Cemitérios são feitos para os que ainda vivem

Enquanto os pés rastejam, firme e lentamente, sobre o concreto, os olhos cansados ziguezagueiam os objetos à sua frente. Por um descuido (ou até dois), o par de globos param. Pesados e densos miram atentamente a cena e processam cada detalhe:
Um condomínio. Casas enfileiradas. Silêncio.
Em uma tentativa acelerada de compreensão, observam atentamente os rostos estampados em papéis fotográficos já desgastados. Pessoas sérias. Vestes antigas. Abandono em forma de tempo.
Poderia ser a bio, do face ou do insta, mas na verdade é a só a lápide. Tentativa resumida de condensar num texto anos de causa e efeito. Histórias bonitas, outras nem tanto. Mortes prematuras, vidas longas. Um cardápio de possibilidades expostos na vitrine com data de fabricação e de validade.
Enquanto a compreensão é pouca, os erros continuam a acontecer. A morte beija alguns e faz pouco caso de esclarecer. Continuamos a construir pontos de lamento para cultivar não a pessoa, mas a amargura do tempo. Trazemos para o campo do pensamento a tentativa do agarramento. Daquilo que, no fundo, não traz nenhum relento.
Há algo muito mais belo e significativo nesse fluxo entre o vir e o partir, mas certamente ele não fica ali.
Era silencio o que havia, mas ainda sei que ouvi:
“Cemitérios são feitos para os que ainda vivem.”
