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COVID-19, sua comunidade, e você — uma perspectiva de ciência de dados

peixoto
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Mar 10 · 18 min read

Postagem originalmente escrita por Jeremy Howard e Rachel Thomas. Essa é uma tradução livre feita por mim, sob autorização dos autores. Post original pode ser acessado clicando aqui.


Nós somos cientistas de dados — isto é, nosso trabalho é entender como analisar e interpretar dados. Quando analisamos dados sobre o covid-19, ficamos muito preocupados. As porções mais vulneráveis da sociedade, os idosos e os pobres, são quem mais estão em risco, mas controlar a propagação e o impacto da doença requer que todos nós façamos uma mudança de comportamento. Lave suas mãos bem e com frequência, evite grupos e multidões, cancele eventos, e não toque no seu rosto. Nesse artigo, explicaremos porque estamos preocupados, e porque você também deveria estar. Para um excelente resumo das informações-chave que você precisa saber, leia "Corona in Brief" por Ethan Alley (presidente de uma organização sem fins lucrativos que desenvolve tecnologias para reduzir o risco de pandemias).

Precisamos de um sistema de saúde funcional

Apenas um pouco mais de 2 anos atrás, uma de nós (Rachel) contraiu uma infecção cerebral que mata acerca de 1/4 das pessoas que a contraem e deixa 1/3 com deficiências cognitivas permanentes. Muitos outros terminam com danos permanentes à visão e audição. Rachel estava delirando até ao momento em que ela rastejou através do estacionamento do hospital. Ela teve sorte o suficiente para receber cuidado em prontidão, diagnóstico e tratamento. Até pouco antes desse evento Rachel estava com a saúde excelente. Receber acesso imediato à sala de emergência quase certamente salvou sua vida.

Agora, vamos falar sobre o covid-19, e o que pode acontecer com pessoas na situação de Rachel dentre as próximas semanas e meses. O número de pessoas diagnosticadas com covid-19 dobra a cada 3 a 6 dias. Com uma taxa de dobrar a cada 3 dias, isso snigifica que o número de pessoas que são encontradas com a infeção pode aumentar em 100 vezes em três semanas (na verdade não é tão simples assim, mas não vamos nos distrair com detalhes técnicos). Um a cada 10 pacientes precisa de hospitalização por várias semanas, e a maior parte desses casos precisa de oxigênio.

Apesar de ser muito cedo para esse vírus, existem regiões onde hospitais estão em capacidade máxima, e pessoas não mais conseguem receber tratamento que elas necessitam (não apenas para covid-19, mas para qualquer tipo de emergência, como a que Rachel necessitou). Por exemplo, na Itália, onde apenas uma semana atrás oficiais estavam dizendo que estava tudo bem, agora o país inteiro está trancado em quarentena, e cabanas como essa abaixo estão sendo montadas para ajudar a suprir a demanda por pacientes.

Uma tenda medicinal usada na Italia.

Dr. Antonio Pesenti, o líder para a unidade de resposta regional em uma área que foi fortemente atingida pelo vírus na Itália, disse, "agora estamos sendo forçados a criar UTIs em corredores, teatros, salas de recuperação … um dos melhores sistemas de saúde do mundo, em Lombardia, está à beira do colapso".

Não é que nem a gripe

A gripe tem uma taxa de mortalidade em torno de 0,1% das infecções. Marc Lipsitch, o diretor do Center for Communicable Disease Dynamics em Harvard, estima que a do covid-19 seja entre 1 e 2%. A última modelagem epidemiológica encontrou uma taxa de 1,6% na China em Fevereiro, dezesseis (16) vezes maior que gripe [1] (esse número ainda pode ser um pouco conservador, pois as taxas sobem quando o sistema médico não consegue suportar). As melhores estimativas supõem que o covid-19 irá matar 10 vezes mais pessoas esse ano que a gripe (um modelo feito por Elena Grewal, ex-diretora de ciência de dados no Airbnb, mostra que pode ser 100 vezes pior, no pior caso). Isso é antes de levar em consideração o enorme impacto no sistema médico, como descrito acima. É compreensível que algumas pessoas estão tentando convencer a si mesmas que isso não é nada novo, uma doença assim como a gripe, porque é muito desconfortável aceitar a realidade que essa doença não é nem um pouco familiar.

Tentar entender intuitivamente um crescimento exponencial no número de pessoas infectadas não é algo que nosso cerébro foi feito para facilmente compreender. Então precisamos analisar isso enquanto cientistas, e não usando nossa intuição.

