Bob Dylan e os limites da literatura

Pela primeira vez na história, desde que há redes sociais, quase toda a gente tinha uma opinião a dar sobre o vencedor do Prémio Nobel da Literatura. A discussão sobre a escolha de Bob Dylan não ficou circunscrita às pessoas do meio literário (e leitores mais atentos a estas coisas), foi alargada a gente do meio musical e a ouvintes refinados e a um sem fim de gente. Foi, também, o Nobel mais controverso de que me lembro. É verdade que houve já muitos a gerar discórdia — há sempre alguém que merecia mais do que o vencedor — mas desta vez estava em causa toda a legitimidade do prémio, a elegibilidade de Dylan e o conceito de Literatura.

Discutir se Dylan merece o prémio parece-me inócuo: há dezenas de autores vivos merecedores, centenas de autores que nunca o receberam e podiam ter recebido. Discutir se Dylan foi a escolha certa dentro da categoria letrista, é o mesmo que discutir se DeLillo merece mais que Roth: é uma questão de opinião, com suficientes especialistas dispostos a convencerem-nos para um ou outro lado. Que devia ter ganho Leonard Cohen ou Chico Buarque, que as letras de Dylan não são assim tão incríveis, que são banais, que são uma merda, tudo isso são opiniões. O único dado verdadeiramente interessante da discussão foi o da própria elegibilidade de Dylan: até que ponto é que ele pode receber um prémio de literatura.

A primeira definição do vocábulo “literatura” no Dicionário Priberam de Língua Portuguesa diz o seguinte: “Forma de expressão escrita que se considera ter mérito estético ou estilístico; arte literária.” Por sua vez, a Infopédia, da Porto Editora, dá como primeira definição de “literatura” o seguinte: “arte de compor obras em que a linguagem é usada esteticamente, procurando produzir emoções no receptor.” Esta última é mais lata, referindo-se apenas à “arte de compor obras”, enquanto que a primeira especifica que o termo se refere a “expressão escrita”. Em qualquer uma das duas, contudo, parece-me que a obra de Bob Dylan encaixa.

Sim, é verdade que a forma final da sua obra são canções, discos que ouvimos, onde as suas palavras vêm acompanhadas de música e as ouvimos em vez de as lermos. A génese, contudo, está na palavra escrita, é dos poemas que escreve que nasce a obra de Bob Dylan. Aliás, a música não é a única expressão artística que tem a palavra como ponto de partida para um objecto final diferente: acontece o mesmo com o cinema ou a banda desenhada, por exemplo.

Acredito convictamente que haverá um autor de BD a vencer o Nobel da Literatura num futuro próximo. Quanto aos argumentistas, tenho mais dúvidas, mas apenas porque o cinema é um trabalho com muito menos cunho pessoal, que tem por norma muito mais pessoas envolvidas. Ainda assim, não me espantaria que o Nobel fosse atribuído a um argumentista genial, cujos argumentos para filmes sejam absolutamente “seus”, com um forte cunho autoral, eventualmente alguém que seja ao mesmo tempo realizador e argumentista.


Quando alguém argumenta que, se Dylan pode vencer o Nobel, também Quim Barreiros pode, não está a revelar mais do que provincianismo bacoco. É o mesmo que dizer que se Doris Lessing pode vencer, então Margarida Rebelo Pinto também pode; se Gabriel García Márquez pode, então José Rodrigues dos Santos também. A irritação gerada em algumas pessoas por um músico ter vencido o Nobel cegou grande parte dos argumentos, um pouco como aconteceu a Inês Pedrosa, quando se insurgiu contra o Nobel a Alice Munro — uma mera contista — havendo tantas escritoras portuguesas melhores do que a canadiana. É o tipo de argumento que merece pouco ou nenhum crédito.

