"Você quer brincar?"

“Mas não gosto de esconde-esconde.”

“Não tem problema, a gente brinca de outra coisa.”

Esse foi um diálogo real, que aconteceu há 15 anos atrás, em um final de tarde num parquinho de uma praça pública de Belo Horizonte, quando 5 crianças viram que uma outra, recém-chegada, estava sem companhia.

Não sei onde, nem nomes. Também não presenciei a cena, nem ouvi falar. Mas sei que aconteceu. Ao menos na “minha época” (se é que 21 anos já me permitem me referir ao passado, ainda tão vivo, dessa forma típica de quem quer mostrar experiência), isso seria completamente normal. Não importava o gênero das crianças, nem a idade, nem a profissão de seus pais. Também não importava se torciam para o América ou não gostavam de Pokémon — até isso, acreditem, seria tolerado. Tinham um objetivo em comum — se divertir — e isso bastava. Ninguém desconfiava de qualquer interesse escondido. Ninguém entrava na brincadeira para conseguir algo, impressionar alguém ou tirar foto, postar na sua rede social favorita e ganhar mais likes que seu amiguinho. Também não era relevante que, muito provavelmente, nenhuma das crianças se veria novamente — e, se o acaso as preparasse um segundo encontro, é bem possível que o primeiro nem seria lembrado.

Fico me perguntando quando foi que alguns desses aspectos começaram a ser perdidos. É claro que não foi em um momento pontual. Porém, ao olhar para trás, muitas vezes temos a impressão de que o tempo não é contínuo — dá saltos, às vezes largos, inclusive. Como ouvi de uma velha amiga da família ontem, “parece que dormi com a sua idade e acordei com quarenta e tantos”. E Júnia, conto-lhe que nesse seu sono as coisas mudaram por aqui. Conversar com alguém sem um interesse claro parece muito difícil — porque tal ausência, por pressuposto, não existe mais. Ou, se alguém da mesa ao lado no restaurante (universitário, que seja) se aproxima e pergunta se pode se sentar com você, você não desconfia? No parquinho era normal: dizer “oi” não significava “estou precisando de dinheiro”, nem escondia um interesse desesperado em sexo — era simplesmente uma interjeição que indicava saudação.

Há parquinhos para gente grande. Ao meu ver, os jogos online construíram um ambiente bastante similar. O ser humano é um animal social por natureza — ainda que haja quem se chame de “lobo solitário”. O contexto é o mesmo: pessoas unindo-se por quererem se divertir, e pelo fato de que, em geral, se divertir com outras pessoas é mais… hmm, divertido? O elemento principal que os difere dos parquinhos das praças talvez seja o contato físico, ou a falta dele. Este se tornou, hoje, algo mais reservado. Ninguém queria ser o pegador (veja como as coisas mudaram — me refiro ao jogador central na brincadeira de “pega-pega”) apenas para ter o prazer de tocar pessoas. Não era algo pensado. Não apenas tocar, mas também estar no mesmo ambiente — na mesma mesa (como era estar no mesmo brinquedo) — se tornou algo, necessariamente, dotado de algum motivo. Situação que já presenciei várias vezes: em um restaurante, se almoço sozinho, procuro uma mesa vazia; se a única que vejo está do outro lado do salão, vou até ela, me sento, olho ao redor e percebo que todos fizeram o mesmo: mesas para quatro servindo a um.

Certa vez, em San Francisco, em um dia em que, deliberadamente, escolhi passar o dia sozinho, resolvi fazer um experimento: almoçar com uma pessoa desconhecida qualquer que estivesse por lá. Pensei nisso depois de já haver pegado meu prato, me sentado e percebido que era bobagem completa almoçar sozinho enquanto eu poderia estar aprendendo com qualquer uma das pessoas ao meu redor — cada uma vinda de um país diferente, provavelmente, definida por um conjunto único de experiências e histórias. Notei que ao meu lado havia uma garota também almoçando sozinha, enquanto lia um romance barato. A construção estética social, que certamente absorvi inconscientemente (mas contra a qual luto quando penso), diria que era uma garota bonita — o que piorava as coisas, já que, teoricamente, isso aumentava as chances, do ponto de vista dela, de eu querer me aproximar por interesse em sexo. Porém, ah, acreditando que ainda havia ali alguma reminiscência das épocas do parquinho, resolvi não imaginar o que ela estaria imaginando que eu poderia estar imaginando sobre o alcance do convite e perguntei se eu poderia me sentar com ela.

