E então olho-te à distância

texto por Gonçalo Amadeu

Entrou no metro como num elevador de costas para o espelho se lá houvesse um. Deu espaço às portas que se encostam como ombros no meio da música e cheira a erva e sabe a suor e tudo tem escrito o desapontamento de algo irrepetível. As mãos cheiram à laranja que roeu enquanto esperava depois do trabalho e não desceste. Hoje fico até tarde não foi o que quis ouvir. Era a vibração molecular do Fender a foder os gráficos ao técnico de som que cobria o gajo das luzes e as suas cervejas logo nessa noite e tu repetindo não entrar no metro com ela e não deslizares as chaves na tua fechadura e não ficares até tarde dentro dela pela terceira vez. Sentir-se o cheiro da laranja perfumando o fumo do cigarro na ponta dos seus dedos e sentir o candeeiro através da persiana tirando a vontade de dormir. Querer levantar-se sonâmbula pelo metro deslizando paralelo ao mundo e verter um cone de alcatrão sobre os reflexos do peito e se pudesse ser só seria as tuas palavras mais uma noite até tarde como ombros na erva e ser a razão irrepetível da vibração molecular do Fender. Esse momento é o tempo perpendicular de quem se vê paralelo aos homens e de quem se move paralelo à terra como o metro paralelo ao mundo e uma ilha reflecte hoje fico no alcatrão do ecrã do seu peito. Esta noite é o som do Fender que a fode até mais tarde como o gigante do candeeiro a incandescer as cordas da guitarra através do cigarro. Entra na multidão de portas que abrem e fecham como ombros ou como lábios e tu descendo as palavras hoje fico até tarde para que não sejas tu a descer. Desce o peito e desce a luz e descem os dedos e sai o desejo nunca mais mais uma vez e uma falta de verbos quando o telemóvel desce à mala na mesma velocidade com que se sai da cama a meio da noite. Entra pela erva pelo cheiro pela noite até ao reflexo do palco como uma ilha de gigantes de luz e o cone do Fender através do espelho da câmara pela primeira vez e para sempre na maneira como descreveria a solidão se perguntassem por ela. As mesmas pontas que disparam o seu suor molecular sobre a câmara são as mesmas pontas que querem atravessar o espelho até ao palco são as mesmas pontas que obedecem ao cigarro incandescente na noite a seu lado são as mesmas pontas capazes de repetir nunca mais mais uma vez são as mesmas pontas que deslizam a chave noutra porta que não a tua e que sobem ao primeiro andar da cidade aberta. Entrou na casa como na tua de costas para ti se lá estivesses e imaginou as pontas dos dedos a premir a câmara contra os dedos da guitarra e a incandescência do Fender gravada na sua retina e imaginou os mesmos dedos perdidos de costas para ela e imaginou que sonhou com a luz que fotografara até tarde pela primeira vez. Deitou-se. Fumou. Teve vontade de dormir. A ponta do cigarro ainda laranja incendiou-lhe os lençóis tão rápido como o obturador enamorado pelo paralelismo das cordas sobre a erva e sobre a luz e sobre a terra. O Fender e o candeeiro entrelaçados através dos dedos testemunhavam o ritual do fogo na transfiguração do peito aberto em alcatrão e as únicas provas da noite até tarde na memória do acetato. Levanta-se sem se mexer e sai da cama sonâmbula e atravessa o Fender e vomita a imaginação e desce as palavras e repete os dedos e reflecte o peito e fecha as portas. Entra na sala onde espera pela última vez mais uma vez como todas as vezes que entrou num elevador e se viu no espelho de costas para a porta e rói a luz do ecrã através do alcatrão e sabe um cone de voz chegar no meio das vozes e mantendo-se perpendicular olha a distância entre os dois deslizar na horizontal. Hoje ficas até tarde as noites que quiseres.


Sublinha___ Recomenda ❤ Partilha@ Segue O.O|Obrigado:)