Terra de permeio

Fernanda Grabauska
Sep 6, 2018 · 12 min read

O cachorro morreu e estou aqui, sentada em uma das cadeiras do saguão. Elas são da cor de algo que encardiu e resolveu ficar assim, estoico, resiliente a amônia, a cloro, a todos os produtos de limpeza a que recorre um ser desesperado.

A fachada da Pinel lembra o colégio de freiras que eu frequentei dos últimos anos do Ensino Fundamental até o primeiro ano do Ensino Médio. Vidraças limpas, filas de tijolo à vista. Um colégio de freiras, igualzinho. Talvez com remédios controlados mais divertidos do que os analgésicos que tomávamos para fingir alucinar, e sem aulas de Educação Física.

Andei muito de bicicleta nos últimos dias. Fiz uma tatuagem de âncora no pé direito, um esforço imagético fora do comum para manter os pés no chão. Uns dias antes da tatuagem — feita em um rompante, em uma tarde livre com dinheiro para gastar –, havia colocado na bolsa um bilhete escrito “A quem interessar possa: eu causei este acidente”. Acho que foi por isso que estou aqui.

– Ficha 57 — disse a atendente, tomada pela estafa, sobrando dentro de um jaleco branco, dentro de toda a loucura do Santana e adjacências. Tenho tempo de me entregar a pensamentos: com os loucos com plano de saúde talvez seja mais fácil de lidar. Procedimentos mais organizados. Será? Provavelmente não. Credo.

Sou arrastada em direção a um guichê de atendimento, fórmica amarelada e coberta de poeira. Se algo foi dito, não me lembro. Estou vestindo uma calça grande demais e uma manta que engole boa parte do meu colo. Meu peso atual não chega a quarenta quilos, os ossos apontando, as tranças e os cílios salpicados de poeira e de cansaço. Eu tenho pouco mais de vinte anos e, ainda assim, pareço uma senhorinha, uma daquelas mexicanas que se veem em exemplares da National Geographic, cabelos muito pretos e uma face encovada que parece que viveu todos os anos, que experimentou todas as vidas.

O problema foi esquecer da carteira do plano de saúde, ou algo do tipo. Mas por benevolência, ou mediante uma diária, me deixaram ficar pela noite, até que os documentos fossem resolvidos. Não lembro de ter dito adeus à minha mãe. Sou arrastada em direção ao espaço de observação na ala Nise da Silveira, onde me dão para engolir dois comprimidos que poderiam ser absolutamente qualquer coisa e que me dão sono em menos de dez minutos. Nise da Silveira foi aluna de Carl Jung e ativista contra a morosidade do confinamento em instituições psiquiátricas. Glória Pires foi Nise da Silveira em um filme brasileiro panaca.

A roupa de cama havia sido lavada até a exaustão da trama de poliéster. Buscando na mochila, o confisco das auxiliares de triagem havia abrangido

1. Meus cigarros, meu isqueiro;

2. Uma pinça;

3. Minhas chaves;

4. Uma revista Super Interessante sobre erro médico (péssimo assunto, bom confisco);

5. Uma lâmina de barbear (compreensível).

Sonho que nado em um mar calmo com golfinhos. E que os golfinhos, de súbito, tornam-se moças magrinhas, como eu, vestidas com maiôs de nado sincronizado. Somos, na verdade, todas sereias. E só poderíamos deixar o mar caso uma de nós, escolhida por um sorteio, beijasse um homem anteriormente designado sem que ele fizesse nenhuma pergunta. O homem escolhido não me faz pergunta alguma, por sorte minha ou vontade dele de receber o beijo de uma moça num maiô com lantejoulas. É assim que eu liberto todas as sereias do mar — e acordo.

Uma enfermeira de cabelo cacheado, preso com toda a severidade que gel incolor permite, me sacode o ombro. Agora, tenho uma colega no quarto sem portas, sob a supervisão cuidadosa de outras três moças com cabelos tão firmemente presos quanto aquela que me sacudia, que depois descubro chamar-se Jane. Minha companheira, tão esquálida quanto eu, mexe a cabeça sem parar. Como uma daquelas figurinhas presas com ventosa ao painel interno de um carro que ficam com a cabeça para lá e para cá e para lá e para cá sem nos dizer jamais o que negam com tanta veemência.

– Vocês não querem tomar banho? — diz Jane, com o semblante generoso de quem me deixaria comer uma segunda porção de sobremesa no jantar se eu fosse boazinha. Mas não era hora de jantar.

