Continente e conteúdo

Beijo. No teu céu, nossas línguas bailam. Úmidas e quentes. Presas e predadoras. “Se decifrar-me eu te devoro”, é o que diz uma língua a outra. A semiologia do beijo tem seus signos próprios: língua, saliva, lábios, respiração, sussurros. Beijo puxa desejo. Desejo puxa dança. Beijo é dança: a dança dos corpos. Beijo é desenho. Rascunho do coito. Um plano traçado em círculos. As bocas: eis a arena em que ambos domam e são domados, encontram a liberdade ou a morte. Morremos pela boca. Tua boca, o aríete que derruba portas, ou desfaz amarras, ou conquista territórios. Só quero lamber teu sapato, fazer o teu prato e beijar. Beijar teu retrato. Em cena, no circo da cama, quero que tua língua misture tudo: continente e conteúdo.

H. Z. Wendell > sobre o autor