Um Reprodutor

A Reprodução Proibida- Magritte

Não sendo belo ou esperto ou virtuoso, H.R. atingiu o sucesso na vida comercial apenas por meio da sua capacidade de observar e analisar comportamentos, estruturas e sistemas, e principalmente, reproduzir com excelsa precisão toda e qualquer informação que recebia. Nada absorvia, funcionava como um espelho; nada tinha por trás daquela superfície lisa e espelhada, mas podia configurar suas dimensões de acordo com os limites da imagem virtual do que quer que fosse que estivesse sendo reproduzido. Foi dessa maneira a vida toda, uma tábula rasa que instantâneamente se preenche e assim que se preenche, trata de se esvaziar para poder preencher-se novamente; quando na escola, por exemplo, H.R. não precisava se esforçar tanto e não enfrentava dificuldades, pois quando tinha de redigir uma avaliação escrita, bastava um mero olhar com a quina do olho que ele conseguia identificar e imitar, impecável, cada movimento de cada articulação das mãos de qualquer concorrente em sua sala — habilidade essa que eventualmente veio a ser fundamental para praticas de falsificação de assinaturas e afins — , e assim construía suas respostas aproveitando de elementos daqui e dali, sem que seu cérebro precisasse processar por si só sequer uma palavra. Não entendeu quando foi parabenizado por sua boa desenvoltura acadêmica, a naturalidade de sua trapaça a tornava não só imperceptível como também admirável. Ele não tinha inteligência, e com isso não tinha maldade para mediar seu posicionamento diante da fronteira entre inocência e irracionalidade, instinto…talvez fosse a máquina perfeita do reino animal, irrefutavelmente um exímio reprodutor. Sem se dar conta gozou das vantagens que sua habilidade lhe proporcionava, deixou-se elevar socialmente à estratosfera — era muito querido por todas as pessoas; apesar de sua aparência e pequenos hábitos levemente desagradáveis, havia algo nele que tornava seu olhar apaixonante a quem o visse, todos tinham grande carinho por ele e se sentiam bem em sua presença, o que na realidade acontecia porque todos os olhares gatunos se fascinavam pelas imagens de si próprios sendo reproduzidas em um indivíduo independente, e se deleitavam, apaixonados, tais quais o próprio Narciso — , e quando certo dia chegou ao ápice, isto é, ao ponto máximo mensurável da realização, materialização da ideia de sucesso para os homens, ou ao menos para a maioria deles; ascendeu ao topo como o gás carbônico à camada de ozônio para consumí-la — gastá-la —, e finalmente postou-se ereto no ponto mais alto da sociedade, de onde tinha visão da extensão de toda a burocracia e hierarquia que consistiam as engrenagens rotas daquele sistema de funcionamento — e produção — permanente ao olhar para baixo, e com sua inocência estúpida de quem é desprovido de inteligência e a curiosidade de quem só precisa da visão, olhou para cima e viu-se muito próximo do sol. Antes tivesse fitado o astro longamente, levantando lentamente a cabeça, com calma para ver cada ver maior a magnitude daquele corpo celeste, mas não, em um reflexo impulsivo incondicionado, inclinou em uma reação motora quase instantânea seu pescoço em um ângulo de quase noventa graus e deu-se com seus olhos mirados no centro do sol. A luz solar, forte como estava àquela distância, refletiu no espelho que revestia o cérebro de H.R., rápida como o movimento da cabeça deste, descuidada e precipitada em resposta à provocação — imitando a como se fosse um reflexo — , ricocheteou para mil direções , cegando-o e a todos os descuidados que transitavam no raio de alguns quilômetros. Após o incidente H.R. teve de ser internado em uma clínica para receber um tratamento especial, pois agora que não via, não reproduzia, e como não era inteligente, tornou-se improdutivo, absolutamente fútil, basicamente apenas um fardo, como um recipiente vazio, uma moldura entornando um espaço sem nada. Não sobreviveu um mês. Quanto às outras vítimas, só lhes foi justificado o azar, e para sua desgraça, sem ver nada descobriram que é muito fácil estar no lugar errado no momento errado.

Like what you read? Give joao a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.