O conto da Flamingo de bata

Victor Has
Jul 25, 2017 · 8 min read

O flamingo é uma ave naturalmente exótica. Pertencente a família Phoenicopteridae da ordem Phoenicopteriformes. Suas características aparentes mais marcantes são suas longas pernas a boca chamativa, o andar plácido e a sua constante mania de se apoiar por longos tempos em uma perna só. E antes que comecemos nosso causo, deixe-me lhe fazer uma pergunta:

Alguma vez você já viu um Flamingo voando?

O conto que venho lhes contar trata de uma flamingo levemente fora do padrão de sua classe e família. Naturalmente essa ave nasce e cresce em lugares afastados e por sua estatura um pouco acima da média, já chama atenção naturalmente. Entretanto, em fases ela é acometida por uma necessidade de voar um pouco mais alto, ambição essa diretamente relacionado a sua sede explorar lugares d’antes nunca alcançados. Com o caso dessa não seria diferente, migrou de uma das ilhas em alto mar que vertia rios profundo do sertão.

A sua motivação no princípio,era fazer uso de sua característica pernalta para prática de esportes. Mas a real mesmo, é que o seu lugar natal era pequeno demais para o tamanho das asas e do ritmo dos passos que as pernas grandes davam.

A estadia no primeiro ano por aqui foi intensa. Aventuras, histórias e vivências que o observador aqui que vos fala pode imaginar que não caberiam num filme de Christophen Nolam. Olhando de longe, era fácil de perceber que o conceito de ninho para ela havia se expandido e o seu significado não mais pertencia apenas a ilha natal onde havia nascido.

Ao final da jornada do primeiro ano, havia naquela Flamingo um sonho pouco comum e do qual aves do seu entorno não costumam sonhar: queria estar habilitada a vestir uma bata branca e voar para a ilha de Asclépio, um dos deuses gregos mais conhecidos entre os brasões de sua época.

O problema é que de onde ela estava, várias outras aves como ela já haviam sonhado em ir para aquela ilha, muitas tomadas pelo desafio da distancia, amedrontavam-se. A digressão e o medo do voo para a ilha de Asclépio foram maiores e tomada por esses sentimentos, ela terminou por alçar voos para Ilha de Cruz Vermelha.

Ao chegar na ilha de Cruz Vermelha, pôs se a colocar logo a primeira bata branca. Parecia que tinha tudo pra ser legal, mas lá, o tempo girava em ritmo diferente do dela. Primeiro, o choque com o lugar. Não tinha o clima que ela queria, não tinha a audácia que ela buscava, não cheirava a aventura da forma como ela buscava. Em segundo lugar proporção das asas que lá lhe encontrava eram diferentes das suas, isso de certa forma lhe causou um desconforto. E em terceiro lugar, ela ainda pensava constantemente sobre como seria a vida na ilha de Asclépio.

E foi ai que caiu em si e percebeu: estava vestindo uma bata, mas estava vestindo a bata errada. E decidiu pela não conformidade se arriscar a voar de novo.

O sentimento que lhe bateu após a saída da ilha de Cruz Vermelha foi ao mesmo tempo um terror e um alívio. Sabia que precisaria se preparar novamente para um grande voo, que dessa vez tinha que ser pra valer, que o tempo estava passando para ela e que não havia muito o que esperar, chegar na ilha podia levar mais tempo do que se esperava.

Ali esteve uma das fases mais difíceis e sombrias de sua vida. Foi preciso se afastar, parar no tempo até para se preparar. Num momento como esse,fica-se planando em meio voo apenas sendo conduzido pelas brisas diárias. Sem fazer planos por não saber o dia de amanhã, tentando não enlouquecer com a calmaria e controlando profundamente o tédio, esperando o dia da grande corrente para arriscar o voo para a grande Ilha.

