25 de janeiro de 1992

Meu pai e eu tomávamos café da manhã juntos todo sábado. Hábito velho. Era quando a gente conversava sem pressa.

Lembro do meu pai gargalhando enquanto contava pra ele umas piadas de mau gosto zombando do Fidel ("El Coma Andante", bobagens do gênero).

Tinha lido numa revista e memorizado algumas. Ele era um homem de esquerda. Admirava o Brizola.

Nem sequer era provocação. Tive a sorte de crescer numa casa onde nada estava fora do alcance da crítica, da ironia, do deboche e da gargalhada.

Meu pai, que na média era bastante rígido comigo, tinha tiradas demolidoras. Coisa do tipo: "da próxima vez que você tiver uma ideia como essa, sente e espere passar. Porque passa, acredite…"

Naquele dia, ele saiu umas 10h para receber uma dívida de uns clientes. Nunca voltou.

Faz 25 anos hoje. Não, não passou voando.

Durante muitos anos, delirei com a chance de voltar ao passado, por apenas um minuto, para mudar o curso das coisas.

Ou me torturei pensando em quantas chances perdi de ter mais tempo com ele. Bobagens típicas de uma cabeça perturbada por uma morte trágica.

Olhando em retrospectiva, o apreço pela crítica, pela ironia, pelo deboche e pela gargalhada são o legado aparente no homem que me tornei.

***

Há outros traços, mais profundos, mas estes eu escondo.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Graciliano Rocha’s story.