À beira da estrada

Era uma tarde de domingo. Ensolarada. Primavera.

A simpática Edith, emparedada na sua solidão de gordinha — e cabelos fora da moda, e óculos estranhos, e sorriso repulsivo — se insinua para um desconhecido. Estava num bate-papo intenso, num aplicativo qualquer, deitada na cama.

Era o homem da sua vida, sentia. Em poucos minutos, em frenéticos movimentos com os polegares que quase estrangulavam o celular, apaixonou-se. Perdidamente.

– Quero você! — sussurrava entre os dentes, com lábios umedecidos e os dedos cada vez mais deslizantes nas em palavras cada vez mais picantes. — Quero agora!

Nunca tomou uma decisão na vida. Nada que demonstrasse um ser pensante por trás daquela cara acnéica e das gorduras que lhe saltavam sobre a calça rosa de moletom surrado.

– Ele me deseja do jeito que eu sou. — pensa enquanto encara o espelho pela primeira vez com uma centelha de personalidade.

Maquia-se. Veste-se. Imagina-se deixando lhe rasgar o vestido vermelho-rubi que lhe expulsa o fôlego de tão apertado. Local e hora marcados, às oito daquela noite. Em frente ao teatro municipal. Príncipe encantado em um Opala branco.

Tudo deu certo. A inexperiente e grotesca Edith desaparece na noite, dentro do carro com uma tira de néon (cafona) na traseira. E desaparece no dobrar da esquina.

No dia seguinte, Edith é manchete nos jornais. Também está na televisão.

A garota é encontrada empalada, à beira de uma estrada, no interior, perto de um campo de trigo. Seu corpo veste a madeira pontiaguda de uma cerca velha, lhe atravessando o quadril e emergindo próximo ao pescoço.

O corpo dilacerado, descarnado, carcomido. O sangue flui, forma poças, pincela a madeira, escorre até a beira do asfalto. Parece crucificada, mas tem as vísceras pêndulas às varejeiras e ao vento.

Era a cena descrita pelo legista. O urubu. Do urubu o legista nunca vai esquecer. Pousado na cerca, velando o corpo, chegava cada vez mais perto. Curioso. Irradiava felicidade. Era tudo dele. Só dele. O animal parecia não saber por onde começar a matar sua fome de vida.

H. Z. Wendell > sobre o autor
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