Onde esse gráfico estará em 2 semanas? 2 meses?

Para cada pessoa que contrai a gripe, em média, elas infectam mais 1,3 pessoas. Essa é a chamada "R0" para a gripe. Se R0 for inferior a 1, o vírus para de se espalhar e morre. Se é superior a 1, ele se propaga. O r0 atualmente para covid-19 está entre 2–3 fora da China. A diferença pode parecer pequena, mas em apenas 20 "gerações" de pessoas infectando umas às outras, uma R0 igual a 1,3 resultaria em 146 infecções, enquanto uma R0 de 2,5 resultaria em 36 milhões de infecções! (Claro, essa é uma análise que ignora vários impactos no mundo real, mas é uma ilustração razoável para a diferença relativa entre covid-19 e a gripe, desconsiderando outros fatores).

Note que R0 não é uma propriedade fundamental de uma doença. Depende em grande parte da resposta, e pode mudar conforme o tempo [2]. Notoriamente, na China o R0 para covid-19 abaixou bastante e está se aproximando a 1,0! Como? Implementando políticas em larga escala que são difíceis de imaginar em um país como os Estados Unidos — por exemplo, trancando várias cidades gigantes, e desenvolvendo um sistema de teste que permite testar mais de um milhão de pessoas por semana.

Uma coisa que aparece bastante nas mídias sociais (incluindo vindo de contas com um alto número de seguidores, como Elon Musk) é a falta de compreensão na diferença entre crescimento logístico e exponencial. Crescimento "logístico" refere-se a uma curva em formato de S que aparece nas epidemias. Obviamente o crescimento exponencial não pode crescer para sempre, caso contrário haveriam mais pessoas infectadas do que o número de pessoas no mundo! Portanto, em algum momento as infecções devem parar de crescer, resultando numa curva em formato de S ao longo do tempo. O problema é que o decaimento acontece por um motivo — não é mágica. As principais razões são:

  • Resposta em massa e efetiva da comunidade, ou;
  • Uma porcentagem tão grande de pessoas estão infectadas que existem poucas pessoas para a o virús ser transmitido para.

Portanto, não tem nenhum sentido lógico para confiar no crescimento logístico como uma forma de "controlar" uma pandemia.

Outro fator que torna difícil de intuitivamente compreender o covid-19 na sua área é que existe um atraso significante entre a infecção e a hospitalização, — em torno de 11 dias. Pode não parecer um longo tempo, mas quando você compara com o número de pessoas que ficaram infectadas durante esse tempo, significa que os leitos hospitalares estão lotados; a infecção comunitária já está num nível que terá ao mínimo 5 a 10 vezes mais pessoas para lidar com.

Note que existem alguns sinais preliminares que o impacto na sua área local pode ser mais ou menos dependente do clima. O artigo Temperature and latitude analysis to predict potential spread and seasonality for COVID-19 (N.T: o título do artigo traduz aproximadamente para "análise de temperatura e latitude para predizer propagação e sazonalidade do COVID-19") atesta que o vírus, até então, tem se espalhado mais em climas moderados. No entanto, esse é justamente o tipo de clima onde vive maior parte da população dos maiores centros europeus.

"Não entre em pânico. Mantenha a calma." não ajuda

Uma resposta muito comum nas redes sociais para pessoas que tem apontado motivos para se preocupar tem sido "não entre em pânico" ou "mantenha a calma". Essa resposta é, no mínimo, não prestativa. Ninguém está sugerindo que pânico é uma resposta apropriada. Por algum motivo, porém, "fique calmo" tem sido uma reação muito popular (mas não entre epidemiologistas, cujo trabalho é rastrear esses eventos). Talvez "mantenha a calma" ajude algumas pessoas a se sentirem melhor sobre sua própria inatividade, ou talvez façam elas de alguma forma se sentirem superiores àquelas que elas imaginam que estão "correndo por aí como uma galinha sem cabeça".

Mas "fique calmo" pode facilmente levar à falha para se preparar e responder. Na China, dezenas de milhões precisaram ser trancados e dois novos hospitais foram construídos no momento que as estatísticas chegaram onde os EUA chegaram nesse momento. A Itália esperou demais, e apenas hoje (08 de Março) foram reportados 1492 novos casos e 133 novas mortes, apesar de terem sido postas em quarentena 16 milhões de pessoas. Baseado nas melhores informações que temos a esse estágio, apenas 2–3 semanas atrás a Itália estava na mesma posição que os EUA e o Reino Unido estão agora (em estatísticas de infecção).

