satânica des(en)graçada

joao
joao
Aug 23, 2017 · 4 min read
(Gustave Doré — A Divina Comédia)

Dante estava além de esbaforido, frustrado. Acabara de perder o ônibus do Estige — que só passava uma vez ao dia, pela manhã, e só voltava na manhã seguinte, muito pontual— em sua segunda tentativa de pegá-lo na mesma semana. Dante tinha a intenção de visitar seu velho amigo Virgílio, que já não via fazia um bom tempo, e que agora parecia-lhe inacessível. Decepcionado, sentou-se em uma rocha à esquerda do ponto de ônibus, de onde conseguia ter uma visão quase nítida do pântano na longínqua margem oposta, de onde era possível ver diminutamente os amontoados de incrédulos e iracundos, lutando incessantemente entre si, irados, sem piedade, exteriorizando toda sua cólera em meio à suja e soberba lama daquele lugar. Dante ficou a vislumbrar tal cenário desgraçado, indiferente, enquanto pitava com certa humildade — quase com autopiedade — o penúltimo cigarro do seu maço de San Marino.

Quando o cigarro acabou, Dante se levantou e caminhou de volta para sua casa . Andar não lhe era um problema. O que o incomodava era a ausência de Virgílio — não mais pensava tanto em Beatriz depois de tê-la visto no Paraíso. Desde essa ocasião era como se Dante tivesse se dado conta do que realmente significava a morte dela e simplesmente se conciliou com a informação, repentinamente, e então foi gradativamente se esquecendo disso enquanto estava ocupado envelhecendo — , poderia estar se deleitando a caminhar na companhia do amigo naquele exato momento se não tivesse perdido aquele ônibus cretino. Que estúpido. Desde quando voltou de sua viagem aparentava apenas fracassar, “antes eu nunca tivesse voltado de lá”, pensava consigo mesmo, “mas até mesmo para voltar lá precisaria do auxílio de Virgílio…” e tornava a se desapontar.

De volta em casa, quando a aguardente já não mais lhe era suficiente, Dante apelou para se afogar na água de Lete que guardava de sua viagem — havia sido um presente de Beatriz — , mas para seu desespero, esta também parecia ser fútil. Mesmo assim, passou a noite em claro bebendo daquilo, agonizando para escapar daquela crítica sobriedade, não teve calma, não teve paciência, esvaziou copo atrás de copo como que apenas para sentir o gosto puro do desgosto. Em sua vigília — ébria ou não, sabia-se lá — decidiu que acenderia aquele quase excelso último cigarro. Ao menos parecia ser, mas ao carburar até o limite do filtro, não havia sido diferente de qualquer outro cigarro que fosse de qualquer forma.

(Doré — A DIvina Comédia)

Precipitado ou não, Dante pôs de pé em um só movimento o seu corpo que parecia petrificado — havia passado a noite sentado na mesma posição, acordado, quase não se movia, quase não respirava, quem o visse poderia facilmente confundi-lo com um defunto — e caminhou até a janela de seu quarto . Subiu no parapeito e ficou lá de pé a observar o precipício que se dava por entre todas aquelas colunas e todos aqueles blocos verticais, e de lá viu — como que refletida — sua própria ruína. Dante era um consciencioso do espírito e provavelmente um dos — se não o — mais experientes entre os homens vivos — até porque homens mortos não podem ter experiência — , em sua vida já havia presenciado, propriamente visto, coisas as quais aos mortais regulares não eram permitidas sequer serem sonhadas, jamais. “De que isso vale, de qualquer forma?”, pensou, “Quem não há de dizer que minhas histórias não se tratavam apenas de delírios e devaneios, até mesmo alucinações de um mentecapto? —ou pior, de um velho bêbado”. Seu único conforto era a memória de Virgílio, na verdade, além dele Dante já não tinha mais amigos, afinal, o que poderia ser interessante — o que poderia surpreender — a um homem que já havia fitado com os próprios olhos a superfície da voluptuosa face de Deus e voltado para contar a história?

Então Dante fechou os olhos por um instante e deu um passo para frente — para onde não mais havia piso — e deixou que a gravidade junta ao peso de seu corpo malogrado o guiassem em sua trajetória sutilmente gradativa para baixo. Para baixo, para cada vez mais próximo do chão. O chão, o mais próximo do inferno que conseguia chegar caindo. O inferno, o lugar mais próximo de Virgílio que conseguia chegar caindo. Chegando lá em baixo, seu corpo se espatifou e se estraçalhou ao beijar o asfalto. Seu crânio se despedaçou quando bateu no meio fio e alguns dos pedaços dele foram parar na rua, até a quase dois quarteirões de distância da rua onde caiu. Um pouco mais tarde naquela manhã, Dante conseguiu pegar o estimado ônibus.

)

    joao

    joao

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade