Dimensão
A especialidade da casa, por favor
Coçou a cabeça mais uma vez. Fazia calor e o suor o incomodava. Apertar parafusos com uma ponta de tesoura nunca fora uma decisão tecnicamente aconselhável. Mas pela falta de ferramentas, alguma coisa tinha que ser remediada.
Parou por um instante. Fora o cansaço, algo ali não fazia muito sentido. Num gesto brusco bateu com a tesoura no pedaço metálico e questionou ao amigo.
— Se a maioria das coisas são medidas ou representam alguma equação matemática, porque ainda devo me incomodar por não saber o resultado de um sentimento? Quer dizer, eu sei, soa meio besta, mas as coisas não deveriam ser tão abstratas à ponto de ser mais sacrificante do que esse exercício de enfiar a ponta de uma tesoura num parafuso!
À essa hora o objeto já tinha voado bem longe, junto com qualquer tipo de sanidade que Dunn carregava.
— Cara, você pensa demais. E pensa errado. Qual é o teu problema? — questionou o amigo.
— Flor da vida!
— Quê?
— É cara! É uma figura geométrica que representa, talvez, uma boa parte ou senão todo o universo. Da Vinci e outros caras aí, já a utilizaram ou falaram sobre. O que eu tô tentando dizer é que tudo é número. Só que números soam como algo frio e inerte. A geometria nos da a possibilidade de tornar toda essa loucura um pouco mais palpável…se é que me entende.
— Pera aí. Você então gostaria de tornar o sentimento algo numérico ou geométrico?
—Na verdade numérico. Frio, inerte!
— Bom, então classifica o que você sente de 1 a 10 e isso se torna numérico.
— Ok. Digamos que o que eu sinto por ela é algo 9 de 10. Que, se transformado numa pizza de 10 fatias, seriam comidos 9 pedaços.
— Mas aí você tornou a parada toda numa forma geométrica. Aliás, já reparou que a caixa da pizza é quadrada, o formato dela em si, é redondo, e nós a cortamos em triângulos?
— Que engraçado, nunca tinha reparado nisso. Vamos pedir uma?
— Vamos.