Especulative Everything
design, fiction, and social dreaming
Speculative Everything, de Anthony Dunne e Fiona Raby, desloca-nos das zonas de conforto construídas pelas referências que estruturam a vida individual e colectiva.
Incita-nos a quebrar o ato automático de reconhecimento e avaliação do real e do expectável e a pensar de novo. Reavaliar aquilo que vemos e assimilamos, para gerar novas respostas.
Fundamenta-se na geração de diferentes possibilidades de ser e existir, como alternativa à realidade que conhecemos. “E se..?” como forma de apresentar diferentes cenários possíveis.
Vive da ideia, do conceito, mas também da sua materialização. De gozar a irrealidade do ato especulativo e as oportunidades estéticas que este cria e faculta.
Propõe que se encare o design como algo mais para além do seu papel estritamente funcionalista e de incentivo ao consumo. Questiona a necessidade de “engavetar” ideias e conceitos.
Entre várias ferramentas utiliza a polemica, o humor e a surpresa para gerar questões, e não respostas. Usa a especulação como “ginástica”, “treino”, “lembrete”. Como forma de manter vivo o debate e a geração das diferentes possibilidades.
Sugere também que a realidade tal como a conhecemos é tão complexa que se torna necessário desagrega-la em partes de forma a capta-la e a conseguir a partir daí propôr aquilo que será o novo.
Estabelecendo paralelos entre esta pratica de design, a literatura e o cinema, justificam o recurso a narrativas e contextos fictícios e futuristas para criar os cenários possíveis.
Propõe aos designers um exercício de extrapolação da realidade tal como a conhecemos, no sentido de nos libertarmos dos constrangimentos profissionais, mentais e comportamentais em que vivemos. Tem como desvantagem cair em cenários demasiado irreais. No entanto é precisamente esse o exercício radical que nos é proposto e gerar incomodo faz também parte da sua razão de ser.
Propõe uma reavaliação dos sistemas ideológicos e políticos atuais de forma transformá-los num ideal possível, em que o contributo do individuo é um fator relevante. Conclui-se também que é necessário que a mudança de mentalidade e ação seja colectiva se se quiser que o projeto especulativo seja eficaz.
O livro retoma e resume a pratica profissional dos últimos 20 anos dos autores, compilando diversos exemplos de projetos que validam as propostas teóricas e praticas da vertente do design que inventaram como alternativa ao modelo produtivo. Revela-se uma proposta regeneradora e útil para repensar modelos antigos, estruturas de classificação rígidas e desatualizadas.
Uma das dificuldades que encontrei é, como, a partir de tanta complexidade e camada exposta, fazer com que o público, e não apenas os designers que têm mais bagagem profissional e intelectual para esmiuçar os territórios do design e usar as ferramentas propostas, aceda ao nível de desprendimento da realidade e do quotidiano necessário para conseguir levar a cabo exercícios de especulação e integração de novas realidades? Ou seja, como fazer com que o público no geral faça On-Off à sua realidade de maneira a permitir novas visões?
Entre outras coisas é sugerido que o público concorde em suspender momentaneamente a sua descrença e acredite no que lhe é proposto para que os objetos, ou adereços como são referenciados, surjam o efeito desejado. Isto pode ser interpretado de duas maneiras diferentes. Ou este nível de descrença por opção é apenas uma sugestão a um nível superficial, o que não fica muito longe do ato de desfrutar de uma experiência extra-real como assistir a um filme, peça de teatro, ou ler um livro, em que o espectador-participante sabe que se ausentou momentaneamente por opção, ou em alternativa, está a ser pedido ao mesmo que efetivamente acredite, o que se revela um ato difícil de levar a cabo num estado de consciência. “Concordar em acreditar” é um contra senso. Concordar pertence à razão. Acreditar excede a razão.
Apesar disso, a gênese desta proposta é bastante interessante e tem como característica positiva querer agir como previsão e programação. O objetivo não é apenas nobre mas também inteligente. Acerta no propósito.