Note que praticamente tudo sobre o covid-19 está aberto nesse ponto. Nós não realmente sabemos sobre a velocidade de propagação ou sobre a mortalidade, não sabemos quanto tempo sobrevive em superfíceis, não sabemos se sobrevive e se propaga em climas quentes. Tudo está baseado em "melhor chute" com a melhor informação possível que as pessoas conseguem coletar. E lembrem-se, a maior parte dessa informação está na China, em chinês. Nesse momento, a melhore forma de entender a experiência chinesa até agora é lendo o excelente Report of the WHO-China Joint Mission on Coronavirus Disease 2019 (N.T: Relatório da missão conjunta OMS-China sobre o Coronavírus 2019) baseada numa missão unificada de 25 especialistas nacionais e internacionais da China, Alemanha, Japão, Coréia, Nigéria, Rússia, Cingapura e Organização Mundial de Saúde (OMS).

Quando existe incerteza, que talvez isso não chegue a ser uma pandemia global, e que talvez tudo apenas passe sem que o sistema hospital entre em colapso, isso não significa que a resposta adequada é fazer nada. Isso seria extremamente especulativo e não é uma resposta ótima em nenhum cenário de ameaça. Também parece extremamente improvável que países como China e Itália "desligariam" grandes partes da sua economia sem um bom motivo. Não é consistente com os impactos de fato que estamos observando nas áreas infectadas, onde o sistema médico não consegue naturalmente suportar (por exemplo, na Itália estão sendo usadas 462 tendas para "pré-triagem" e ainda é necessário mover pacientes de UTIs de áreas infectadas).

Em vez disso, a resposta ponderada e razoável é seguir as etapas recomendadas por especialistas para evitar a propagação de infecções:

  • Evite grupos e multidões
  • Cancele eventos
  • Se possível, trabalhe de casa
  • Lave as mãos ao chegar e sair do trabalho, e com frequência fora de casa
  • Evite tocar no seu rosto, especialmente fora de casa
  • Desinfecte superfícies e pacotes (é possível que o vírus se mantenha vivo por 9 dias em superfícies, mas ainda não sabemos com certeza)

Não é sobre você

Se você tem menos de 50 anos, não tem outros fatores de risco (sistema imunológico comprometido, doença cardiovascular, histórico de fumo, ou outras doenças crônicas), então você pode ter algum conforto que é improvável que o covid-19 mate você. Mas sua resposta ainda importa muito. Você tem a mesma chance de ser infectado, e se você for, de infectar outros. Em média, cada pessoa infectada infecta mais dois outros, e você pode transmitir a doença mesmo antes de demonstrar sintomas. Se você tem parentes que você se importa, ou avós, e planeja passar algum tempo com eles, e depois descobre que você foi o responsável por infectá-los com covid-19, é um grande fardo a viver carregando.

Mesmo se você não estiver em contato com pessoas com mais de 50 anos, é provável que você tenha mais colegas de trabalho e conhecidos de doenças crônicas do que você imagina. Pesquisas mostram que poucas pessoas divulgam suas condições de saúde no local de trabalho, por medo de discriminação. Nós dois (NT: autores originais desse artigo) estamos em categorias de alto risco, mas muitas pessoas com quem interagimos regularmente podem não saber disso.

E, claro, não se trata apenas das pessoas imediatamente ao seu redor. Esta é uma questão ética altamente significativa. Cada pessoa que faz o possível para contribuir para controlar a propagação do vírus está ajudando toda a comunidade a diminuir a taxa de infecção. Como escreveu Zeynep Tufekci na Scientific American: “Preparar-se para a disseminação global quase inevitável desse vírus … é uma das coisas altruístas mais pró-sociais que você pode fazer”. Ela continua:

Devemos nos preparar, não porque possamos nos sentir pessoalmente em risco, mas para ajudar a diminuir o risco para todos. Devemos nos preparar não porque estamos enfrentando um cenário do fim do mundo fora de nosso controle, mas porque podemos alterar todos os aspectos desse risco que enfrentamos como sociedade. É isso mesmo, você deve se preparar porque seus vizinhos precisam que você se prepare — especialmente seus vizinhos idosos, seus vizinhos que trabalham em hospitais, seus vizinhos com doenças crônicas e seus vizinhos que podem não ter os meios ou o tempo para se preparar devido à falta de recursos ou tempo.

