Lovers gonna love
Há demasiado ódio no ecossistema. Sim, disse ecossistema, mas não me odeiem já.
Será talvez natural em grupos de interesse cuja dimensão não é suficiente para diluir a carga negativa ou que cresceram demasiado para que a proximidade entre as pessoas já não exista.
Será talvez o cultural português em que ninguém tem mérito, ninguém consegue nada com o seu trabalho, se conseguiu não o merece, se o merece não o pode gozar.
Será talvez um espírito de competição associado à iniciativa privada ou uma necessidade de afirmação de egos.
Prefiro não me alongar a falar do problema, apontar dedos e torcer facas, mas sim procurar a solução. Porque é um ecossistema que quebra o status quo todos os dias. Vou chamar-nos grupo de pessoas, é mais pessoal e coerente com a mensagem que tento passar: porque somos um grupo de pessoas que quebra o status quo todos os dias. E se assim o fazemos, porque não quebrar também estes costumes de veneno? A rejeição já nos é diária, ossos do ofício que temos de conseguir ultrapassar. Se toda a energia negativa e tempo gastos forem canalizados para um espírito de ajuda mútua e comunidade, iremos todos crescer em conjunto.
Ouvi dizer um dia que a marca Portugal não é apenas potenciada através do conceito Portugal. A marca Portugal é potenciada cada vez que o CR7 marca um golo, cada vez que uma garrafa de vinho do Porto é exportada, cada vez que alguém procura por Erica Fontes no PornHub (nunca o fiz, juro!), cada vez que uma startup portuguesa é investida…
É isso que nós estamos a fazer: a criar uma marca. A deixar uma marca, através dos nossos esforços individuais e conjuntos. Uma marca que devia ser uma love brand, porque a referência ao desafio do status quo não é sobre vaidade ou pretensão. É, sim, sobre os desafios e provações diários que levantar uma empresa do zero exige, sacrificando tempo, saúde, dinheiro, amigos, oportunidades, e dizer ainda assim todos os dias que não se trocava esse percurso por nada. Só se consegue isto gostando muito.
Um investidor americano disse publicamente no jantar do Silicon Valley comes to Lisbon 2012 que não iremos conseguir replicar em Portugal o sucesso de Silicon Valley enquanto o nosso modo de omissão não for “How can I help you?”. Passaram-se quase dois anos e não creio ter havido uma evolução relevante neste sentido.
Não estou armado em moralista, nem serei inocente. Também estou farto de startups zombie, putas de eventos, serial entrepreneurs de guardanapos, clubes, concursos e do evangelho do empreendedorismo. Mas prometo que vou fazer um esforço para odiar um bocadinho menos todos os dias e quebrar esta corrente.
Ah! E vou procurar a Erica Fontes no PornHub. Há que potenciar a marca Portugal.
Gonçalo Fortes
