Está na hora de perder tempo

Você já ganhou tempo demais.

Gustavo Porpino
Aug 26, 2017 · 5 min read

Correr, melhorar, evoluir, ganhar, desenvolver, estudar, meta, objetivos, disciplina, são palavras frequentes numa sociedade moderna. Fazemos de tudo para ganhar tempo e “sair” na frente de outras pessoas. E mesmo com tanto esforço e dedicação às vezes parece que não chegamos em lugar algum. Bem, você já ganhou tempo demais e está na hora de perder tempo.

Talvez você esteja se contorcendo com essa ideia de perder tempo, mas me permita explicar antes que ignore meu texto.


A ciência explica que repousos são necessários para recuperar energias e ser mais produtivo no trabalho. Embora seja uma verdade que se aplica a minha vida não é sobre isso que quero falar.

Vivemos numa sociedade onde somos estimulados a capitalizar tudo o que fazemos, quando ajudamos alguém esperamos uma retribuição de “tamanho” igual no futuro. E muitas vezes evitamos pedir ajuda com o medo de ter que “pagar” de volta. Inconscientemente capitalizamos tudo, curtidas, comentário, conversas, pedidos, ajudas voluntárias, etc.


Os melhores momentos da minha vida foram quando eu não ganhava nada em troca.


Eu cheguei ao cúmulo de capitalizar um favor em troca de um objeto. Recentemente pedi um favor a um primo meu, somos amigos próximos e nos damos muito bem. Esse favor estava demorando a acontecer, daí tive uma brilhante ideia que poderia pressioná-lo a realizar o favor (este favor não dependia dele, ele era apenas a ponte). Bom, ele estava com um objeto meu a um tempo, e eu não usava com muita frequência, resolvi dizer a ele que topava trocar o objeto pelo favor. O favor não deu certo, e eu me senti mal por ter usado essa estratégia tão mesquinha. Agora, com a oferta, o favor não era mais um favor, era um produto.

Os fins justificam, sim, os meios.

Não deveria, mas estão justificando. Perceba, assim como eu, todos os dias temos situações semelhantes a essa. Quem nunca recebeu a ligação de alguém precisando de um favor e percebeu que ele está puxando papo furado só pra te pedir algo. Se tiver intimidade, você diz do outro lado: “Vai! Diz logo o que queres!”.

E quem também nunca fez essa ligação?

Nossas amizades são cada vez mais úteis e menos afetivas. Fingimos sermos amigos de alguns só porque acreditamos que podemos ter algo em troca mais à frente. E quando não acontece nos frustramos.

Eu sinceramente sinto um repúdio de pessoas que passam na cara que o já fez por mim. É algo degradante. Mas nem posso reclamar tanto pois já me peguei fazendo isso.

Tudo para “ganhar tempo”! Performar, melhorar, ganhar. E o que estamos ganhando no fim são máscaras, amizades líquidas, relacionamentos frágeis e o vazio. Mantemos nosso status de felizes mas lá dentro é tudo escuro e sem sentido. Lutamos para tirar boas notas, ganhar mais dinheiro, melhorar nossa qualidade de vida, aumentar a percepção do nosso status. Mas quando paro para avaliar: meus melhores momentos aconteceram quando estava perdendo.

Os melhores momentos da minha vida aconteceram quando eu não recebia nada em troca

Ajudar pessoas com fome, ouvir a dor do outro, participar de ações sociais, dar aula a pessoas de baixa renda, contribuir com projetos grandes sem ser pago. Esses momentos foram os momentos em que me senti mais realizado, no entanto, racionalmente falando eu “perdi tempo”.

Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor a mim, salvá-la-á.

Venha comigo mais a fundo, uma dessas ocasiões foi sem dúvida a mais desgastante da minha vida. Em meio a metas e prazos apertados me permitir viajar com um grupo de amigos à Capoeiras para um trabalho social. Viagem longa e cansativa, pelo menos teve parada no rei das coxinhas ;), cidade quente, muito humilde, estradas de barro na cidade inteira. Tínhamos um evento pra divulgar, e acreditem o evento era à tarde e às 10h da manhã ninguém havia divulgado o evento. Isso mesmo. Ninguém. O que tínhamos? Apitos, panelas e uns chapéus coloridos (Ridículos por sinal, kkk). Naquele momento eu me perguntei o estava fazendo ali. Vim de Recife, 4h de viagem para ajudar num evento que nem foi divulgado e tenho que sair no sol quente pra tentar convencer as pessoas a aparecerem no evento. Deu certo! Sério! Deu certo, mas não foi isso que me impactou.

Ao sair pelas ruas eu vi e vivi algo como nunca antes havia vivido, a vida como ela é. Sem iPhone, sem tv, sem avenidas, sem conforto, sem internet, sem dinheiro sobrando, sem fast-food. Sem muito, muito do que temos na “cidade grande”. Eu vi um povo sofrido, mas unido, feliz e vivendo a vida. Eu vi muita pobreza, mas não vi miséria. Não, não havia pessoas abandonadas nas ruas. Eu vi crianças com liberdade na rua. Brincando, como se diz: “sendo criança”. Sem medo de serem sequestradas, de serem arrancadas de seus lares ou de sofrerem algum mal alheio. Vi casas abertas, muros baixos, vizinhos conversando, sorrisos sem dentes. Eu vi a felicidade. Eu vi a paz. Eu VIVI a paz.

Essa experiência me faz pensar até hoje se estou escolhendo livremente o caminho do sucesso ou estou preso a ele. Preso ao meu “destino”, preso ao tempo, preso àquilo que almejei um dia. Passamos muito tempo correndo atrás de idéias e desafios que sempre nos levam a mais idéias e mais desafios, quando isso vai parar? Em algum momento eu estarei satisfeito? Ou depois de ter conquistado “tudo” novos planos virão? Quando será o limite? Existe um limite? No fim estamos nos prendendo ao tempo futuro. Ao que estaá por vir. Com o medo de que algo aconteça, estamos perdendo o presente, deixando de viver o agora. Sacrificamos o presente em troca de um futuro que não conhecemos.

Menos é menos

Não sei o quão difícil é mudar de uma vida de ganhos para uma vida de perdas. Mas sei que a resposta pra a mudança chama-se Propósito!

Aquele que quiser ser o primeiro, que sirva a todos

)
Gustavo Porpino

Written by

Empreendedor, idealizador do instagram.com/oxebotefe e consultor em tecnologia e curto escrever uns textos às vezes! 😉

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