Isso nos impactou pessoalmente. O maior e mais importante curso que já criamos no fast.ai, que representa o culminar de anos de trabalho para nós, estava programado para começar na Universidade de São Francisco em uma semana. Na última quarta-feira (4 de março), tomamos a decisão de colocar tudo online. Fomos um dos primeiros grandes cursos a mudar para on-line. Por que fazemos isso? Porque percebemos no início da semana passada que, se realizássemos este curso, estávamos implicitamente incentivando centenas de pessoas a se reunir em um espaço fechado, várias vezes durante um período de muitas semanas. Reunir grupos em espaços fechados é a pior coisa que pode ser feita. Nós nos sentimos eticamente obrigados a garantir que, pelo menos nesse caso, isso não acontecesse. Foi uma decisão de partir o coração. Nosso tempo gasto trabalhando diretamente com nossos alunos tem sido um dos grandes prazeres e períodos mais produtivos a cada ano. E tínhamos estudantes planejando viajar de todo o mundo, que realmente não queríamos decepcionar [3].

Mas sabíamos que era a coisa certa a fazer, porque, do contrário, provavelmente aumentaríamos a propagação da doença em nossa comunidade [4].

Precisamos "achatar a curva"

Isso é extremamente importante, porque se podemos diminuir a taxa de infecção em uma comunidade, damos aos hospitais dessa comunidade tempo para lidar com os pacientes infectados e com a carga regular de pacientes com a qual eles precisam lidar. Isso é descrito como “achatando a curva” e é claramente mostrado neste gráfico ilustrativo:

É extremamente importante nos mantermos abaixo da linha pontilhada

Farzad Mostashari, ex-coordenador nacional de TI de saúde, explicou: “Novos casos estão sendo identificados todos os dias que não têm um histórico de viagens ou conexão com um caso conhecido, e sabemos que esses são apenas a ponta do iceberg por causa do problema. atrasos nos testes. Isso significa que, nas próximas duas semanas, o número de casos diagnosticados explodirá … Tentar fazer contenção quando houver uma expansão exponencial da comunidade é como focar em apagar faíscas quando a casa estiver pegando fogo. Quando isso acontece, precisamos mudar estratégias para a mitigação — adotando medidas de proteção para diminuir a propagação e reduzir o pico de impacto nos cuidados de saúde. ” Se conseguirmos manter a propagação da doença baixa o suficiente para que nossos hospitais possam lidar com a carga, as pessoas poderão acessar o tratamento. Mas se os casos forem rápidos demais, os que precisam de hospitalização não o receberão.

Aqui está o que a conta parece ser, de acordo com Liz Specht:

Os EUA têm cerca de 2,8 leitos hospitalares por 1000 pessoas. Com uma população de 330 milhões, são ~ 1 milhão de camas. A qualquer momento, 65% dessas camas já estão ocupadas. Isso deixa cerca de 330 mil leitos disponíveis em todo o país (talvez um pouco menos nessa época do ano com a temporada regular de gripe, etc.). Vamos confiar nos números da Itália e assumir que cerca de 10% dos casos são graves o suficiente para exigir hospitalização. (Lembre-se de que, para muitos pacientes, a hospitalização dura semanas — em outras palavras, a rotatividade será muito lenta, pois os leitos se enchem de pacientes com COVID19). Segundo essa estimativa, até 8 de maio, todos os leitos hospitalares abertos nos EUA serão preenchidos. (Isso não diz nada, é claro, sobre se esses leitos são adequados para o isolamento de pacientes com um vírus altamente infeccioso.) Se estivermos errados por um fator de dois em relação à fração de casos graves, isso só altera a linha do tempo da saturação do leito por 6 dias em qualquer direção. Se 20% dos casos requerem hospitalização, ficamos sem camas até ~ 2 de maio. Se apenas 5% dos casos exigem, podemos fazê-lo até ~ 14 de maio. 2,5% nos leva até 20 de maio. Obviamente, isso pressupõe que não haja aumento na demanda por camas de outras causas (não COVID19), o que parece ser uma suposição dúbia. À medida que o sistema de saúde se torna cada vez mais sobrecarregado, a escassez de Rx, etc., pessoas com condições crônicas que normalmente são bem gerenciadas podem se ver entrando em estados graves de sofrimento médico que requerem cuidados intensivos e hospitalização.

