RESENHA — BEYONCÉ — LEMONADE (2016)

É como se a carreira da Beyoncé tivesse se dividido em duas: antes e depois do álbum autointitulado. Quando saiu o Lemonade, tive que desconstruir o que pensava do BEYONCÉ (2013) e reformular minha ideia. Antes eu achava que o selftitled era um álbum consistente e completamente conceitual; hoje, essa definição se aplica ao Lemonade. Ela usou a estética de militância negra no filme pra contar a história sobre a crise no casamento, tema que foi tratado nas letras das músicas.

É lindo ver o quanto ela mostra versatilidade através desse álbum, usando vários samples e misturando os gêneros musicais do pop ao indie, passando pelo rock, country e trap, sem deixar de imprimir sua personalidade nas canções, como ela sempre faz.

Bastou 1 limonada pra azedar a carreira do marido! kkkkkk

Em Pray you catch me, ela demonstra vulnerabilidade e canta sobre a desconfiança de estar sendo traída. É perfeita pra abrir o disco e nos convida a escutar o que está por vir. Em Hold up ela para e pensa “peraí… ninguém te ama como eu, então por quê você tá fazendo isso comigo?”. Produzida pelo Diplo, Hold up tem batidas peculiares enquanto a intérprete brinca com os vocais, ora graves, ora agudos. É uma das faixas com mais produtores/compositores creditados.

Honestamente, eu vivi pra ver a Beyoncé fazendo rock. E é por isso que a próxima faixa é a minha favorita. Em Don’t hurt yourself, ela junta forças com Jack White e o resultado é sensacional, onde o álbum explode pela primeira vez. Aqui ela solta toda a raiva contida e põe o Jay Z contra a parede aos berros, com ameaça de divórcio e tudo. Amo.

Na faixa seguinte podemos apenas relaxar e dançar. Pra mim, Sorry é a prima perdida de Diva, Videophone e 7/11, aquele trapzinho clássico que sempre tem. Na letra, Beyoncé mostra como se lida com traição: bebida no copo e dedo do meio pro alto. Sem neurose, sem k.o. Criação do starboy The Weeknd, 6 inch é a mais obscura do álbum, um tanto complicada de interpretar. É um som que fala de uma mulher forte e poderosa, workaholic, mas que vale cada centavo gasto. Poderia ser uma prostituta, ou poderia ser a própria Beyoncé. Nunca se sabe.

Parece mentira, mas temos country em Daddy lessons. Não é meu gênero favorito, mas gosto de como ela se desempenha bem em qualquer estilo. Nessa música ela canta sobre os ensinamentos de seu pai, e de certa forma, compara seu próprio casamento com o da mãe, que também passou por situação parecida. Em Love drough ela mergulha no indie psicodélico com vocais suaves, e pela primeira vez mostra otimismo e esperança pra consertar o relacionamento. Beyoncé deixa a peteca cair nas próximas faixas, Sandcastles e Forward, onde ela se mostra disposta a se reconciliar e seguir em frente. Apesar de ser o ponto baixo do álbum, são letras extremamente importantes pra narrativa da história.

E então chegamos ao ápice do Lemonade — Freedom é onde a mensagem política e a narrativa do disco se encontram, onde a temática visual e lírica finalmente se fundem. Podemos traçar um paralelo entre os anos de escravidão e a escolha de ser refém do rancor e amargura. Aqui, ela escolhe a liberdade. A penúltima música do álbum fecha a narração. All night long, outra produção do Diplo, é o final feliz do disco (ou o “to be continued”) onde ela acredita que o amor verdadeiro é mais forte do que qualquer negatividade. E é esse o sentimento que a canção transmite — paz e amor, perdão e reconciliação, otimismo e confiança. E fechando de fato o disco, temos a estrela do ano, Formation. Essa música é política do começo ao fim, não se encaixa na história do álbum, mas foi a estratégia perfeita pra causar polêmica e chamar atenção pro que estava por vir.

Durante o ano vimos que ela fez performances memoráveis, dando atenção a todas as músicas, sem focar nos “singles”. Ela queria que o álbum inteiro fosse um hit, ela queria um álbum consistente. Quando eu disse que precisei reformular minha ideia sobre o BEYONCÉ, eu quis dizer que o Lemonade sim, é um álbum conceitual e coerente, enquanto o anterior foi completamente experimental. Ao viajar o mundo todo gravando diferentes clipes e testando sonoridades no selftitled, ela adquiriu experiência pra fazer um verdadeiro álbum visual, um filme que retrata a história do que foi cantado na música. Depois de perder o Grammy de álbum do ano em 2013, parece que ela consertou os erros anteriores e voltou determinada a levar o prêmio dessa vez. Liderando as indicações em nove categorias, ela prova definitivamente que não precisa de smash hits pra manter seu nome sólido na indústria, e trabalha duro pra conseguir o que quer. Esperamos que no próximo ano, os versos finais de Formation se concretizem — “always stay gracious best revenge is your grammys… ops! paper”


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