Por óbvio eu preciso tomar banho, mas minha colega se adianta. Adentra o banheiro, também sem portas, mas não sem antes levar um dedo aos lábios — na outra mão, ela apertava um colar e um par de brincos — e silvar, suave como um pardal:

– Ssssshhhh. Não conta pra ninguém.

Cátia, talvez fosse o nome dela. Como você acabou aqui, Cátia? Você também tinha medo de se atirar de cabeça do sétimo andar e mesmo assim não morrer? Você também começou a tomar um banho que, na verdade, eram cinco banhos porque você não conseguia suportar seu próprio cheiro, o cheiro de lítio, o cheiro de poeira, a creolina que exalava dos seus cabelos? Você tentou sumir ao não comer — virar parte da mobília, algo sem graça como um porta guarda-chuva? O que a gaiola das suas costelas vai me contar caso eu a abra?

Eu não descobri. Muitos ossos, enfeitados por uma grande toalha verde, saem do banheiro e sentam-se na borda da cama. O que devia ser Cátia suspira, aponta o rosto de cavalo para o chão.

– Enfermeira, eu quero que tu chame meu marido. Eu não quero ficar aqui — ela falava de um jeito simultaneamente recém-nascido e morto.

Jane, olhos afilados, parece precisar de ar. Ela quer mesmo dar aquela segunda sobremesa para Cátia, isso se vê, mas se agita. Enfermeiras são os seres mais cândidos e generosos do mundo, até que erram sua veia.

– Tu não tem opção, Cátia. Tu tá aqui pra melhorar.

– Vocês vão ter que me tirar daqui, querendo ou não querendo, — e aqui Cátia sorri com uma bazófia que eu supunha ser impossível — porque acabei de engolir meu colar e meus dois brincos.

A enfermeira suspira e chama outra enfermeira. Ambas vestem Cátia e a conduzem para fora. Cátia se livrou. Viva você, Cátia, espero que sem sequelas de liga metálica. Eu não tomo banho porra nenhuma.

Sonho que meu despertador tocava e eu tento desligá-lo, mas o despertador é um pote de tinta guache que, aberto, é um buraco negro. Longe de entender o que estava acontecendo, eu grito muito alto, mesmo desesperançosa de que ele vá parar de me atirar passarinhos. E uma enfermeira me acorda. Não Jane, infelizmente, mas uma mulher de rosto alongado e sem nenhuma generosidade no olhar. Eu havia dormido a noite inteira. A nova enfermeira, que lembra uma professora de terceira série que meu irmão teve no colégio de freiras, famosa por deixar as crianças se mijarem só por maldade, orienta que me arrume, pois iríamos tomar café. Meu banho tem três banhos contidos em si. Não sei qual cheiro tem o lítio, imagino que seja de pilha. Eu lavo o cabelo três vezes, escovo os dentes três vezes, lavo o corpo inteiro três vezes com especial atenção para os pés. Sobre o banheiro sem portas: este tem azulejos beges, as louças da privada e da pia são marrons. Julgo que ter um espelho é um pouco permissivo. Qualquer um poderia, com um soco, quebrá-lo em pedaços e fazer deles o que quiser. Mas eu não sei se quero morrer. Tenho esperanças de ser contente como um cachorro sem coleira.

Nós, internas, deveríamos estar enfileiradas como normalistas. Caminho em direção à fila, olhos nos pés e no chão de madeira incrustrado de laca. Encontro uma foto perdida no corredor, que guardo dentro da roupa como se eu fosse uma espiã agarrando o papel que salvará a revolução.

No refeitório, uma moça ruiva sem parte do nariz reclama das gordurinhas adquiridas após o período de abstinência. Uma gorda de cabelos desgrenhados abre pacotinhos de açúcar em cima do pão com margarina. Uma senhora de cabelos curtos fuma cigarro com olhar perdido. Uma garota olha para o prato, olha para o nada, olha novamente para o prato. Eu entro na fila e recebo pão, um mirrado quadrado de plástico que, dizem, contém margarina, e uma xícara de café. Sento à mesa com a ruiva sem parte do nariz, que logo se apresenta como Andrea e explica que, sim, aquilo ali foi cocaína. Muito bem, estamos acabando com qualquer sensação de estranhamento. Estamos todas aqui olhando para qualquer coisa.

Hoje é meu primeiro dia de terapia e sei que não deveria estar tão triste e nem tão calma por estar tão triste. Mas veja: só os cães são felizes de verdade. Talvez também os cavalos, se bem que apenas alguns. A vida, aqui, transcorre mediante café com pão e Depakote, aquele mesmo que me disseram não-toma-que-tu-vai-ficar-gorda. Cachorro nenhum precisa de Depakote e nem de coleira, de nada além de um par de olhos que legitime a alegria em seu par de olhos. Meu deus, que saudade do cachorro. Os cérebros de cachorro têm medidas perfeitas. Talvez por isso tenha morrido em paz, o cachorro, com a certeza de que sabia mais do mundo do que a gente, que teima em seguir as receitas dos livros, que pega avião e vai a lugares.

