Life-hacks dos pobres e sem rumo*

Negociando os falsos ídolos da autoajuda neoliberal

*Este texto foi escrito por Laurie Penny para o The Baffler em 08/07/2016

Joanna Slodownik

O capitalismo tardio é como sua vida amorosa: parece muito melhor com um filtro do instagram. O lento colapso do contrato social é o cenário para a moderna mania por comida detox, vida saudável, produtividade e “amor próprio radical” — a insistência na ideia de que, apesar de todas as evidências em contrário, podemos ter uma existência significativa ao manter uma atitude positiva, ir atrás do que nos dá prazer e fazermos alguns alongamentos enquanto o planeta queima. Quanto mais pavoroso o cenário econômico e mais sobem os mares, mais o debate público gira ao redor de realização pessoal como em uma tentativa desesperada para nos fazer sentir como se tivéssemos algum controle sobre nossas vidas.

A Coca-Cola nos encoraja a “abrir a felicidade”. Políticos abrem espaço em suas agendas nos escombros da democracia para nos lembrar da importância de fazer exercícios regularmente. Blogueiros fitness insistem em nos dizer que a liberdade é uma mulher praticando yoga sozinha na praia. Tal imagem (no instagram de @seflovemantras) nos diz que “quanto mais profundo o amor próprio, mais rico é você”. Um sentimento encantador, mas as imobiliárias não costumam cobrar aluguéis em amor próprio ao invés de dinheiro.

Será possível que todo esse pensamento positivo seja danoso? Carl Cederström e André Spicer, autores de The Wellness Syndrome, pensam assim e argumentam que a ritualização obsessiva da autoajuda vem crescendo em detrimento do engajamento coletivo, reduzindo qualquer problema social a uma busca pessoal pelo bom viver. “O bem-estar individual está se tornando uma ideologia”, declaram.

Existe uma dimensão política óbvia a pretensão de que o bem-estar, com a atitude correta, pode ser produzido espontaneamente. Meses após ser eleito líder do governo mais de direita na história britânica recente, David Cameron lançou uma mal fadada “agenda da felicidade”. O esquema poderia ter sido melhor recebido se o ex-primeiro ministro não tivesse ao mesmo tempo dizimado a saúde publica, as ações de assistência social e a educação universitária — precisamente as estruturas sociais que tornam a vida administrável para a maioria dos ingleses comuns. Como parte das mudanças propostas por Cameron para o sistema de assistência social, desemprego foi repaginado como um transtorno psicológico. De acordo com um artigo na revista científica Medical Humanities, no alto da mais longa e profunda recessão das ultimas décadas, os desempregados eram encorajados a tratar sua “resistência psicológica” a participar de cursos obrigatórios que os incentivava a adotar uma atitude mais alegre em face de sua própria miséria. Eles eram açodados com mensagens motivacionais que diziam que eles deviam “sorrir para a vida” e que “o sucesso é a única opção”.

Essa forma de coerção vem sendo adotada por empregadores também, como notam Cederström e Spicer. Trabalhadores sem carga horária definida [N.T.: como o Temer quer implementar aqui na reforma trabalhista que já foi aprovada na Câmara] nos armazéns da Amazon, “apesar de estarem em uma situação precária… exige-se que escondam esses sentimentos e projetem uma aura de confiança e empregabilidade”. O que traz a questão: pra quem exatamente devemos estar nos sentindo bem?

A ideologia do bem-estar individual é um sintoma de uma doença política mais ampla. Os rigores tanto do trabalho quanto do desemprego, a colonização de cada espaço público pelo dinheiro privado, a precariedade do dia-a-dia e a crescente impossibilidade de se construir qualquer tipo de comunidade nos deixa isolados no nosso desafio solitário de continuar vivendo. Espera-se que acreditemos que a única forma de trabalhar para melhorar nossas vidas é neste nível individual. Chris Maisano conclui que enquanto “o apelo das abordagens terapêuticas individualistas para os problemas de nosso tempo não são difíceis de entender… é apenas por meio da criação de solidariedades que reconstroem a confiança na nossa na nossa capacidade coletiva de mudar o mundo que o domínio dessas abordagens pode ser quebrado”.

A ideologia isoladora do bem-estar individual age contra essa forma de mudança social de duas formas. Primeiro, nos convence que se estamos doentes, tristes e exaustos, o problema não é econômico. De acordo com essa ideologia, não há um desequilíbrio estrutural — há apenas mal-adaptação individual, que exigiria uma resposta individual. Os termos abuso e gas-lighting são apropriados aqui: se você está miserável ou furioso por sua vida ser uma constante luta contra a privação e o preconceito, o problema será sempre e apenas seu. A sociedade não é má ou problemática: você é.

