A música mainstream de 2017 ainda não superou 2010

Iustração por: taruíra

Já escutei isso antes…

Para quem gosta e acompanha música mainstream, não se limitando necessariamente ao gênero pop, estou falando aqui sobre hip-hop, rap e rock, nesses últimos sete anos não há muitos motivos para comemorar. Após o hiato de vários anos de várias cantoras/es o surgimento de grupos, boybands e girlbands que vieram através de reality shows, há uma equação extremamente complicada para tentar entender o momento atual da música e principalmente: por que em 2017, criativamente, ainda estamos empacados em 2010.

Hoje obviamente o contexto é muito diferente. São vários momentos que definem o estágio da música pop hoje, principalmente quem lida com as transições de palataformas, social media, imprensa, fãs, abaixo algumas breves impressões sobre a música em 2017:

Streaming O streaming aconteceu, apesar das tretas entre as empresas- olá Apple Vs. TIDAL-, os catálogos só vão aumentando. Se antes downloads ilegais eram relativamente fáceis de serem feitos, hoje talvez a comodidade nos faça pagar um valor simbólico sem reclamar. As gravadoras já começam a pagar pelo anúncio de conteúdos, mas tudo está em constante transição. Se o álbum físico não morreu ainda, está andando que nem um zumbi, serve apenas como um enfeite na sala.

Social Media hoje, é basicamente a coisa mais importante do que qualquer coisa: até a própria música. Ter instagram, twitter e outras redes garante visibilizadade e, principalmente, o buzz. Não se limita a música, mas também em basicamente TUDO NO MUNDO tem que ser divulgado, comentado e se tornar notícia.

Realities/talents shows Você já pensou quantos ex-BBBs existem no Brasil? Em torno de 278 ex-participantes. A música meio que virou isso, um tanto de ex-bbbs. Agora imagine quantos ex The Voice, Idol, X-Factor, e infindáveis realities, não apenas nos USA/UK, mas no mundo. Obviamente a banalização dessas competições banalizou e bagunçou toda uma estrutura de uma cena musical, como também mexe com as ambições de jovens pelo sucesso e exposição. Tal qual Grazi Massafera, Jean Wyllys e Sabrina Sato, poucos dão certo (apesar de ser inegável o talento de vários oriundos, o que não é necessariamente verdade no caso do BBB).

Imprensa A imprensa basicamente não existe mais. Na época da buzzfeedização das notícias, o que significa ser um crítico cultural/musical? Nada, por que ninguém quer ler (e nem consegue) ler algum texto completo. Grandes veículos tradicionais, que fazem reviews e tal, focam mais no sensacionalismo e na rabugentice para atrair likes e visualizações. Mas hoje o debate sobre a música é muito mais sobre a vida pessoal, postagens no Instagram e barracos no Twitter. Ou então, apenas número dos charts.

Bom mocismo Tendo Ed Sheeran e Taylor Swift como expoentes mais notórios, apesar da última ser um pouquinho mais talentosa e inteligente que o primeiro. Músicas altamente gostáveis, gente muito satisfeita consigo mesmo apesar de serem apenas privilegiados. Não vou mentir sobre a Taylor, adoro essa falsa: é uma mulher brilhante, e tem músicas muitos boas. Mas pra eu falar do 1989 como algo inovador, já é demais (mas nas festinhas e na hora da sofrência a Taylor é ótima).

Fãs A parte mais complicada. Os fãs deixaram de ser aqueles adolescentes que ficavam comprando pôsteres pra pegar na parece para crianças mexendo demais na internet, investigando a vida e comentando tudo, fazendo memes, vídeos. É divertido? Bastante. Mas um pouco perigoso e extremamente psicótico.

Festivais de músicas O que dizer? Festivais de música são sobre várias coisas, menos sobre música. São sobre moda, redes sociais, sobre merchandising, sobre comebacks irrelevantes, sobre bandas ruins dos anos 2000 que você nem sabia que nem existe.

Já tivemos vários lançamentos variados em 2017. O pop nunca foi tão pop em tempos de redes sociais. Das contas mais seguidas nas plataformas, das noticiais, repercussão acerca de tudo, são dois os lançamentos mais significantes até o momento de 2017: DAMN., do incontestável Kendrick Lamar e da ex-pirralha Lorde, Melodrama. Já foram lançados vários álbuns, mas acredito que esses dois acompanham particularidades relevantes.

