Um dia


Um dia, Elísio chegou cansado em casa, tirou a gravata, deixou a mala sobre a mesa e resolveu contar a verdade para sua mulher. Ele chamou-a, sentou-a em sua frente no sofá, e disse, Isaura, hoje resolvi te contar tudo que já devia ter contado e não contei. Isaura ficou surpresa e redarguiu, mas por que hoje, meu filho?, algum motivo especial?, e Elísio disse que não, que tinha sido um dia como todos os outros, que ele tinha trabalhando como sempre trabalhara, e que, no caminho de casa, ele tinha resolvido dizer tudo.

E o que é tudo?, perguntou Isaura, o que provocou um certo nervosismo em Elísio. Uma coisa é decidir contar, a outra, certamente, é contar, e ele não esperava essa naturalidade dela, esperava sim algum temor. Será que ela sabe o que vou falar?, se perguntou em silêncio, e achou que talvez a mulher desconfiasse. Enfim, depois de tantos anos, aprendemos a dizer as verdades nas entrelinhas das mentiras e, mais do que isso, as mulheres aprendem a lê-las.

Bom, disse Elísio, passando a mão na testa, bom, eu queria te dizer que sou um homem fiel. Sempre fui fiel, jamais toquei em outra mão que não fosse a sua, jamais beijei nenhuma boca que não fosse a sua… e dadas as reticências, Isaura riu. Riu um riso desbragado, aberto. E lá isso é novidade, Elísio?, disse ela, seria novidade de você viesse me dizer o contrário. Com toda essa formalidade, aliás, continuou, eu achei até que saberia agora, e oficialmente, que era corna.

Não, parou Elísio. Então, perguntou Isaura estranhando muito tudo aquilo, que mistério é esse? Você não me sentou aqui para me dizer que era fiel. Isso eu já sabia, está escrito na sua cara, na sua careca e no seu bigodinho. É, eu não sentei, prosseguiu Elísio, algo temeroso. Eu… temeu um pouco mais, o que eu queria te dizer, Isaura, é que mesmo não te traindo na matéria eu te traí em pensamento. Eu te traí diariamente em pensamento. Eu sonho avidamente com outros corpos, com outras mulheres, mesmo que frugais, mesmo as que eu vejo na rua. Eu quero possuí-las, obtê-las, porque você eu já tenho, e mesmo que outros tenham tido, você continua minha.

Isaura ficou lívida. Elísio ganhou coragem. E eu preciso te dizer isso, não sei, como uma prestação de contas. Eu sou fiel por vontade, porque te quero ser fiel, porque a cada vez que sinto um desejo tenebroso de ter outras, eu penso em você e a mera possibilidade de te trair me enche de compaixão, pois meu amor por você é maior, não está mais no mundo da carne e sim no mundo das lágrimas e sorrisos. O que eu sinto por essas outras mulheres é a urgência do animal que os homens trazem no peito.

Isaura continuava sem palavras. E este animal, retomou Elísio, esse animal está em mim, mora em mim. E diariamente eu me flagro desejando. Eu desejo a mulher que tira roupa do varal. A filha de 18 anos da Dona Júlia. A datilografista da firma com suas meias-calças pretas. E me imagino fazendo o diabo com elas. Deixando elas nuas e encaixando minha carne na carne delas. E isso me enlouquece e, vez por vez, tenho que parar de trabalhar e ir ao banheiro para domar o corpo. É como um vício, algo maior do que eu.

Então, quando volto do trabalho, diariamente, penso em você e lembro que você é tudo para mim e me sinto podre, pouco honesto, nada decente. Eu, que sou fiel por que quero ser fiel, me sinto infiel, me sinto ingrato, me sinto… impuro… por isso tinha que falar algo. Quase chorando, então, Isaura levantou a mão, como que pedindo para que o marido parasse. Páre, disse ela, por favor, páre.

Elísio parou, olhando pra frente. Isaura, com o rosto entre as mãos, os cotovelos pousados nos joelhos, engolia o choro. Ele quis consolá-la e ensaiou um gesto com a mão direita. Ela reagiu levantando a cabeça com um olhar assustador. Quantos anos de casados temos, Elísio?, ela perguntou, confiante. Dezoito, ele disse. Em dezoito anos, ela continuou, você acha que eu nunca desejei outro homem? Ele ficou em silêncio. É claro que desejei, ela mesmo respondeu, e desejei muito. E quis sentir outros corpos dentro do meu, não apenas o seu, não apenas nosso amor costumeiro. Eu quis outros.

E você teve outros?, foi a pergunta dele que ela não esperava. Não, não tive, mas hoje, diante desse espetáculo patético, eu deveria dizer que sim, que recebi o Murilo da venda, ou o Seabra da Padaria. Ou talvez o encanador que vinha sempre quando você não estava. Afinal, você nunca teve ciúme, sempre acreditou em mim. Mas, não, eu não tive nenhum outro homem, só você, sua careca e seu bigodinho. Às vezes, eu achava que estava trepando até com a sua maleta.

Por… que você está falando assim… disse Elísio, choroso. Porque você não tinha o direito, respondeu ela, você não tinha o direito de ser honesto. O mundo é feito de pequenas imperfeições e quem é você para querer consertá-las me fazendo sofrer? De que me vale a sua fidelidade se eu sei que você arde em desejo pela primeira vagabunda? Que direito você tem de destruir minha, nossa ilusão? A ilusão é que mantém um casamento perfeito. E em concluindo isso, ela parou de falar e olhou dentro dos olhos de Elísio. Eram olhos grandes, os dela, e pequenos, os dele.

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