Um amigo meu escreveu no Facebook que ficava a aguardar o Prémio Camões para Fausto Bordalo Dias. É difícil destrinçar, entre o muito que foi escrito e dito, o que é que é humor apenas, o que é que é crítica disfarçada de piada, o que é que é somente chalaça incendiária. No caso de Fausto, acredito que tal prémio seria absolutamente justo e merecido. A sua obra ocupa um patamar maior na poesia portuguesa contemporânea e há muito poucos — se é que algum — poetas que superem este músico e letrista na pujança da escrita, na reinvenção da palavra escrita enquanto objecto poético.

Talvez olhar para Portugal, porque as reacções iradas que fui lendo ao Nobel de Dylan são maioritariamente de portugueses, ajudasse algumas dessas pessoas a perceberem o preconceito. Acredito que houvesse poucas dessas pessoas que não considerassem as letras de Fausto, José Mário Branco, Zeca Afonso ou Sérgio Godinho alguma da melhor poesia que se fez em Portugal desde o último terço do século XX até aos dias de hoje. Quem disser que os poemas escritos por estes quatro cantautores não sobrevivem sem música é alguém que gosta pouco de poesia. Claro que há sempre alguns desses poemas que reagem melhor ao serem despidos da música, como há outros que até podem brilhar mais quando são apenas lidos, mas a sua qualidade literária parece-me inegável. Tal como a da poesia de Bob Dylan, Leonard Cohen, Joni Mitchell, etc.

Cohen — aquele que mais vezes vi referido enquanto melhor escolha, se era para dar a um músico — afirmou mesmo que o Nobel a Bob Dylan foi “como dar uma medalha ao monte Evereste por ser a montanha mais alta.” Leonard Cohen, aliás, foi galardoado em 2011 com o Prémio Literário Príncipe das Astúrias, que em anos anteriores tinha sido atribuído a autores como Margaret Atwood, Amos Oz ou Günter Grass. E antes que venham dizer-me que Leonard Cohen também escreveu romances, permitam-me citar a justificação dada na altura do anúncio do vencedor: “Considered one of the most influential authors of our time, his poems and songs have beautifully explored the major issues of humanity in great depth. The passing of time, sentimental relationships, the mystical traditions of the East and the West and life sung as an unending ballad make up a body of work associated with certain moments of decisive change at the end of the 20th and beginning of the 21st century.” Onde é que estava a indignação quando Leonard Cohen ganhou um prémio literário pela sua música?

Nesse mesmo ano, Bob Dylan foi anunciado como finalista do Prémio Literário Neustadt, um prémio muitas vezes referido como bom indicador para o Nobel, por ter na sua lista de vencedores vários autores que viriam a ganhar depois o Nobel, como Gabriel García Márquez, Czeslaw Milosz, Tomas Tranströmer e Octavio Paz. Aqueles que clamam que a Academia Sueca, responsável pela atribuição do Nobel, revolucionou o conceito de prémio literário e de literatura em geral com a escolha de Bob Dylan, estiveram certamente a dormir em 2011, quando Cohen venceu um prémio e Dylan foi finalista de outro. Ambos, diga-se, dois dos prémios literários mais importantes do mundo.


Num fascinante artigo do New York Times, podemos dar um pequeno relance ao imenso arquivo de Bob Dylan. Há uma imensidão de pequenos cadernos e folhas de hotéis, repletos de versões dos poemas, com emendas e correcções abundantes, numa busca constante pela melhor forma possível. Tem exactamente o mesmo aspecto que os arquivos de poetas que conhecemos. Nem sequer (pelo menos nas várias imagens mostradas nesse artigo) há indicações musicais. Quem olhasse para as imagens sem saber de quem eram, em nenhum momento desconfiaria tratar-se de um músico em vez de um poeta. Não que isto sirva para justificar nada, atenção: a forma ou o método utilizado por Dylan não é necessário para tornar a sua obra maior. Apresento-o apenas como mais um dado curioso, que pode reforçar o seu estatuto enquanto poeta tout-court.

