o “menino-alienígena”

Alien Boy (Wipers)

(os dois sentados em uma mesa, um de frente para o outro mas sem ver um ao outro devido à iluminação escassa. Dois copos cheios) — Um absurdo. Nasceu um natimorto digital entre os nativos de uma nova era. O aplicativo não registrou seu nascimento, então os médicos simplesmente o atiraram na lata de lixo.Os ratos não comeram sua carne, estavam ocupados tentando descobrir a senha de bloqueio de tela de um telefone celular que encontraram abandonado no meio da calçada. Dois homens vieram por duas vezes para assaltá-lo mas saíram por duas vezes às gargalhadas quando viram que ele não tinha nenhum apetrecho digital. Tentou ir à escola, mas não era tão esperto quanto as outras crianças, estavam todas equipadas com inteligência artificial. Debocharam de sua aparência física meramente regular, o normal era ter uma superfície epidérmica cheia de deformidades, protuberâncias, tumores, mentes e corpos alterados pela radiação. Ao menos ele não adoeceu, os vírus haviam evoluído, os que não eram de computador só funcionavam por meio de nanotecnologia. Só foi encontrar asilo em um grupo marginal, em meio aos loucos, criminosos, subversivos. Traficavam drogas e livros, eram um pesadelo, eram tudo aquilo que todo bom cidadão ou qualquer ser vivo com respeito próprio abominavam. Com os degenerados ficou por um longo tempo. Começaram a chamá-lo de “menino-alienígena”. Foi lá que aprendeu a atirar. Na atmosfera daquele lugar havia um sentimento fraterno, além do que, naquele esgoto onde moravam sequer uma lâmpada jamais era acesa, a maioria dos que lá viviam compartilhavam de um grande medo do avanço tecnológico, temiam o mundo virtual que não viam e se frustravam por não velo, alguns desses eram pessoas que haviam sido diagnosticadas com esquizofrenia ou outras patologias semelhantes e estavam lá em exílio, eternos fugitivos. Certo dia o Frade Achad — membro fundador e líder quase espiritual daquela seita de bandidos — amanheceu muito doente, sofrendo, ele apresentava os sintomas que indicavam que provavelmente se tratava de um caso de malária. Por três dias e três noites Frade Achad ardeu na febre e deixou que todo o conteúdo contido em sua mente se dissolvesse no processo de conversão de seu cérebro em mingau. Não ansiava nada senão o alívio, fosse lá o que isso viesse a significar. Fosse delírio ou não, o Frade em seu leito de morte pediu para que fosse trazido até ele o membro mais menino do grupo, aquele garoto pequeno que havia chegado não fazia mais de um mês, que esteve acolhido naquele porão e fora devidamente nutrido e cuidado como deveria — apesar de sórdido e feio, no lugar onde moravam todos sempre tinham alimento, o Frade Achad fazia questão disso, era sua prioridade como líder daquela comuna, sua maior virtude (segundo uns. Sua pior maldição segundo outros) — , não explicou o porquê daquele desejo, mas ninguém negou sua lealdade ao Frade. Correram para chamar o garoto, e ele foi sem hesitar, inocente, não sabia o que era tudo aquilo que estava diante — a dita morte — , sequer sabia do que se tratava a vida, desde que começou a existir (sem enter e sem pedir), “viveu” tão rápido, tão instantaneamente, que parecia ter ficado para trás, sozinho, perdido, só vendo aquilo que chamavam de vida passando direto e diminuindo gradativamente no horizonte até inesperadamente, chegar nele de novo, dessa vez pelas costas, atropelando-o e arremessando-o para lugar nenhum. Quando entrou naquele cômodo malcheiroso, desarrumado e mal iluminado, o Frade Achad pediu que se aproximasse. Ele se aproximou. “Meu filho” disse o Frade moribundo com uma voz fraca, desistente. Seu aspecto era de um velho. Um velho fracassado, derrotado, talvez um velho leproso. Seus olhos estavam fundos como covas, seu corpo magricela e acinzentado suava e suava, sem cessar, como se transpirasse para expelir de seu corpo sua juventude, pois, na verdade, não tinha ainda nem chegado aos quarenta anos de idade. “Qual o seu nome?”. A criança, tímida, demorou longos instantes antes de responder. “Meus amigos me apelidaram ‘menino-alienígena’”. Ele não tinha nome, não possuía nada, nasceu vazio, nunca teve o que herdar e muito menos o que honrar, desprovido de essência, portador da desgraça, tinha medo de tudo que conseguia computar, e mais ainda do que não conseguia. “Me chamam assim porque não entendo absolutamente nada desses aparelhos de tecnologia digital e afins que são tão temidos. Na verdade, até hoje não sei do que falam quando dizem sobre tal assunto. Quando admito isso, dizem que é um absurdo, que se não sou uma piada então eu devo ter vindo de outro planeta, já que este é o mundo digital”. Ao ouvir as palavras da criança, o Frade ficou maravilhado, aquela pobre alma era tão pequena e inocente, indefesa, sem perspectiva de nada por não saber o que era perspectiva — não lhe fazia falta de qualquer forma — , era completamente(e naturalmente) ignorante, mas isso não o afetava em nada, se não se sabe o que é a ignorância então a ignorância pode bem ser uma benção. Com um sorriso no rosto, Frade Achad disse: “Ó minha criança, não deixe que esses deboches o aborreçam. Você é puro, é belo, é bom. Não deixe-se levar por todo esse ódio, por toda essa inveja. Meus homens dariam tudo para serem desconectados como você é. Meus homens condenam a tecnologia, mas pecam, se esquecem que o que condenou o homem à sua própria tecnologia foi sua própria índole. Meus homens são maus, assim como tudo nesse mundo profano, corrompido, mas você… Você não é deste mundo, não é verdade? Ao olhar para seu rosto vejo esperança resplandecendo, isso me enche de orgulho”.

