Tim e o Diabo

Tim dirigia com calma na noite fria de um domingo, estava acordado apenas pelas latinhas de energético que comprou em um posto no meio da rodovia MG-30, enquanto voltava de Nova Lima para Belo Horizonte. Estava em um trecho vazio e sem iluminação, andava lentamente para não vacilar nas curvas acentuadas, subidas e descidas das estradas — e basicamente em toda parte — de Minas Gerais. Para os mineiros esse tipo de relevo era quase uma constante universal, via-se morros e ladeiras em qualquer direção que olhasse, mas Tim ainda não estava acostumado, vindo de Pernambuco, estava instalado em Belo Horizonte fazia menos de um ano.

Ao completar determinada curva na estrada, uma sirene da polícia tocou. Como qualquer ser humano Tim se assustou e em um reflexo parou o carro, em estado de choque, como se o som anti-natural da sirene tivesse o poder de paralisar todo e qualquer homem, como se fosse o rugido de um predador, como se fisiologicamente, na genética de Tim, esse som já representasse uma ameaça congênita , bem. Tim ouviu o guarda abrir a porta da viatura, descer e fechá-la novamente. Tim não conseguia ver o rosto nem a fisionomia do policial pois a luz da sirene, ainda acesa, ofuscava sua imagem. Lentamente aproximou-se do carro de Tim. Bateu de leve no vidro da frente do carro, como sinal para que o motorista o abrisse.

Com a manivela, Tim abriu a janela do carro, e se embolando nas palavras, disse no tom mais simpático que pode fingir:

-Boa noite seu guarda, fiz alguma coisa errada ?

O policial abaixou a cabeça para ficar no nível de Tim e poder olhar em seus olhos. Tim conseguiu ver o rosto magro, com traços finos e delicados, já marcado pela velhice, apesar da postura firme, lúcida e sua expressão extremamente ríspida. Tinha também um curto cabelo negro, elegantemente jogado para trás, rosto limpo, e o que mais assustou Tim, um olhar profundamente frio, mais frio que a noite que se abundava por entre as serras onde eles se encontravam. Os olhos negros pareciam ois buracos, cheios de algo vazio e indiferente.

-O senhor está preso.- disse o homem, em um tom firme e decidido, ele não estava brincando, mas mesmo sabendo disso, Tim deu uma risada antes de perguntar o porquê

Inexpressivo, o homem respondeu automaticamente:

-Possessão.

-Possessão- disse Tim soltando uma gargalhada- Nem pra brincar com a minha cara direito, o certo seria “posse”, não ? O senhor sequer procurou no meu carro. Se estiver de brincadeira diga de uma vez senão vou acabar por acreditar nessa sua cara séria.- e riu de novo. O homem não demonstrou senso de humor algum, sequer foi atingido pela simpática risada com sotaque nordestino de Tim. Permaneceu parado, vidrado, fitando Tim nos olhos.

-Creio que o senhor não entendeu. Essa possessão está comigo.

-O que você quer dizer com isso ? Vai plantar alguma prova falsa no meu carro para me culpar ? O que eu te fiz ?

-Não é isso que vai acontecer. Quis dizer que a possessão está em mim, eu sou a possessão…Este corpo está possuído pelo demônio. Não há policial nenhum aqui, só seu corpo, eu sou o demônio.

-Você não deveria brincar com essas coisas. Por que eu acreditaria em você ? — disse Tim enquanto tateava seu peito à procura da corrente que trazia pendurado o pequeno crucifixo dourado que pertencera a sua mãe.

-Esse crucifixo não irá ajudá-lo em nada. Considere-se desprovido de existência, agora você pertence a mim, aqui você é totalmente submisso a mim.- falou o policial, com malícia na voz.

Tim gelou. O homem falava sério. Estava confuso, não entendia do que se tratava tudo aquilo, não fazia ideia de como reagir. Ficou em silêncio, rezando calado, segurando com força o crucifixo.

-Desça do carro.

Tim desceu do carro. Ficou de pé, frente a frente com o “homem” de farda. Tinha de olhar para cima para poder encarar o demônio, que era muito mais alto que o nordestino. Ficaram lá, parados de frente um ao outro, cada um esperando por qualquer reação do outro.

-Você não pode me prender- exclamou Tim, convicto.

-Você não está preso em nome da lei, você está preso a mim, tudo que acontecer daqui pra frente depende apenas de minha vontade, agora você já não tem controle algum sobre sua vida.

-Você vai me matar ?- disse Tim, ainda se mantendo forte.

-Não estou decidido sobre o que farei, mas não se apresse.

-Não estava me apressando, quis dizer a longo prazo, você pretende me matar em algum momento ? Posso me dizer um homem morto ?