Quando falo dessas particularidades, não se trata especificamente do desempenho comercial, e nem necessariamente sua qualidade. Já que o mesmo com gravadoras sedentas por hits com muitas produções e muito investimento, são poucos que esse ano seguem a receitinha de bolo do pop para se tornarem hits. Enfim, gostaria de falar sobre o More Life do Drake, que digamos, fez algo até relevante em função de não criar necessariamente um álbum, mas uma playlist nesse tempo de expansão do streaming. Bastante interessante. Mas, não é o caso. Drake, você fica na fila pra próxima.

Kendrick desde 2012 com good kid mAAd city e depois com o To Pimp a Butterfly vem trazendo nada mais nada a menos que excelência no hip-hop. Apesar de tudo isso, não era necessariamente um sucesso comercial, como outros companheiros do rap, mas Kendrick conseguiu com DAMN. Uma abordagem mais comercial, mas sem perder a essência. Todos os trabalhos do Kendrick tem uma temática muito bem elaborada, está tudo conectado e não é diferente com esse.

A menina Lorde, alguns anos após de hiato nem lembra mais aquela menina muito estranha de outrora. Ella tem agora 21 anos, não é a menina neozelandesa que vive nos subúrbios, agora é uma jovem adulta cosmopolita que faz parte da elite do entretenimento, com suas amigas e amigos celebridades. Mas mesmo que pudesse estar totalmente deslumbrada, sempre manteve sua essência. E isso se reflete também em sua música. Com Jack Antonoff, one hit wonder da péssima hipster-farofa fun., que já havia produzido o 1989 de Taylor Swift em 2014, fizeram um trabalho coeso, no entanto, apesar da qualidade inegável da menina Lorde, fiquei com aquela impressão de ter escutado aquilo antes. E tinha mesmo.

Melodrama é basicamente o The Suburbs do Arcade Fire feito por uma garota de 21 anos que levou um pé na bunda e está com seus amigos ricos nas melhores festas de uma das melhores cidades do mundo. É um trabalho muito belo, isso é inegável, porém muito limitado a essa lembrança que eu tenho do The Suburbs. É bastante autêntico, se você nunca escutou Arcade Fire.

Em relação ao Kendrick, DAMN. É a melhor coisa do ano, mas não acho que superou a própria carreira do Kendrick. Além disso, ele carrega aquela coisa que já me intriga há tempos: até agora não obteve o sucesso comercial dos seus colegas, porém é o mais talentoso rapper da atualidade. Mas para mim o Kendrick ainda não superou algo que Kanye West fez: que foi o My Dark Beautiful Twisted Fantasy. Ainda não. Talvez no quesito hipsters que usam coque masculino e que gostam de hip-hop com uma “mensagem”, e mais “elaborado”, ainda falta ousadia. Kendrick apesar de todo o conteúdo e produção louvável contra o racismo sistêmico, não é um cara de CAUSAR.

Obviamente, ele resgatou vários pontos que haviam se perdido no hip-hop. Trazendo o legado principalmente do gangsta rap, obviamente para os anos 10's. Na questão lírica e de ritmo, Kendrick supera Kanye com folga. Mas agora em questão de inovação, Kanye deve estar mais de 10 anos para frente. Yeezus e principalmente The Life of Pablo são dois exemplos de como Kanye ainda é relevante para a indústria.

Primeiro não são álbuns gostáveis. O TLOP ainda é mais extremo nesse sentindo. Porém, segue maravilhoso. Só que Kanye é o cara que fala besteira demais, é o cara que é marido da Kim Kardashian e é o cara que interrompeu Taylor Swift no VMA em 2009- e as pessoas ainda não superaram isso. É muito fácil desprezar Kanye West. Mas escutá-lo e entendê-lo é difícil.

Nisso, Kanye supera Kendrick: mesmo com atitudes idiotas, misóginas (Kanye, te amo, mas larga disso pfvr) ainda tem uma certa falta de filtro que é fascinante nessa indústria tão artificial- para bem e para o mal. Kendrick tem um quê de low-profile que ainda eu não entendi a que veio, o acho muito alinhado com a indústria, muito diferente do Frank Ocean (❤), por exemplo, zoando os produtores do Grammy. Inclusive, somente o Frank Ocean dá outro post gigantesco, fica pra próxima.

Estou aqui aguardando mais lançamentos, já 2017 ainda não acabou, assim como 2010.