Segundo, essa ideologia nos impede de considerar uma reação mais ampla e coletiva às crises do trabalho, pobreza e injustiça. Essa é a lógica exposta por gurus da produtividade pessoal como Mark Fritz, que nos diz, no The Truth abou Getting Things Done, que:

A maior a dificuldade para atingir o sucesso que você definiu para sua vida não são as outras pessoas ou as circunstâncias que você encontra. Sua maior dificuldade será sempre você… Dr. Maxwell Maltz, autor de Psycho-Cybernetics [N.A.: soa legítimo pra mim!] coloca da seguinte forma: “Dentro de você nesse exato momento está o poder para fazer coisas que você nunca sonhou serem possíveis. Esse poder se torna disponível tão logo você mude seus princípios.

Essa é, com certeza, uma mentira gigantesca — mas uma mentira sedutora, ainda assim. Seria ótimo acreditar que todo o necessário para mudar sua vida é repetir algumas frases e comprar uma agenda, assim como um dia foi mais confortável acreditar que todas as tribulações dessa existência seriam recompensadas pela felicidade eterna no paraíso. Há uma razão para que os rituais de bem-estar e autoajuda são seguidos com a dedicação de um culto (faça isso e será salvo; faça aquilo e estará seguro): é um prática de fé. Vale lembrar a descrição que Marx faz da religião como o ópio das massas é muitas vezes mal interpretada — ópio, na época de Marx, não era apenas uma droga viciante, mas também um analgésico, um alívio quando a dor de sobreviver se tornava insuportável.

Com a linguagem da autoajuda e bem-estar individual quase totalmente colonizada pela direita política, não é surpresa que progressistas, liberais e grupos de esquerda tenham começado a fetichizar uma espécie de desespero abjeto. O pensamento positivo saiu de moda nesses grupos, soando muito como desistência.

Em um brilhante ensaio na Open Democracy, a ativista Chloe King escreve:

Mudar sua atitude não irá mudar ou ajudar a desmontar a injustiça estrutural e um modelo econômico falido e insustentável que serve apenas a uma elite, explorando o resto de nós, particularmente aqueles que vivem na pobreza. No que me importa, o pensamento positivo irá arruinar sua vida. “Apenas pense positivo” é o precursor do “vai melhorar” e a dura realidade é que só irá piorar para os mais vulneráveis.

Há verdade aqui. Mas também é verdade, no entanto, que os jovens que conheço são, no geral, os piores em tomar cuidados básicos para si mesmos como indíviduos — jovens cujo problema não é que eles não tomam agua de aspargo suficiente, mas não beber o suficiente de nada que não seja vinho vagabundo — são aqueles que passaram pelos protestos do Occupy de 2010 a 2012 e experimentaram, brevemente, o que significava viver uma vida diferente. O que significava ser parte de uma comunidade com objetivos que não excluíam ajuda mútua e apoio. O que significou essa experiência de um alívio momentâneo e abrupto da luta individual e a construção coletiva de uma sociedade horizontal. O trabalho solitário de tomar cuidado de si enquanto aguarda uma mudança no mundo é um substituto inadequado. Quando você está exausto de tanto colocar seu corpo na linha de frente para combater o estado, é especialmente desgastante quando te dizem para sorrir e comer mais comida integral.

Quando a modernidade nos ensina a nos desprezar e então nos vende soluções rápidas para nosso desespero, podemos nos perdoar por estourar o limite da conta. Millenials ansiosos agora tem uma escolha entre o narcisismo desesperado e a depressão esmagadora. Qual é melhor? A questão não é retórica. Por um lado, gurus da felicidade no instagram me fazem querer me afogar em um copo de suco detox. Por outro lado, estou cansada de ver as pessoas mais brilhantes que eu conheço, os militantes, artistas e pensadores radicais cujos trabalhos podem realmente mudar o mundo, tratarem a si mesmos e aos outros de formas horrivelmente agressivas com a desculpa, implícita ou explícita, que qualquer outra abordagem é contrarrevolucionária.

Parte da crítica de esquerda da autoajuda como uma conspiração neoliberal que tem tudo a ver com a desconsideração do trabalho que mulheres e LGBTs tem para sobreviver. “Eu tenho ouvido feminismo ser desconsiderado como uma forma de autoindulgência”, escreve a Professora Sara Ahmed of Goldsmiths, da Universidade de Londres. Eu também. Eu tenho ouvido homens na esquerda descartarem a política anti-sexista e anti-rascista como desesperadamente individualistas, enquanto também recusam fazer o trabalho básico do cuidado de si e dos outros que mantém a esperança viva e a saúde possível, porque este trabalho é trabalho de mulher, indigno em comparação com assistir sua vida desmoronar enquanto espera a revolução ou que alguma mulher junte os cacos, o que vier primeiro.

