


Um dia depois do outro
Breves anotações sobre autores que li nos últimos meses.
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1 — Na vida adulta, coisas banais podem adquirir uma importância de vida ou morte. (David Foster Wallace)
DIGRESSÃO: O despertador toca às 7h. Você desliga sem abrir os olhos e seus pés procuram os meus pela cama. Percebo que existe um movimento sob couette e deixo meus pés ao alcance dos seus na esperança que mais partes de nossos corpos se encostem. 7h09, e agora você, ainda sem abrir os olhos, finalmente quer outras partes de meu corpo, e eu chego um pouco mais perto. Pegamos no sono quase colados até que o novo alarme nos acorda. Juntos e misturados, perreamos mais um pouco, até que você abre os olhos e pega o iPod — que você chama de cacharro — para desligar o alarme. A gente se beija, se abraça mais forte, se mexe e se encaixa até que você, vendo a hora, diz que precisa levantar. Você vai para o banho, e eu, depois de lavar os dentes, vou fazer o café. Às vezes leva uns minutos a mais porque você lava os seus cabelos, longos e volumosos. Quando ouço o chuveiro ser desligado, sirvo o seu café que tiro primeiro da cafeteira italiana. A cafeteira italiana foi uma das suas marcas na minha vida. Antes eu bebia nescafé, lembra? Na primeira vez, que você me visitou em Porto Alegre, você foi ao supermercado atrás da minha casa e trouxe uma cafeteira italiana porque se recusava a beber café solúvel. O café já está pronto, mas você não. Peço que venha para não esfriar e você diz do quarto “já vou”. Impaciente, repito o chamado. Você grita “eu já vou”, e dessa vez vem mesmo. Enquanto você toma o café, acendemos o nosso primeiro cigarro do dia na janela da cozinha que dá para um pátio de escola e, bem ao fundo, para as torres da Saint-Sulpice. O cigarro naquela janela de todas as manhãs. Você me diz como será o seu dia, ou melhor, qual vai ser a disputa daquele dia com seu chefe holandês. Conspiramos como Claire e Frank Underwood, mas você é uma pessoa íntegra. Te levo até a porta. Como todos os dias, só fecho a porta quando você entra no elevador.
Tomo banho, visto a roupa e saio de casa pouco antes das 10h. na banca da rue de Rennes com Saint-Placide, compro os jornais do dia e caminho até o metrô Rennes. O jornaleiro sempre põe o Monde, o Figaro e o Parisien na sacola e deixa o NYT fora porque sabe que eu gosto de lê-lo no metrô. Linha 12 até Concorde. Geralmente estou com o velho trench coat e, como todos os dias, gosto de escutar os passos da multidão no corredor subterrâneo da estação para trocar de linha. As pessoas indo para o trabalho. O som dos passos, o capitalismo funcionando. Linha 1 até Charles de Gaulle-Etoile. Na saída da Friedland, o Arco do Triunfo de todos os dias. No escritório, 9 metros quadrados de uma antiga chambre de bonne no sexto andar, começamos a percorrer o noticiário atrás de alguma coisa que sirva para a Folha. O Mário caça alguma pauta para a RedeTV! e a Ana tenta produzir algo pra Bandeirantes. Trabalhamos os três de frente para a parede, o que não é muito feng shui, mas adoro estar ali com eles. Nossa redação é uma das poucas do mundo onde ainda é possível fumar. Na minha frente, a Geralmente almoçamos no Dada, na avenue des Ternes.
Vejo que está escurecendo e corro para casa. Você ainda está no trabalho e eu ligo para perguntar o que você quer jantar. Se uma salada, algo do Francesco ou se te encontro no sítio dos gin tonics. Passo no Francesco e vou pra casa com alguma barquete de champignons e uma carne leve ou peixe. Estou em casa quando você chega. Abrimos um vinho — todas as noites bebemos um pouco de vinho de garrafas que custem até sete euros, nosso limite autoimposto. A gente janta, fala do trabalho e fica ali na sala. Depois o cigarro na sacada ou na janela da cozinha, vidinha de rituais. A gente desiste de ver algum filme e vai escovar os dentes. Na cama, você lê o El País no cacharro. Eu jogo um pouco de pôquer num aplicativo do iPhone. Estamos com sono. Alcanço o interruptor esticando o braço e apago a luz. Você se vira de costas e eu me encaixo no seu corpo. O meu braço esquerdo embaixo da sua cabeça e o direito envolve seu corpo, com minha mão parando entre as suas coxas. Eu escuto sua respiração ficar mais funda. Antes que você pegue no sono eu te dou um beijinho na boca e repetimos o velho diálogo:
“Obrigado por se casar comigo”.
“Gracias a ti”
“Durma com os anjos, meu amor”.
“Tu también, guapo”.
Com você no meu corpo, fecho os olhos e durmo.
2 — Uma terrível verdade: no fundo, os suicidas já estavam mortos muito antes de apertar o gatilho.
DIGRESSÃO: Provavelmente, estou morto desde o dia 15 de janeiro de 2015, dia em que sepultaram o cartunista Tignous. O caixão entrando carregado, sob aplausos da multidão que lotava a praça em frente à prefeitura de Montreuil. Lá dentro, o salão igualmente lotado, o discurso da viúva lamentando a perda, a voz embargada do Christophe Alévêque cantando “Bella, Ciao” e as pessoas batendo palmas. Foi o dia mais triste da minha vida. Na véspera, abri uma carta que não deveria. Quando a li, senti raiva por causa da injustiça e de acusações sem sentido.