O demônio ficou pensativo por uns instantes, mas logo respondeu:

-Mesmo que eu não venha a matá-lo, eventualmente você vai morrer, estar vivo é sinônimo da iminência da morte, sua simples e simplória existência é naturalmente efêmera. Você já era um homem morto desde o instante em que nasceu. — fez uma pausa curta, mas que para Tim durou uma eternidade — Mas devo dizer que gostei do senhor, foi uma pergunta inteligente, você parece ser uma pessoa sensata, um homem de boa índole.

-Do que vale ser sensato e de boa índole se já estou morto ?

-Justamente. Debaixo da terra nada disso fará diferença.

-Já que não faz diferença, dê a mim uma oportunidade, escute o que o homem morto tem a falar.

Dito isso o demônio disparou a gargalhar, alta e ironicamente de uma forma que Tim arrepiou-se de medo, e com puro mal no olhar fumegante, o demônio aproximou-se de Tim e falou a ele:

-De qual filme você tirou essa fala ? Não se esqueça que sou superior a você, sou mais esperto que você, você não vai me enganar. Desista antes de se dar ao trabalho. — fez uma pausa, pensativo — Mas ainda assim, gostei de você, Tim, vou lhe dar uma chance sim, vou deixá-lo falar, me convença a te deixar ir.

-Mas como eu posso impedi-lo de fazer algo se não sei quais são as suas intenções ?

-Bem…considere todas as possibilidades de coisas que eu poderia fazer com você ou a você. “Coisas” é um termo muito vago mas é exatamente isso que eu quero dizer. Tudo que já tiver passado pela sua cabeça pode ser o que farei com você. Essas são minhas intenções. Se não decidi nada então minhas opções são todas.

Tim engoliu o seco. O demônio podia torturá-lo e matá-lo de milhões de formas possíveis, e estava em suas mãos a capacidade de escapá-lo apenas com a argumentação. Tim não era muito esperto. Não teve uma educação tão boa, estudou apenas em precárias escolas públicas, não tinha dinheiro para um estudo digno, saiu da escola antes de acabar o ensino médio para trabalhar, mas algo que tinha de sobra era valor por sua vida, tinha sonhos, expectativas então tornou a falar por sua vida

-Bem, eu sei que buscar a compaixão em você seria impossível, se eu dissesse que tenho família com filhos pequenos para prover, seria indiferente para você, se é que não te influenciaria mais ainda a tirar minha vida, então não vou hesitar em falar a verdade, não tenho família alguma, meus pais já morreram doentes de velhos em Pernambuco e aqui em Belo Horizonte não tenho muitos amigos, pouquíssima gente de fato de importa comigo. Falo isso para que você saiba que não estou te convencendo a ser bom, compassivo, quando na verdade tenho argumentos para convencê-lo. Enfim, a questão é a seguinte, o senhor me pediu para lhe convencer a me deixar ir, você poderia ter optado por não dar a oportunidade, foi sua decisão, sua vontade, com isso já está demonstrando que considera deixar-me ir, além do que, ao me pedir para convence-lo você quer ser convencido. Outro ponto que me veio agora é que o senhor disse que suas intenções comigo envolvem todas as possibilidades consideráveis, sendo assim, é irrefutável que no leque do tudo há a possibilidade de você não fazer nada, deixar-me ir, e se não for muito pretensioso dizer, dentro dessas possibilidades existe até a do senhor me beneficiar, me presentear ao invés de me machucar, me destruir, não é verdade ?

À medida que escutava, o demônio ficava mais intrigado. Sentia até um leve sorriso se esboçando em seu rosto. Permaneceu quieto, olhando para baixo, com a mão apoiando o rosto. Então finalmente voltou-se para Tim e disse:

-Sim, é verdade. Tudo que você disse é verdade. Mas em primeiro lugar, eu não disse explicitamente que te machucaria ou te destruiria , e de fato poderia presenteá-lo ou beneficiá-lo, ou simplesmente deixá-lo ir, e é justamente a isso que você deve me convencer. Considere-se morto, considere que eu vim aqui com o único objetivo de te matar, como você ja disse, já está morto, agora tente voltar à vida. Você disse sobre deixá-lo ir, presenteá-lo, bem, me explique por que deveria fazê-lo, da mesma forma que deve me explicar por que não deveria feri-lo, uma vez que foi você que o sugeriu também. Entenda que estou aqui postando-me como indiferente, neutro, apenas possuo a sua vida, agora o que será dela depende de seu poder dialético nesse momento.

-Enquanto o senhor é indiferente, eu sou dependente, necessitado, trata-se da minha vida em jogo, para mim é o oposto de indiferente, se para você o é, que diferença faria deixar-me ir ?

-Isso é porque estou aqui para brincar com você. Estou jogando com você. Quero confundi-lo , contradize-lo, minha indiferença é imoral, não dou à vida o mesmo valor que você dá.

