaneci seguindo à sua procura, em uma esperança mecânica e utópica de alcançá-lo.

Indo contra o turbilhão de corpos impessoais, guiados para entrar em choque com movimentos na direção oposta à sua, eu entrava em conflito constante contra cotovelos, joelhos e pés que — intencionalmente ou não — tentavam me atropelar, tudo conspirava para me impedir de alcançar meu objetivo na rua da cidade. Quando consegui chegar em um intervalo entre duas multidões, olhei para outro lado da rua e lá pude vê-lo, sentado no ponto de ônibus, olhando as horas no seu relógio de pulso. O sinal estava fechado para pedestres, e mesmo sabendo que na rua somos todos apenas pedestres, decidi me arriscar por entre os carros, afinal, como poderia entrar no caminho de um carro ser mais perigoso que no de um pedestre ?

Disparei a correr e miraculosamente o trajeto foi impecável, até o mísero momento em que eu estava a um passo de pisar na calçada, logo à frente de onde o homem estava sentado. Olhei para seu rosto por um instante que me distraí dos automóveis, e ele estava a me fitar com aquele mesmo olhar de antes. No instante em que meus olhos se encontraram com os dele, encontrou contra o meu corpo a maior força que já havia sentido na vida, a concreta e sólida estrutura metálica da parte da frente de um ônibus se chocando impiedosamente contra meus ossos e músculos, esmagando meus resquícios de vida e arremessando toda a massa de carne concentrada para alguns metros à frente, para enfim colidir-se com o asfalto frio e sujo, que agora não parecia tão inocente em sua estática ou indiferente em sua permanência inanimada, já que eu estava jogado e despejado nele e não apenas pisando nele para me locomover como de costume. Reparei que quando isso aconteceu algumas pessoas que passavam pela rua pararam seu trajeto para ver o que passava, para ver se já estava aberta a exposição pública de cadáveres na rua logo de manhã cedo, para ver e julgar mais um distraído sendo vítima das ameaças naturais da cidade. A maioria olhava brevemente, com um tom de pena, e em um instante voltavam a andar sem nem se lembrar do que viram. Eu ainda estava me acostumando com minha situação fracassada, ainda estava em choque e mais confuso que nunca, sequer sabia identificar quais eram as partes de meu corpo que exalavam dor, quando percebi alguns passos se aproximando de mim e me enchi de esperanças, “alguém finalmente veio me acudir”, pensei, mas claro que não era verdade. Olhei para o alto com dificuldade e mesmo que com seu rosto ofuscado pelo sol atrás de sua cabeça, pude identificar aquele homem igual a mim. Ele se abaixou até ficar bem próximo de mim, enquanto eu tentava sem êxito proferir alguma palavra, algum murmúrio qualquer. Ele aproximou-se de meu rosto e disse em meu ouvido com uma voz rouca e soturna, claramente cansada e agredida:

-Eu conheço sua sina, conheço sua doença, eu vejo por dentro de você e sei que você nunca foi livre mesmo. Volte para casa, lá você tem menos a perder.

Dito isso ele se pôs de pé em sua estrutura curva e meio corcunda e caminhou até aquele ônibus que acabara de aportar no ponto ao me derrubar. Entrou e o ônibus deu partida e seguiu rua acima, de volta ao constante fluxo enquanto eu permanecia caído e debilitado no canto da rua, tentando me arrastar de volta para meu apartamento enquanto esperava por algo qualquer.

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