Amor ao avesso

Delacroix, 1827

O tempo, pêndulo da noite. Memórias vêm e vão. Poltrona velha de couro azul-cobalto. Na mesa ao lado repousam uísque-gelo, cinzeiro e saudade.

Luz trêmula de um abajur púrpura. Nua, ela fuma. Insone. Esquecida. Espera. Levanta-se. Volta a sentar. Devora os minutos e os dedos.

Abre a cigarreira. Pó sobre a mesa. Cigarro na boca. Lamentos.

— Cadê você?

O cheiro dele em seu corpo não cansa de falar. O perfume daquele homem, em sua pele, grita. Deixa marcas por onde transita.

— Filho da puta! Meu corpo é seu território. Nossa geografia!

Cheiro de cio. Desejos vivos no devir. Sinal de fome, de cópula, de vida.

— Tu me caças. Eu te caço. És meu pão e minha carne.

O cheiro daquele homem recobre seu corpo febril. Invade o espírito. Entorpece a alma. O corpo daquele homem é o campo que galopando ela atravessa todas as noites. Vício.

— Ah, meu lindo!

Volátil é a dança dos corpos… como fumaça de incenso desenhando mil formas inconstantes.

— É pelo cheiro que nossos corpos se invocam. Teu perfume em minha pele grita. Teu cheiro em meu corpo não cansa de falar. Aroma é quase amor ao avesso. Sou assim, toda avessa. Me vira e revira do avesso, meu amor. Vem que sou tua.

“Toda Tua”, é a tatuagem que ela traz logo acima das ancas.

Ela aspira o pó. A porta se abre. Ele entra. Indecifrável.

Pronto para devorá-la.

H. Z. Wendell > sobre o autor
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