A esquerda tem um talento especial para chafurdar em teorias contraprodutivas. “O neoliberalismo é amplo demais quando qualquer forma de autoajuda é sinal de neoliberalismo”, escreve Ahmed. “Quando trabalho feminista, LGBT, e antirracista que envolve compartilhar sentimentos e mágoas, reconhecendo que o poder age até nos ossos, é chamado de neoliberal, temos que ouvir o que não está sendo ouvido… Um mundo contra você pode ser sentido como seu corpo se voltando contra você. Você pode se desgastar e acabar se esgotando pelo que você é obrigado a engolir.”

É nesse ponto que devo confessar que tenho feito Yoga nos ultimos dois anos e isso mudou minha vida de um jeito que eu quase sinto remorso. Eu tenho me treinado, por meio de prática dedicada sobre e fora do tapete para achar força interna suficiente pra não rir da cara da professora quando ela encerra a aula com “deixe a luz em mim honrar a luz em você”. A professora é uma pessoa maravilhosa que sorri o tempo todo como um professor bêbado do jardim de infância e poderia me matar só com seu abdome, portanto eu me contenho de dizer pra ela que a luz em mim por vezes é um prédio do governo em chamas.

O “cachorro de cara pro chão” não é uma posição radical. Mesmo assim, essa asana particular é uma das pequenas concessões que eu faço para o auto-cuidado enquanto espero o fim do patriarcado e a destruição do sistema monetário. Bebidas saudáveis com preços exorbitantes não são boas para libertar nada a não ser o dinheiro de sua carteira e o seu intestino, mas caminhadas no parque são de graça, então eu ocasionalmente vou assistir o nascer do sol e tentar absorver alguma vitamina D sem me preocupar com câncer de pele, calotas polares derretendo e milhões de pessoas debaixo d’água em Bangladesh. Eu não sobrevivo inteiramente a base de nuggets, cigarros e desprezo. As vezes preciso de um dia livre, porque se tornou visível que a revolução não estava vindo mais rápido por causa da minha tristeza constante. O capitalismo tardio é uma desculpa tão boa quanto qualquer outra para não sair da cama, mas se esconder sob as cobertas se preocupando com Donald Trump é uma forma muito ineficaz de se opor ao homem.

O problema com a auto-apreciação como a entendemos é que nossa visão de amor é, em si, definida de forma frequente e simplista como um sentimento extraordinário que reage a corações, flores, fantasia, consumo ritual e paixão sem afeto. A modernidade nos manteria em devaneios como adolescentes, tirando selfies e dizendo a nós mesmos o quanto somos especiais e perfeitos. Este não o verdadeiro amor próprio, da mesma forma que um homem mexendo com uma mulher na rua não a ama como diz de forma chula.

O trabalho de auto-cuidado mais duro e chato é o do dia-a-dia, o esforço impossível de levantar e seguir com sua vida em um mundo que prefere que você fique acovardado e subserviente. Um mundo no qual a lógica abusiva quer que você não veja os problemas estruturais, apenas os seus problemas pessoais e os das pessoas mais marginalizadas e vulneráveis que você. Amor de verdade, do tipo que acalma e dura, não é um sentimento, é um verbo, uma ação. Se trata do que você fará por outra pessoa no curso dos dias, semanas e anos, o trabalho colocado no cuidado. Esse é o tipo de amor que temos sido terrivelmente ruins em dar a nós mesmos, especialmente na esquerda.

A esquerda, de forma mais ampla, poderia aprender muito com a comunidade LGBT, que vem há muito tempo tomando a atitude de tomar cuidado de si e de seus amigos em um mundo de preconceito não é uma parte opcional da luta — de muitas formas, é a própria luta. A escritora e ícone trans Kate Bornstein tem como regra número um “Faça o que quer que seja necessário para fazer sua vida melhor. Só não seja mal.” É bem provável que uma das razões das comunidades LGBT continuarem a obter ganhos na cultura, apesar da violenta reação contra, seja o reconhecimento de que o auto-cuidado, a ajuda mútua e o apoio gentil podem ser ferramentas de resistência também. Depois do massacre de Orlando, pessoas LGBT começaram a postar selfies sob a hashtag #queerselflove. No meio do terror, com o luto público e o medo, pessoas LGBT de todas as idades e origens ao redor do mundo se engajaram em uma celebração leve de si mesmos, de cada um.

A ideologia do bem-estar pode ser exploradora, e a tendência da esquerda de fetichizar o desespero é compreensível, mas não aceitável — e se desperdiçarmos nossas energias nos odiando, nada irá mudar. Se a esperança é muito dificil de administrar, ao menos podemos tomar cuidado de nós mesmos. Nos meus dias mais cinzas, eu me lembro da poeta e ativista Audre Lorde, que sabia uma coisa ou duas sobre sobrevivência em um mundo desumano, escreveu que o auto-cuidado “não é autoindulgência — é autopreservação, e como tal um ato político.”