– Pois — começou o psiquiatra. — Acho que a gente pode conversar um pouco sobre o que te trouxe aqui.

O Psiquiatra tinha um sobrenome que indicava um nascimento sob a estrela de Davi, em um recanto acolhedor do Bom Fim, com estudos no Israelita. Seu rosto não o fazia notar, um nariz apolíneo entre feições apenas normais. Dois olhos que reagem desafiando aquele pacote-homem-comum. Você sabia, Psiquiatra, que o cérebro humano já foi desenhado como uma flor em um tratado de psicologia? O autor queria representar uma série de medidas que indicassem o funcionamento ótimo do cérebro para, a partir dessas medidas, criar curas para os mais variados males. O que é interessante, porque remédio tem a ver, segundo o radical indo-europeu, com medidas: com meses, semestres, menstruações, metros, parâmetros.

Mas. Sim, Psiquiatra, eu conto.

– O cachorro morreu assim, sem aviso. Um dia a gente estava no parque, olhando os patos, as tartarugas ou qualquer coisa, e no outro, caput!, morreu o cachorro. Eu lembro de uma vez que passei por um cachorro atropelado. Achava aquela a cena mais triste da minha infância, mais do que o pensamento eventual em uma criança do mesmo colégio de freiras que morreu perfurada pelas grades do portão de casa. Deve ter sido uma cena muito triste, mas enfim, eu penso naquele cachorro ali estendido, afastado da via, aninhado no cordão da calçada. E penso no meu cachorro, que era meio que a única coisa que eu tinha, cara, que veio comigo da outra casa quando eu tive que mudar pra minha mãe. E eu tinha que estar sempre disponível pra cozinhar, levar a sair, era um bicho exigente, não comia isso e não comia aquilo, a ração nem olhava, tomate só sem semente e nada de alho na comida, maçã descascada… Mas eu fazia, sabe. Me cheirava tanto que eu comecei a acreditar que eu cheirava ou muito bem ou muito mal, o que de qualquer forma me levou a tomar sucessivos banhos pra ou lavar o mau cheiro ou cheirar ainda melhor, já que ele só se deitava comigo quando parecia ser estritamente necessário.

O Psiquiatra tem os olhos bem abertos e fixos na minha expressão. Encaro como um sinal para continuar falando.

– Mas daí foi isso. O cachorro foi se afastando, não me procurava, não procurava minha mãe, não animava a sair de casa. Passeios curtos, do nada a comida não agradava mais e eu tentava, cara, eu não sei se posso te chamar de cara, mas, tchê, até comida vietnamita eu tentei fazer e nem uma abanada de rabo. Voltou a querer caminhar, mas de um jeito apático, como se fizesse aquilo pra cumprir um ritual social do tipo: “Estamos juntos, vamos ver os patos, vamos ver as tartarugas”. E daí morreu a porra do cachorro. Nem pra me deixar sofrer junto por um tempo.

A consulta termina antes de eu poder contar os efeitos daquela morte no meu psicológico. Além do Depakote que vai me deixar gorda, um antidepressivo. Meu braço coça, eu reviro os olhos. Lembro da foto sob a camisa, meu momento Mata Hari bipolar. Depois da sessão, temos todos uma hora no pátio, como o banho de sol do cárcere. Cada interno tem direito a uma conta em uma espécie de mercearia com um grande painel de comida hipercalórica. Não sei se minha mãe creditou alguma coisa, entendo que não tenha pensado nisso. Mas tenho interesse nos cigarros oferecidos por Jane, plácida e beatífica tal qual uma madre superiora em meio às internas que se enfileiram, pois a base do Brasil são as filas, para receber um Dunhill vermelho. Jane, cabelos tracionados para trás de modo que até eu consiga sentir minhas têmporas repuxando, tem o monopólio do isqueiro. Fumo meu Dunhill na rua como todo mundo. Jane faz que não com a cabeça, uma sacudidela marota ironizando o fato de que eu, com essa aparência cadavérica, esteja cometendo a insolência de acender um cigarro.