“Ah, claro. Desculpe pela bagunça”, ela respondeu prontamente, enquanto tirava a bolsa da pequena mesa para dois. Era mexicana, de 22 anos, estudante na Academy of Arts University. Como eu, ela também compartilhava da opinião de que os latinoamericanos, em contraste com outras nacionalidades, tendem a ser mais abertos ao contato, em média. Levou um tempo até eu perceber que abraçar, apertar as mãos e bater no ombro não eram gestos tão corriqueiros por ali — “oi” e “tchau” à distância eram a norma. Aprendi com ela naquele almoço. Aprendi um pouco sobre como era a vida no México, e que lá não se comem burritos — ainda que, na California, todos dizem que adoram comida mexicana (o que é refletido nos inúmeros restaurantes dedicados a ela), que supostamente conhecem através dos burritos. Era algo que eu não me atreveria a imaginar. Foi tão chocante quanto seria ouvir que no Japão os animes não são populares. Aprendi mais algumas coisinhas, e pude ensinar um pouco, também. Uma pessoa no mundo nesse dia descobriu que, no Brasil, nossa língua materna não é o Portunhol (“ah, mas lá o Português é diferente do de Portugal, não é? Não é um tal de Portunhol?” — Marianna, 2015). Tanto quanto inesperado. Mas bem, em um dia de trabalho voluntário em uma escola de reforço para alunos do ensino primário, eu encontrara um garoto de 10 anos que nunca havia ouvido falar em Brasil até que eu me apresentasse.

Eu havia me esquecido de que, no meu caso, chamar alguém para almoçar não é algo que deve ser feito sem que antes seja sabido que a pessoa convidada tem tempo livre suficiente. Quando ela acabou de comer e eu estava chegando aos 35% do processo, o erro ficou evidente. Disse-lhe que não precisava esperar, porque eu deveria ficar ali por mais alguns minutinhos (uns cem, talvez). Ela riu, respondendo que eu não precisava me preocupar, porque não estava com muita pressa. Qual foi a última vez em que você almoçou sem nem um pingo de pressa, mesmo?

Fiquei surpreso com o resultado. Eventualmente, depois de vários trilhões de ciclos do processador do celular no meu bolso, acabei de comer. Ao estilo americano, me despedi com um “tchau” à distância. Ao estilo latino, ela veio e me deu um abraço despretensioso, agradeceu pelo momento e se foi. Caminhei para lado oposto, satisfeito. A descoberta do dia havia sido a de que ainda há crianças no mundo. Ainda há quem acredite no ser humano, ainda que seja hoje tão fácil encontrar motivos para o contrário.

Desejo, de verdade, que esse aspecto da criança que todos nós já fomos nunca se perca por completo. Tento cada vez mais desconfiar menos das pessoas e desfazer impressões racionalmente injustificáveis. Certa vez, fui assaltado por isso. Voltava da escola a pé quando, em meio a uma multidão de pessoas na Avenida Amazonas, desconfiei que uma me seguia. Se apresentava de forma que qualquer pessoa minimamente preconceituosa, como eu, a julgaria — pelas roupas, pelo jeito de andar, pelo olhar. Depois de dois quarteirões, só para confirmar, parei e olhei discretamente para trás. O moço havia entrado na fila de uma casa lotérica. Me senti muito envergonhado — como podia eu pensar dele daquela maneira? Segui minha caminhada, até que, em uma rua deserta, reconheci sua sombra ao lado da minha e, por increça que parível, soltei uma risada pela ironia das coisas e parei para esperá-lo. Fora as perdas materiais, não houve nada de mais.

Isso seria motivo suficiente para que muitos parassem de voltar a pé para casa. Como, para alguns, é motivo suficiente para nunca mais dar esmola e nem olhar para a cara de mendigo nenhum, nem debaixo de chuva, ter visto uma vez um deles comprando cigarro com o dinheiro recebido supostamente para o almoço: são todos falsos, certo? Não é preciso estudar matemática para saber que generalizar resultados não é tão fácil assim. Uma experiência qualquer não pode ser substrato para que eu julgue, com paz de consciência, todos os indivíduos da espécie humana. Se desejamos um mundo com menos preconceitos, é hora de começar a identificar as desculpas que usamos, inconscientemente, para justificá-los. Se queremos um mundo em que as pessoas sejam mais abertas, não dá para nos fecharmos em casa, esperando que as coisas lá fora se ajeitem, para que então possamos abrir as portas do coração e desfrutar da felicidade plena.

Nesses pequenos esforços em prol do que acreditamos, é natural que o vento nem sempre sopre no sentido favorável. Ser assaltado, ser julgado por intenções que você não tem ou xingado, mental ou verbalmente pelo que você não fez — tudo isso acontece. Porém, se você um dia foi criança, certamente ouviu sua mãe dizer para que você “desça daí, porque você vai cair”. Você não desceu, eu sei. E caiu? Pode até ser que sim, mas quem se importa? Quem nunca tirou aquela casca enorme do machucado no joelho, um símbolo da rebeldia infantil que reinava em seu coração? E deixou de valer a pena por isso? Certamente não. Sobre uma criança que nunca se machucou, pode-se afirmar com certeza: também não brincou.

Assim sendo, antes que o seu tempo se esgote, porque as obrigações de gente grande o chamam, fica só o meu desejo de feliz dia das crianças para a criança que ainda há em você; que ainda consegue olhar para o mundo e para as pessoas com um mínimo de inocência, e que, quando escuta “pega-ladrão”, responde calmamente que, na verdade, prefere brincar de amarelinha, mas que se todo mundo preferir aceita que seja “pega-ladrão” mesmo.