Na discussão mais prolongada que tive sobre o assunto Dylan Nobel, com um editor, o argumento principal por ele utilizado era a tipologia, a forma. Na sua óptica, Pedro Chagas Freitas é literatura, mas as letras de Bob Dylan ou Leonard Cohen não, são apenas música. Ainda segundo ele, se Dylan pode vencer, até também alguém que use técnicas de graffiti para escrever frases nas paredes pode vencer.

O teatro foi rapidamente afastado da discussão porque, disse outra pessoa, a literatura dramática “não tem de ser encenada”, nem é escrita com esse propósito. Mas quantas pessoas lêem teatro, quando comparadas com as pessoas que vêem teatro? Não são os dramaturgos que venceram o Nobel constantemente encenados por todo o mundo, e as suas peças muito mais vistas do que lidas? Este mesmo editor que descredibilizou as letras de canções, garantiu-me não haver qualquer problema com o prémio ser atribuído a um autor de BD, porque “a BD é um género literário”. Curiosamente, um fã de BD no Twitter disse-me o contrário: “BD não é literatura.” É sempre interessante ver os especialistas em acordo.

Se a BD é um género narrativo, como disse o editor (erradamente, porque a BD não tem de ser narrativa), e pode ser apreendida pela sua qualidade literária, apesar das imagens, então parece-me inegável que as letras de canções, quando são boas (um critério subjectivo, que é o mesmo que distingue livros bons de maus), também têm de poder ser tidas como literatura. As de Bob Dylan e Leonard Cohen, por exemplo, são muitas vezes narrativas, mais narrativas que algumas bandas-desenhadas que já li.

Depois, falou de publicidade, que alguém que escreva publicidade também seria elegível. E eu acredito que sim, mas teria de ser alguém com um trabalho absolutamente excepcional, que pudesse extrapolar-se para o nível da literatura. Do mesmo modo que a obra de Dylan e Cohen é tão excepcional que se extrapola para os domínios da literatura (e, como disse anteriormente, isso aconteceu pelo menos 5 anos antes deste Nobel). O pior argumento que este editor me deu, e uso-o aqui apenas porque me dá jeito mostrar o tipo de ideias que baralhou na sua raiva anti-Nobel-ao-Dylan, foi que um escritor não pode receber um Óscar quando adaptam um livro seu. Bom, se houve alguém que escreveu um guião a partir de um livro, claro que o escritor não recebe um prémio por isso. A obra de Dylan é sua, não é uma adaptação de nada.


Os limites do que é a literatura tornaram-se, subitamente, um tema maior, mas não deixa de ser curioso que as pessoas mais revoltadas (aquelas que iam além das piadas que camuflam as verdadeiras opiniões) eram as pessoas do meio literário: escritores, editores, críticos. De repente, a literatura voltava a ser sagrada, intocável. Existe em formato livro ou nada feito, foi concebida para ser lida ou nada feito. A mim faz-me muito pouco sentido dizer que os romances Harlequin, os Dan Brown e José Rodrigues dos Santos, as E. L. James e as Margarida Rebelo Pinto são mais literatura do que Bob Dylan. Têm mais valor literário? Ficariam melhor numa aula de literatura na Faculdade de Letras?

Veja-se a série de televisão The Wire. É menos literária que algum destes maus exemplos que citei? Não! Tal como não são menos literários os filmes escritos por Charlie Kaufman. A ideia de literatura enquanto produção escrita não implica o formato livro, nem sequer o produto final para ser lido em vez de visto ou ouvido. Quem alinhar pela opinião contrária, terá de defender o que disse, que os romances Harlequin são mais literatura do que Bob Dylan. Se alguém está disposto a defender isso, não tenho como argumentar. São opiniões distintas do que é a literatura. Eu, enquanto pessoa que não tem particular apreço por definir barreiras, mantenho a minha opinião. O facto de a Academia Sueca, o Prémio Neustadt e o Prémio Príncipe das Astúrias estarem do meu lado é agradável: estou mais habituado a que as minhas posições progressistas sejam contrariadas pelas grandes instituições.