Alícia & Noel

(uma história romântica)


Vai tomar no cu da porra, disse Alícia. A violência da frase paralisou Noel. Em silêncio, ele ficou alguns segundos com os olhos vazios, tentando articular uma resposta . Quando expeliu o que pareceu ser um conjunto de murmúrios, Alícia já estava abrindo a boca para repetir a sentença. Vai tomar no cu da porra.

Desta segunda vez, a agressividade se diluiu um pouco, o segundo soco é sempre mais absorvível, pensou Noel, mas algo em particular lhe chamou a atenção. A falta de sentido da frase. Antes que Alícia sugerisse uma nova jornada sexual desagradável, ele levantou a mão, não ensaiando um tapa, mas como que pedindo trégua. Não havia trégua plausível. Ali estava ele, de cuecas, xícara de café numa mão, torrada com manteiga meio mastigada na boca e meias. Ali estava ele pensando sobre o sentido da frase… .o que significaria tomar no cu da porra?

Seria o referido esfíncter pertencente ao referido esperma? Por outra, o cu pertenceria à referida porra? Seria o único sentido possível da frase, o esperma presente tomando posse do aparelho último invadido. Nessa divagação se perdeu por um minuto, ele, que sempre mantivera uma curiosidade em relação aos palavrões. Durante anos, elaborara um discurso sem muita profundidade sobre as relações entre sexo e agressividade na cultura ocidental. Por que foda-se era o expletivo preferido se, privadamente, a masturbação é uma prática consagrada? No mínimo, ele sempre conseguia divertir os amigos, você se fode diariamente, repetia, e depois da explicação, vinha uma ou outra gargalhada ou risada gentil.

Mas… o cu da porra? Isso era agressividade pura, usando apenas a força das palavras, não o sentido. No fundo, concluiu, o palavrão era exatamente isso. Uma palavra transformada pelo uso, ou transtornada, como se precisasse ser proferida entre bochechas coléricas. Como, aliás, estavam as de Alícia, observando-o ali, ele, ridículo, parado, desorganizado.

Quando recuperou algum espírito, Noel olhou para trás. Na cama desarrumada, as duas embalagens abertas de camisinha pediam uma impossível justificativa. Ele pensou em dizer que gostava de se masturbar com elas, até por uma questão higiênica, mas quatro anos de relacionamento não permitem desculpas tão exóticas. Até o segundo ano daria, cogitou, e permaneceu em silêncio, com o olhar baixo.

A ironia era óbvia. O cu, a porra e as embalagens dos itens utilizados justamente para impedir o contato entre ambos. E a frase de Alícia, sem sentido, era morbidamente irônica. Noel tomou um gole de café e tomou junto alguma coragem para levantar os olhos e observar que Alícia tinha choro nos olhos.

Olha… ele tentou ensaiar, mas foi interrompido por um gemido baixinho, que ele sentiu mesmo como um trovão. As lágrimas começavam a descer. Vai tomar no cu da porra, repetiu Alícia, baixinho, antes de sair batendo a porta. Vai tomar no cu da porra.

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