-Como pode saber o que é a vida se nunca viveu como eu vivi ? O senhor é um demônio, está além da vida, não tem os limites biológicos, fisiológicos, conceituais, o senhor é livre da vida e por isso não a valoriza, são todas essas complicações e todo esse esforço que traz a essência da vida, a vida é uma constante luta para permanecer vivo. Eu luto pela minha vida desde que nasci e permanecerei a lutar até o segundo em que morrer, por mais que seja só por sobrevivência, não deixei de fazê-lo por um segundo sequer. Tirar esse mérito de mim seria desvalorizar toda minha luta, todo meu esforço pela permanência que conquistei.

-Toda sua conquista foi perdida no momento em que você passou a pertencer a mim. Desde aí, você é minha conquista, e destruí-lo seria, portanto, uma perda só para mim. Agora lhe pergunto, se você me diz que não é livre como eu sou, que é limitado, então por que permanece vivo ? Quais são suas razões para valorizar uma vida de sofrimento? Se não consigo compreender sua valorização da vida, por que você não me ensina a compreendê-la ?

-Não há como simplesmente ensinar isso a alguém, da mesma forma que não há como explicar muito bem essas coisas…é como que…seres vivos existem pela condição da vida,a vida é abundância para quem está vivo, é tudo que já foi vivido, experienciado, assimilado, absolutamente toda minha existência depende da vida, tudo que eu conheço é fruto dessa vida.

-Então se eu te matar você vai deixar de existir ? Seu corpo permanecerá caído aqui, frio, sujando o asfalto. Na verdade já está, o que te difere do corpo frio jogado no asfalto é sua vida, o funcionamento de seus órgãos, a disposição de energia para que a máquina do seu corpo funcione, a descarga elétrica que faz seu cérebro assimilar sua existência. E só.

-O que me separa disso é minha essência, ao me matar ela simplesmente seria perdida, apagada, sequer seria aproveitada.

-Sua essência? Ela é uma sinapse elétrica nesse bolo de carne dentro do seu crânio. Sua essência não veio do nada, ela se desenvolveu inspirada pelo meio externo, o meio externo permanecerá, sua existência já seria fútil de qualquer forma, diga-me, do que ela serve agora, enquanto você está vivo ?

-É por causa dela que estou aqui a dialogar com o senhor.

-Bem, sendo assim, se eu o matar sua essência estará comigo já que estou absorvendo o que você me diz, isso não será perdido.

-Mas isso não é tudo, tenho vário outros pensamentos, ideias, tantas coisas tão pobremente expressas!

-E para quem você as expressaria? Você mesmo disse que não tinha família ou amigos. Vai escrever um livro ? Fazer um filme ? Expressar suas ideias o faria mais satisfeito ? Me diga, Tim, você só está querendo deixar sua marca no mundo antes de morrer ? Você preza mais sua memória ou sua vida ? Por acaso essa conversa foi toda por causa disso, Tim ? Não é o suficiente para você ? E se eu te dissesse que sua vida é uma maldição e que devo tomá-la para te livrar dessa dor ? Como você pode dizer tanto sobre a vida se está confinado nela, nunca viu além dela para saber do que a vida realmente se trata ? Me diga, Tim, por que você teme tanto a morte se sequer a conhece ?

Tim ficou parado, paralisado, por mais pensativo que estivesse, não conseguia encontrar sequer vestígios de uma resposta satisfatória. Não satisfatória para o demônio, ele era indiferente quanto a tudo, mas satisfatória para si mesmo. Começou a questionar seus próprios princípios. E se o demônio estivesse certo ? Após longos minutos de introspecção, Tim conseguiu proferir as palavras que tanto estimava não dizer, gaguejando, com muito esforço, elas saíram como um suspiro de súplica, de desistência:

-Não sei — fez uma pausa — Tire minha vida então.

Ao ouvir isso o demônio abriu um largo sorriso no rosto. Seus olhos pareciam em chamas, era tudo que ele queria ouvir. Sacou a arma que estava no cinto do policial, apontou e disparou.

Tim mais uma vez gelou. Não imaginava que fosse ser assim. Fechou os olhos com o susto, viu-se em sua infância no interior de Pernambuco, na casa de seus pais, jogando futebol com seus amigos. Passou alguns instantes plantado de pé, esperando pela pontada de dor e a queda, mas nada vinha. Abriu os olhos lentamente, para poder ver a ferida de sua desgraça. Não viu nada. Seu corpo estava lá, perfeito, intacto.

-Atirei no tanque do carro. A gasolina vai vazar toda — disse assim o demônio, guardando a arma de volta no cinto. Entrou na viatura, ligou o carro, tirou a cabeça para fora da janela e com um sorriso de orelha a orelha, falou para Tim:

-Volte andando para casa agora.

E passou com o carro e continuou seguindo até desaparecer por entre as serras e a escuridão da noite.

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