A reação de uma comunidade faz toda a diferença

Como discutimos, essa matemática não é uma certeza: a China já mostrou que é possível reduzir a propagação tomando medidas extremas. Outro grande exemplo de uma resposta bem-sucedida é o Vietnã, onde, entre outras coisas, uma campanha publicitária em todo o país (incluindo uma música "chiclete"!) mobilizou rapidamente a resposta da comunidade e garantiu que as pessoas ajustassem seu comportamento de forma adequada.

Esta não é apenas uma situação hipotética — foi claramente exibida na pandemia de gripe de 1918. Nos Estados Unidos, duas cidades exibiram reações muito diferentes à pandemia: a Filadélfia prosseguiu com um desfile gigante de 200 mil pessoas para ajudar a arrecadar dinheiro para a guerra. Mas St. Louis implementou processos cuidadosamente projetados para minimizar os contatos sociais, a fim de diminuir a propagação do vírus, além de cancelar todos os grandes eventos. Aqui está como era o número de mortes em cada cidade, como mostra os Proceedings of the National Academy of Sciences (NT: Anais da Academia Nacional de Ciências):

Impacto de respostas diferentes à pandemia de gripe de 1918

A situação na Filadélfia tornou-se terrível, chegando a um ponto em que não havia caixões ou necrotérios suficientes para lidar com o grande número de mortos pela gripe.

Richard Besser, que era diretor interino dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (Centers for Disease Control and Prevention) durante a pandemia de H1N1 em 2009, afirma que nos EUA “o risco de exposição e a capacidade de se proteger e à família dependem de renda, acesso a cuidados de saúde e status de imigração, entre outros fatores. ” Ele ressalta que:

Idosos e portadores de deficiências correm um risco particular quando suas vidas diárias e sistemas de apoio são interrompidos. Aqueles que não têm acesso fácil aos cuidados de saúde, incluindo comunidades rurais e indígenas, podem enfrentar distâncias assustadoras em momentos de necessidade. As pessoas que moram em locais próximos — seja em moradias públicas, casas de repouso, prisões, abrigos ou até mesmo sem-teto nas ruas — podem sofrer "em ondas", como já vimos no estado de Washington. E as vulnerabilidades da economia de baixo salário, com trabalhadores não assalariados e horários de trabalho precários, serão expostas a todos durante a crise. Pergunte aos 60% da força de trabalho dos EUA que é paga por hora como é fácil tirar uma folga em um momento de necessidade.

O Centro de Estatísticas Trabalhistas (Bureau of Labor Statistics) dos EUA mostra que menos de um terço das pessoas na faixa de renda mais baixa têm acesso a licença médica paga:

A maior parte dos estado-unidenses não possui licença médica paga pelo empregador, então eles precisam ir ao trabalho.

Não temos boas informações nos EUA

Um dos grandes problemas nos EUA é que pouquíssimos teste estão sendo realizados e os resultados dos testes não estão sendo compartilhados adequadamente, o que significa que não sabemos o que realmente está acontecendo. Scott Gottlieb, ex-comissário da FDA (N.T: Food and Drug Administraion, equivalente à ANVISA norte-americana) explicou que em Seattle houve melhores testes e estamos observando infecções lá: “A razão pela qual soubemos desde o início do surto de covid-19 em Seattle foi por causa do trabalho de vigilância feita por cientistas independentes. Essa vigilância nunca começou totalmente em outras cidades. Portanto, outros pontos de acesso dos EUA ainda não foram totalmente detectados. ” De acordo com o The Atlantic, o vice-presidente Mike Pence prometeu que “cerca de 1,5 milhão de testes” estariam disponíveis nesta semana, mas menos de 2.000 pessoas foram testadas nos Estados Unidos neste momento. Com base no trabalho do COVID Tracking Project, Robinson Meyer e Alexis Madrigal, do The Atlantic, disseram:

Os números que coletamos sugerem que a resposta americana ao covid-19 e à doença que ele causa foi chocantemente lenta, especialmente em comparação com a de outros países desenvolvidos. O CDC confirmou há oito dias que o vírus estava em transmissão na comunidade nos Estados Unidos — que estava infectando americanos que não haviam viajado para o exterior nem estavam em contato com outros que o tinham. Na Coréia do Sul, mais de 66.650 pessoas foram testadas uma semana após seu primeiro caso de transmissão comunitária, e rapidamente se tornou capaz de testar 10.000 pessoas por dia.

