Reencontro de Turma: tortura em forma de convivência social

Ilustração: taruíra

Uma vez eu escutei pelo mundão: Deus criou o terceirão, daí o capeta ficou com inveja e inventou o reencontro da turma.

Pois bem, as coisas estão mais ou menos assim: depois de quase dez anos de formatura do ensino médio, a minha turma, que mantém contato pelo Facebook decidiu fazer um encontro. Eu já tinha saído uma vez do grupo (#sociabilidade-273K), o convite não estava “chegando” pra mim, ops.

Saí já que nem estou usando tanto o Facebook assim. Além de ter dado unfriend em várias @, saí de vários grupos, para evitar mais contato. O pessoal da universidade ainda acho válido ter contato, mas com a galera da escola não há necessidade, obrigada. Nada contra essas pessoas (péra, nada contra todas as pessoas), mas a gente não é obrigada a ficar congelado no tempo, principalmente quando o ensino médio não foi nada mais, nada menos que o meu pesadelo e horror da vida adolescente.

Lembro do George Constanza em um episódio de Seinfeld uma vez em que ele foi perguntado sobre estar feliz, em uma situação que junto com o Jerry ele fez uma besteira, e ele responde: “Claro que não, eu nunca fui feliz”. Risos. Primeiro: a minha vida de fato não foi aquela que eu sonhei. Foi um pouco pior, os romances foram bem decepcionantes do que havia imaginado, o círculo social também. O meu problema sempre foi idealizar, sonhar demais e querer demais. E além disso, eu sempre fui uma reclamona de marca maior. É é bem ruim esse meu comportamento, uma vez que: minha vida na verdade é ótima. Tenho TANTA coisa pra agradecer, lugares maravilhosos e pessoas incríveis que tive oportunidade de conhecer, mas no final sempre lembro das coisas ruins. Sabe, é até meio psicótico/depressivo analisar tudo e encontrar todos os pontos lamentáveis e ficar remoendo eternamente. Mas eu até que era uma garota boazinha no ensino médio. Tipo, eu sempre tive uma natureza extremamente trouxiane. E a vida, meus amigos, é do cara babaca ou a mina chata que se acha a última bolacha do pacote. E é no ensino médio que vemos tudo isso se concretizar.

Mas sério, eu sou uma pessoa hiper-sensível. Sempre tive problemas com relações sociais. E digamos muita facilidade para fazer inimizades. Tenho alguns lapsos de transtorno passivo-agressivo ao aceitar muita coisa, mas me encheu o saco? Beleza. Tenha uma ótima vida e excluo essa pessoa da minha vida sem nenhum ressentimento. Na verdade, eu apenas vejo se a pessoa me acrescenta ou não, ou se vale a pena investir mais um pouco na relação- o que geralmente não é o que acontece. O que estou tentando explicar de um modo muito confuso: MIGOS, EU NÃO SUPEREI OS PROBLEMAS DA QUINTA SÉRIE. QUIÇÁ DO ENSINO MÉDIO PRA VER TODOS VOCÊS DE NOVO TOMANDO UMA CERVEJINHA E TIRANDO SELFIES.

O meu terceiro ano foi o mais esquisito de todos. Meus amigos eram mais velhos e as pessoas que eu mais me identificava não estudavam no mesmo colégio que eu. Então, desde o primeiro ano a escola já havia sido uma decepção absurda para mim: amigas falsas, e o meu maior pesadelo de todos: os amigos cupidos. Sempre há uma pressão enorme pra você gostar de alguém da escola, pra você ficar com alguém da escola. E, fofos, cometi esse erro. Mas isso é outra história. Além disso, como vários de nós, eu era MUITO esquisita na escola. Tipo, sério.

Eu nunca fui padrão. Minhas roupas não eram femininas o bastante, eu sempre fui desajeitada com todo mundo, pra conversar, pra fazer piadas, pra tentar parecer normal. Eu morria de vergonha e era absurdamente tímida e absurdamente influenciável. Às vezes um grupo faz toda a diferença sobre seu comportamento, principalmente se você estiver se formando como pessoa. O que não é só na adolescência, mas onde provavelmente seus traumas foram iniciados- isso e o que você sobreviveu das festas de final de ano da sua família.

Mas, claro, o ponto de vista aqui é de alguém socialmente desajeitada. Uma das alegrias de estar pensando sobre aquela época é: que bom que eu não sou mais desse jeito. Hoje acho que apesar de todas as situações ruins, eu assumi essa péssima personalidade que é a minha. Descobri que não é necessário agradar a todos, descobri que a vida segue seus caminhos e deixar de seguir seus princípios, não adianta nada. Nadinha mesmo. Os meus coleguinhas, eu peço perdão. O problema sou eu, não (a maioria de) vocês. Mas a realidade é: não converso com ninguém mais, apesar de estar em contato via internet. Pra que fingir? Não há mais ligação.

Mas o caráter diabólico da reunião é basicamente a ostentação da plenitude da vida adulta. Na verdade, poderíamos dizer que é justamente a falta dela e a sua normalização da encenação social. Eu com meus 26 anos estou no limbo da vida: formada, porém sem emprego. O país está um caos, muito provavelmente começarei minha segunda graduação no próximo ano. A vida, rapaz, está toda confusa determinada. Qual a chance de ir a um lugar e mentir que está tudo bem? Quem aos fucking 26 anos está estabelecidos na vida? Se estiver, parabéns é difícil e bonito pra burro. Mas não venha querer jogar isso na cara dos coleguinhas. Principalmente nos mais fodidos para poder se sentir melhor (INDIRETA DETECTED).

Já diziam os Stones: you can’t always get what you want/ but if you try sometimes you might find what you need. Se você sobreviveu ao Ensino Médio, parabéns. Se você está passando por isso: aguente. Torça para que a universidade seja melhor- é melhor, mas não é taaaaaaanto assim, viu. A lição, como dizia a mãe de um amigo de infância do Frank Ocean, num interlude do Blonde:

LISTEN, STOP TRYING TO BE SOMEBODY ELSE.

DON’T TRY TO BE SOMEONE ELSE. BE YOURSELF AND KNOW THAT THAT’S GOOD ENOUGH.

DON’T TRY TO BE SOMEONE ELSE.

DON’T TRY TO BE LIKE SOMEONE ELSE, DON’T TRY TO ACT LIKE SOMEONE ELSE, BE YOURSELF.

BE SECURE WITH YOURSELF.

RELY AND TRUST UPON YOUR OWN DECISIONS. ON YOUR OWN BELIEFS.

É ser você, só isso. Clichê, porém verdade. Acredite nas suas verdades e confie nelas. Estude, se conheça. Não deixe que ninguém ridicularize ou faça raiva em você. Respeite-se para poder respeitar os outros. Se você não quiser ir, não vá (e poupe-se de um desgaste emocional).