SOBRE CRISES E NÃO ESTAR EM UM BOM MOMENTO: ALGUNS ASPECTOS

Ilustração por: taruíra

#SOBREVIVENDO

Quase toda minha vida estive metida em alguma crise, algum período de inquietação, algum período de ansiedade e medo- do futuro. Eu sempre tento fugir dessa situação e nunca encarei os meus problemas de frente. Esse ano eu decidi que seria diferente. Parei. Decidi respirar, decidi reavaliar tudo. Não sei se valerá a pena, mas sinto que estou me regenerando, de algum jeito. Larguei os vícios mais freqüentes, o álcool e o tabaco. Não abandonei outros vícios e manias, mas estou tentando. Sobriedade às vezes é extremamente superestimada. Não por que seja ruim, mas por que é difícil. É difícil não ter uma válvula de escape, aquele gole de cerveja geladinha ou aquele cigarrinho de palha com um cafezinho. Mas é muito bom não fazer merda, não acordar fedendo e tossindo e principalmente: não ter ressaca.

Sair desse ciclo vicioso de coisas ruins é muito complicado. Tudo é cansativo, tudo é trabalhoso, tudo é chato. Não dá pra identificar sequer coisas básicas, como o passar do tempo. Li um diário que mantinha há mais de três anos e os meus problemas são basicamente os mesmos. Para mim esse estado seria uma mistura do mito da Medusa, parece que estamos paralisados, mas há algo de rotineiro e degradante, tal qual a sina de Sísifo, de levar a pedra pra montanha e vê-la cair novamente. Estar sem nenhum tipo de vício vem me ajudado nisso, é necessário as vezes fazer uma desintoxicação para poder melhorar nossa percepção.

Geralmente histórias de superação que buscamos para nos ajudar, podem ser piores do que melhores para entender o nosso problema. Obviamente nos trazem um tipo de conforto, mas também pode despertar sentimentos ruins. Os relatos são sempre feitos por quem está muito bem. Sim, ninguém quer escutar quem está mal. Todos querem escutar quem já ganhou a corrida. Falando em sentimentos ruins, não há momento mais propício para TODOS aflorarem e uma má fase. As nossas emoções estão tão no limite que qualquer coisa nos influencia de alguma maneira.

A insatisfação com a vida, saber que alguma coisa deu errado, que alguma coisa desandou que nada nunca deu certo, também nos proporciona a ser um pouco ruins com os outros. Não só em relação ao convívio, mas essa mania de nos compararmos com os outros o tempo todo. É difícil ser feliz, é mais difícil ainda quando o vizinho está dando uma festa barulhenta e estamos de pijama em casa numa noite de sexta-feira. Acho que a comparação é a coisa mais triste que estamos habituados a fazer. Uma das coisas mais legais que já escutei foi fazer uma “Revolução Copérnica inversa”: ao invés de se comparar com os outros, o ideal é se comparar consigo ao longo dos anos e ficar feliz por isso. Feliz mesmo. Duas coisas me ajudam sempre: auto-indulgência e humildade.

Não é o caso de tratar auto-indulgência com auto-piedade. Não somos agentes passivos na vida, mas é inegável que o mundo é tão, mas tão maior que nós. Mas perceber-se como um ser extremamente falível, e perdoar-se por isso é tirar um peso das costas. Mas não cultivar a piedade de nós mesmo, pois ela nos encolhe. Sobre ser humilde, também é importante. Saber exatamente nossas potencialidades e nossas limitações ajuda demais a suportar o cotidiano. Nem mais, nem menos.

Sobreviver nesses tempos de crise também testa nossa cafonice. Poderia estar lendo um livro do Dostoievski refletindo sobre a existência do ser, mas estou aqui no Instagram buscando fases motivacionais. Poderia estar me dedicando firmemente a uma ocupação recreativa, mas acabei de ler vários de livros de ajuda. E o pior: apesar de ser extremamente cafona, isso ajuda. Observei isso com nossos amigos crossfiteiros, a vida pode estar uma bagunça, mas tudo bem: estão tirando selfies e colocando hashtags #FORÇA #FÉ #FOCO e se exercitando felizes. Obviamente para palestras motivacionais há um limite: TEDx Talks, que geralmente tem histórias interessante e esteticamente bonito, para justificar aquela maratona de 10 vídeos? Talvez. Um conselho de youtuber de 16 anos seja demais? Sim. Mas se te ajudar, está tudo certo. Todo mundo é meio cafona mesmo, não há como escapar.

O que ajuda é se descobrir e descobrir o nosso valor. Talvez ao invés ficar se culpando por não conseguir fazer nada, fique feliz que você está melhorando a cada dia. Seja bom com você e com os outros. Respire. Vá buscar algo de bom pra fazer. Contemple. Tudo vai se resolver logo. Às vezes a gente tem que confiar no mundo. E em nós, é claro.

(Escrito por alguém que está um tanto encrencada na vida, mas que já esteve pior.)