Parte do problema é que isso se tornou uma questão política. Em particular, o presidente Donald Trump deixou claro que deseja ver “os números” (como o número de pessoas infectadas nos EUA) mantidos baixos. Este é um exemplo de onde a otimização de métricas interfere na obtenção de bons resultados na prática. (Para saber mais sobre esse assunto, consulte o artigo sobre ética da ciência de dados "O problema com métricas é um problema fundamental para a IA" (The problem with metrics is a fundamental problem in AI). O chefe de IA do Google, Jeff Dean, twittou sua preocupação com os problemas da desinformação politizada:

Quando trabalhei na OMS, fiz parte do Programa Global sobre Aids (agora UNAIDS), criado para ajudar o mundo a enfrentar a pandemia de HIV / Aids. Os funcionários de lá eram médicos e cientistas dedicados intensamente focados em ajudar a lidar com essa crise. Em tempos de crise, informações claras e precisas são vitais para ajudar todos a tomar decisões apropriadas e informadas sobre como responder (país, estado e governos locais, empresas, ONGs, escolas, famílias e indivíduos). Com as informações e políticas corretas para ouvir os melhores especialistas médicos e científicos, todos enfrentaremos desafios como os apresentados pelo HIV / AIDS ou pelo COVID-19. Com a desinformação motivada por interesses políticos, há um risco real de fazer as coisas acontecerem, muito pior por não agir de forma rápida e decisiva diante de uma pandemia crescente e por incentivar ativamente comportamentos que realmente espalham a doença mais rapidamente. Toda essa situação é incrivelmente dolorosa de se ver.

Não parece haver vontade política de mudar as coisas, quando se trata de transparência. O secretário de Saúde e Serviços Humanos, Alex Azar, de acordo com a Wired, “começou a falar sobre os testes que os profissionais de saúde usam para determinar se alguém está infectado com o novo coronavírus. A falta desses kits significou uma perigosa falta de informações epidemiológicas sobre a disseminação e gravidade da doença nos EUA, exacerbada pela opacidade por parte do governo. Azar tentou dizer que mais testes estavam a caminho, dependendo do controle de qualidade. ” Mas eles continuaram:

Então Trump cortou Azar. “Mas acho que, principalmente, qualquer pessoa, agora e ontem, que precise de um teste, recebe um teste. Eles estão lá, eles têm os testes, e os testes são lindos. Qualquer pessoa que precise de um teste é submetida a um teste ”, disse Trump. Isso é falso. O vice-presidente Pence disse a repórteres na quinta-feira que os EUA não tinham kits de teste suficientes para atender à demanda.

Outros países estão reagindo muito mais rápida e significativamente do que os EUA. Muitos países do Sudeste Asiático estão apresentando ótimos resultados, incluindo Taiwan, onde o R0 está abaixo de 0,3 agora; e Cingapura, que está sendo proposta como "o modelo ideal" de resposta ao COVID-19. Não é apenas na Ásia; na França, por exemplo, qualquer reunião de ao menos 1000 pessoas está proibida e as escolas estão fechadas em três distritos.

Conclusão

Covid-19 é uma questão social significativa, e podemos e devemos trabalhar para diminuir a propagação da doença. Isso significa:

  • Evitar grandes grupos e multidões
  • Cancelar eventos
  • Trabalhar de casa, se possível
  • Lavar as mãos ao ir e vir de casa e frequentemente quando estiver fora
  • Evitar tocar em seu rosto, principalmente quando estiver fora de casa

Notas de rodapé

[1] Epidemiologistas são pessoas que estudam a propagação da doença. Acontece que estimar coisas como mortalidade e R0 são realmente bastante desafiadoras, então existe todo um campo especializado em fazer isso bem. Desconfie de pessoas que usam índices e estatísticas simples para lhe dizer como o covid-19 está se comportando. Em vez disso, observe a modelagem feita por epidemiologistas.

[2] Bem, não é tecnicamente verdade. “R0”, estritamente falando, refere-se à taxa de infecção na ausência de resposta. Mas como essa não é realmente a coisa com a qual nos preocupamos, vamos nos deixar um pouco desleixados com nossas definições aqui.

[3] Desde essa decisão, trabalhamos duro para encontrar uma maneira de executar um curso virtual que, esperamos, seja ainda melhor do que a versão em pessoa teria sido. Conseguimos abri-lo para qualquer pessoa no mundo e estaremos executando grupos de estudos e projetos virtuais todos os dias.

[4] Também fizemos muitas outras mudanças menores em nosso estilo de vida, incluindo exercícios em casa em vez de ir à academia, mudar todas as nossas reuniões para videoconferência e pular eventos noturnos pelos quais esperávamos.

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