O que se faz?

Olhei, procurei, olhei de novo, procurei noutro canto, achei. Achei mais um. Agora outra coisa. E o que se faz?

Agora vejo com maior compreensão. Está perceptível. Estou vendo acontecer. Não apenas assistindo de forma passiva, mas sendo agente dessa ação. Essa ação em desacordo com o coração. A desarmonia de me importar com o que não importa a mais ninguém além da mim mesma, na falsa ilusão de ser eu pessoa importante para grandes grupos. Me importo como se toda minha vida estivesse sendo reproduzida em alto-falante, mas não. Nem ta. Nem tão. Tão nem aí.

Tão nem aí, mas mantenho o escudo erguido na altura da cabeça e trato de proteger todo o corpo me encolhendo o mais próxima do chão para que nenhuma flechinha de julgamento chegue, mesmo que seja aquela que meu imaginário criou, mas que na verdade não teve sua rota traçada por mãos externas tensionando arco algum. Ninguém atiraria aquela flecha em mim senão eu mesma.

Se não fosse eu mesma, aquela flecha (talvez) jamais teria tocado em mim.

Mas tensionei o arco de forma que elas dispararam. Daria pra listar as flechas, numerar, nomear, talvez sobrenome, um apelido, e se necessário, atribuir cada uma a uma situação traumática de vida. Faria isso apenas para justificar a presença desse descompasso que vejo vivo em mim, e assim, auxiliaria o meu ego a mante-lo ali por perto, me oferecendo escudos cada vez maiores. Maiores, e maiores, e maiores, até não conseguir mais enxergar o céu.

De metáfora em metáfora vou esquecendo de citar descaradamente essa desafinação interna, esse tom abafado, essa gama de sentimentos deselegantes que teimam em tocar desalinhados quando um lado da orquestra encontra uma afinação. Algo vive em mim como se o mais importante em um coral fossem as roupas, não as vozes. Como se o que faz a música fosse a decoração do palco, não os instrumentos. Como se os instrumentos fizessem isso sem a pessoa. Como se a pessoa tocasse sem sentimento…

…Como se a orquestra precisasse parar o concerto porque uma pessoa desaprovou.

E agora, que enxergo o quanto me importo com o que podem pensar, porque na verdade sou eu quem penso, o que faço?

O título já carrega minha agonia. O que se faz?