Só no dia 15 de fevereiro, domingo de Carnaval, entendi que o conteúdo da carta da sua mãe trazia uma profecia: aproveite-se da mudança de apartamento e deixe-o.
3 — That’s what the world is, after all: an endless battle of contrasting memories. (Do Haruki Murakami, em “1Q84”)
DIGRESSÃO: 11 rue Jean Ferrandi, 6º andar, 19 de fevereiro de 2015: Eu fiquei cuidando dela. Ela se levantou e foi até a cozinha. Estava com fome. Ela tomou o remédio do aborto umas nove e pouco. Já era quase uma da tarde quando o analgésico à base ópio começou a perder o efeito. Levei-a de volta para a cama. Ela urrava de dor com a mão no ventre. Eu preferia estar morto. Sempre quis ser pai e vendo aquilo. Voltei da cozinha com mais água e mais remédio. Nunca vou poder esquecer do rosto contraído, os olhos espremidos, todas aquelas rugas que eu jurava nunca ter percebido. No útero, uma pitada de soda cáustica rompeu a gema mole do ovo. O sangue já corria. Aquilo poderia ter sido meu filho um dia, mas lutei para afastar o pensamento e manter um pouco de sangue frio. Dei o remédio e sentei na beirada da cama onde nunca mais iria dormir, do lado dela, passando a mão no cabelo castanho e na barriga. O remédio já vai começar a fazer efeito de novo e a dor vai acabar, prometi. E ela se esvaindo. E eu ali feito um puto saco de lixo. Ela estava com fome. Fui esquentar uma panela de lentilhas que estava sobre o fogão. À beira de um futuro horrível, eu apenas esquento uma panela de lentilhas.
Cena recorrente na minha cabeça. Não consigo me livrar dessa memória.
4 — A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte. Não depois. (David Foster Wallace, em discurso a estudantes)
DIGRESSÃO: Minha vida foi um enorme privilégio. Li muito, mas menos do que deveria ter lido. O blues e a música clássica mobilizaram minha imaginação e aguçaram o meu gosto pela beleza. Vou sempre me lembrar das árias do Papageno, da Flauta Mágica, e Largo al Factotum, do Barbeiro de Sevilha. A Sinfonia 40, que vi em Paris, certa vez, me força a admitir que Mozart capturou meu coração de uma maneira que nenhum outro compositor conseguiu. Viajei por duas dezenas de países no mundo, aprendi porcamente cinco línguas.
O jornalismo foi uma aventura fantástica. Amei meu trabalho verdadeiramente. O jornalismo me levou a algumas das pessoas mais incríveis que eu poderia conhecer. Que outra profissão te permite contrabandear uma arma? Ou observar uma guerra? Ou então estar presente na cena do Charlie Hebdo e na maneira única, comovente e inspiradora, que os franceses se levantaram para dizer que não tinham medo? Nos últimos meses, voltei ao jornalismo investigativo, cobrindo um dos principais casos de corrupção da história recente do país. É claro que errei inúmeras vezes, mas nunca escrevi algo sabendo que era mentira. Confie no futuro, o bom jornalismo não vai acabar.
Também acho que soube amar as pessoas. Casei-me tarde com a única mulher que amei de verdade e tentei ser um bom marido. Fui um bom filho, um bom irmão e um amigo leal aos meus amigos.
A todas essas pessoas que enriqueceram a minha vida com o privilégio da convivência e da amizade, muito obrigado.
5 — De Philip Roth, em “Complô contra a América”:
E então ela abriu-se conosco, duas crianças protegidas que nada sabiam sobre o ressentimento da perda: “Já vi muitos soldados furiosos”, disse ela. “Já vi muitos soldados furiosos por terem perdido os quatro membros, mas nunca vi uma raiva igual a dele” [personagem que volta para casa após perder uma perna na 2ª Guerra]
“Raiva de quê?”, perguntou Sandy, aflito.
A enfermeira era uma mulher robusta, com olhos cinzentos sérios e cabelo curto de soldado sob o boné cinzento da Cruz Vermelha, porém assumiu um tom suave e maternal, uma suavidade que foi mais uma das surpresas daquele dia, e como se Sandy também estivesse sob os seus cuidados explicou: “Todo mundo tem raiva da mesma coisa — das coisas que a vida faz com a gente”.
DIGRESSÃO: Agora não importa mais. Não tenho mais tempo para nada que não seja essencial.
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6 — Borges:
Mirar el río hecho de tiempo y agua
Y recordar que el tiempo es otro río,
Saber que nos perdemos como el río
Y que los rostros pasan como el agua.
Não tenham piedade de mim nem dos meus sentimentos inúteis. Da tolice que é ser gentil com quem te detesta. De demorar a compreender que a indiferença e a ambiguidade são comportamentos mais simples.
Acerto as contas com a memória dos anos em que fui feliz e com o fato de reconhecer neles um mundo que nunca existiu.
Não quero mais continuar sentindo-me desnecessário e inadequado. Não quero mais dormir só duas horas toda noite sabendo que sou um fracasso como pessoa. Não quero mais viver um dia depois do outro sabendo que não há esperança. Não quero mais o céu escuro dos últimos quadros do Van Gogh.
É o destino genético de cada humano achar seu próprio caminho, viver sua própria vida e morrer sua própria morte.
Tomem um dry martini e toquem a bola pra frente.
O futuro pertence a vocês.
Abraços e beijos,
g.