(respirou. Deu um longo gole. O outro permaneceu quieto em seu assento, aguardando que o companheiro retomasse sua fala) — Então, ao ouvir tais palavras, o menino-alienígena se aproximou do Frade Achad. Ele conseguia sentir o fracasso exalando junto ao fedor daquele decrépito semi-cadavérico. Sentiu nojo daquele cheiro e daquela presença. Quando já estava bem próximo do corpo asqueroso do velho falhanço — era uma visão triste, deplorável — acabou engolindo o vômito por uma ou duas vezes, como se engolisse sapos. Fitou por longo tempo o fundo dos olhos doentes do Frade antes de, indômito, agarrar o travesseiro da cama do enfermo. Não precisou de muito esforço para posicionar o travesseiro no rosto insalubre do Frade e em seguida pressioná-lo para bloquear suas vias aéreas. O fez sem pressa alguma, até que com certa — estranha — calma, aquele grande pedaço de carne lânguido, pestilento parasse de se debater e se rebelar, aceitando o processo de desconexão de sua vida morbosa. Estava sendo deletado, e finalmente sua — escassa— vitalidade remanescente simplesmente descarregou. Foi desligado. Não gritou, não expeliu sangue nem outro fluido por nenhuma cavidade de sua pele ressecada e já fria. Estava frio. Estava curado, apesar de tudo. Na expressão póstuma que se configurou em seu rosto rígido era possível identificar certa satisfação, talvez beirando o deleite. O menino-alienígena queria ficar por mais tempo ali, apenas observando o não-movimento do cadáver, sem compreender exatamente — e consequentemente sem sentir culpa — o que havia se passado naquele cômodo, mas aquele odor lhe era insuportável. Deixou o quarto e foi caminhando pelo esgoto até encontrar um canto absolutamente inóspito e quase invisível de tão escuro. Lá o menino-alienígena se metamorfoseou. Deixou ceder sua pele humana e revelou sua nova forma, sem querer tornou-se a máquina frígida que sempre havia temido por não saber que a era.

— Tem razão. Um absurdo. — (levantou-se e foi embora enquanto o outro ficou lá fitando o fundo do copo já vazio).

— E até os demônios mais subalternos dos subúrbios mais sórdidos do inferno puseram-se a conspirar contra a vida do menino-alienígena, por vingança, por orgulho, por autopiedade, mas foi inútil, ele já havia desaparecido há muito. — (falou sozinho sem sair do lugar, ainda olhando para o copo. Permaneceu na mesma posição até não mais poder).

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