Cercado por janelas, o pátio tem uma piscina no centro e alguns bancos de pedra, como os de jardim. Uma quadra com aros de basquete, um muro. No canto oposto à quadra, uma sala com mesa de pingue-pongue, uma mesa de desenho, um telefone público. E tem uma mulher baixa, muito baixa e muito atarracada, cartunesca. Madame Min, se fosse bugra. Ela se aproxima, gingando no estilo de quem só pretende passar a impressão de que entende alguma coisa a mais.

– Magrinha, preciso que tu ligue pra esse número. Diz que é da parte da Bete, pro meu advogado me tirar daqui que eles querem me interditar.

Eu não respondi “Magrinha é a puta que pariu”. Balbuciei um “Arrã, vai pro canto que eu ligo sim, já te conto qual foi”. Ela tinha voz de fumante, algo com o que toda a minha vida só pude sonhar, e olhos vidrados. Jane deveria saber a história dela. Penso em perguntar, mas ela desata a falar antes que eu me dirija ao telefone. Ou a Jane. Ou consiga respirar:

– Eu preciso voltar pra Santa. Meu filho acha que eu tô viciada, que aqui vou tomar jeito, mas, meu querido, bem capaz, né, vou sair daqui direto pra Silveira, pedir uma tele e cheirar um caminhão, vê que ideia interditar a própria mãe, a bis-ne-ta de Getúlio Vargas, parece que não me conhece, porque eu me mato, viu, olha, eu me mato mas não deixo me interditar, onde é que já se viu.

O olhar de Jane alcança o meu e ela vem em meu socorro. Um novo remédio no coquetel da futura felicidade, misturado à falta de matéria corpórea e um Dunhill vermelho fumado de forma apressada, para não dizer asselvajado, me fez empalidecer e desmaiar.

– Como uma dama antiga — começa Bisneta de Getúlio Vargas, minha nova melhor amiga. Jane e outra enfermeira me levam do pátio até outra cama fora da área de observação, uma em um quarto com porta, que tem um banheiro com porta. Os armários são de madeira escura e a janela dá para um corredor e um muro. Flutuo do marco da porta até a cama, amparada pela dupla. Meu dedo recebe uma agulhada e descobrimos que tudo vai bem com minha glicose.

– Pode ficar aí deitadinha. Descansa, daqui a pouco eu volto — diz Jane. Entendo que recebi a segunda sobremesa. Não sei se ela poderia me deixar sozinha, mas sua paz de espírito me tranquiliza. Eu te amo, Jane.

Lembro da foto e espero que não tenha se perdido. Aderiu à minha barriga por uma fina camada de suor. Retiro-a de sob as roupas como quem desembrulha um presente de Natal tão frágil quanto aguardado.

A imagem mostra um garotinho, com não mais do que três anos, montado em um cavalo de balanço. O brinquedo parece antigo, madeira sólida, com as cores pintadas — vermelho sangue, azul céu, branco cal, amarelo girassol — esmaecendo como sua popularidade. Ele parece saber dará lugar a um novo brinquedo favorito conforme o menino cresce. O piá sorri com a ânsia de mostrar todos os dentes de uma vez — um daqueles sorrisos que só tiramos de bêbados e de crianças –, claramente muito feliz de estar ali. Nota-se que o cavalinho é sua posse mais adorada, seu companheiro de aventuras e que, naquele momento, ambos posam após grande conquista no velho oeste, o garoto e seu chapéu de caubói, seu olho que reflete o flash da câmera de uma mãe embevecida, um satélite de expectativas que orbita a seu redor embora ele não saiba, embora ele não entenda que um dia seu sorriso vai parar no chão de uma clínica psiquiátrica, que viajará distâncias até chegar às mãos de uma estranha que vai chorar pensando em tudo isso.

As medidas de remédios, aquelas do tratado de psicologia, têm mais a ver com operação do pensamento do que com fita métrica. Em um dicionário de 1728, o verbete remédio vai escrito “remêdio”. A definição é esta: “Medicamento. Tudo o q serve para obrar, ou conservar. Os verdadeyros remedios obrão com virtudes saudaveis, as quaes destroem qualidades contrarias, nocivas, &, aplicados commodamente, lanção fóra as doenças”. Depois de muitas explicações sobre remédios internos, remédios externos, o dicionário traz a seguinte frase: “com gente má, o remédio é ter muita terra de permeio”. Repensar a que distância precisamos estar das pessoas más é um remédio tão bom quanto a maioria.

Eu tenho certeza de que o guri na foto é o filho da Bisneta de Getúlio Vargas.

Durmo e acordo, sem sonhos e sem Jane.

Começo a achar que essa tristeza toda é culpa pelo alívio que sinto depois que o cachorro morreu.

Fernanda Grabauska

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Dá para dizer que eu tento, ou nem isso

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