Eis que o grande dia havia chegado, e a corrente de ar que empurrava todos de suas ilhas distantes na tentativa de chegar a ilha de Asclépio havia chegado. No coração o bater acelerado típico de quem sabia que levava consigo os planos de voo de um ano, e que falhar ali poderia significar retomar o limbo silencioso ao qual tinha passado e um sentimento ainda maior de derrota. Porém, os ventos nessa feita, circulavam a favor, e no acúmulo de coragem e força, foi possível finalmente aterrissar na sonhada ilha de Asclépio.

Aterrissar em uma ilha tão distante de tudo e de todos não é tarefa fácil. E das novas aves de bata, ela era sem dúvidas uma das mais incomuns. Quem por acaso já havia visto um flamingo vestindo uma bata alguma vez na vida? Os que ali haviam chegado, pertenciam em sua maioria a nobres classes de aves. Muitos depois da chegada a ilha de Asclépio com seu voo, foram favorecidos pelos seus pais com grandes veículos metálicos ambulantes gigantes, que além de facilitar o percurso, os conferiam um status por entre aqueles que ali estavam entre ilha também.

Apesar do mérito, existe um preconceito aos externos a ilha que miram os que lá chegaram, com um profundo desdém. E do primeiro dia pelo resto de sua vida, aquela Flamingo aprendeu que sua conquista também era um fardo. Havia passado a perceber e ouvir aos que opinavam acerca de sua conquista que os problemas haviam acabado, e na ilha era só viver um dia após o outro que logo logo as vidas de plantões afortunados surgiriam.

Só que muitos do lado de fora optam por inconsciência ou falta de empatia, ignorar que a pressão de estar lá dentro é enorme, e que na hierarquia das aves ali dentro, as aves tutoras que lá habitam na região ao invés de desenvolverem as aves pelo seu melhor lado, preferem desenvolver elas pelo seu pior lado, sucateando auto-estima, diminuindo a capacidade delas de voar e descredibilizando o esforço deles que chegaram até ali.

Sorte a dela que aos poucos, Araras, papa-capins, carcarás e outras aves amistosas vão criando um ninho familiar e ajudando aqueles que estão na luta diária de completar todas as missões propostas na ilha de Asclépio. Num desejo de fazer o mundo portátil, mas andando com malas pesadas, o flamingo ainda inventou de querer retomar plano dos esportes

Talvez ela não tenha encontrado ainda o seu propósito, algo que uma vez, aleatoriamente ela tenha sido provocada a pensar a respeito, mas antes que falemos de seu propósito vamos fazer uma pequena pausa no conto para divagar…


Paremos nesse instante para fazer rápida reflexão: Muito já se sabe sobre a longa jornada pelo qual este ser de pernas compridas e risada retumbante passou, mas o que faz dela tão diferente além de ser um ave fora do comum, vestindo uma bata?

Para começo de história, podemos ainda no que cabe a sua aparência, citar de um discreto sinal ao lado do nariz, que muito lhe atribui um charme. Notar não é para olhos fáceis, mas sim para olhos atentos. E caso você preste bem atenção, por vezes ter a impressão que há um ar de astúcia na forma como ele se move a medida que ela fala e sorri.

Continuando podemos citar algo sobre o tempo para a Flamingo. O tempo gira diferente no mundo dela. Ele possui um ritmo particular compassado principalmente pelas coisas que estejam lhe chamando a atenção. Sua vontades são como comportas escancaradas de uma represa atropelando protocolos.

Se um óculos aleatório no rosto lhe despertar a curiosidade, não será o protocolo que irá lhe impedir de puxa-lo do rosto, vesti-lo sutilmente e ir olhar no espelho do elevador mais próximo. Se a curiosidade de algo para ela lhe atormenta, não estranhe, será como água intensa,fluída e voraz como comportas abertas a atropelar qualquer código de padrões e atitudes comumente entendido entre os de vida normativa.

Naquele mundo em que fazer festas enormes nos ninhos e criar vidas fictícias com plumagens exageradas para postar no Avegram era normal, aquela Flamingo parecia não se conectar tão facilmente com aquele mundo. E é interessante perceber que ela apesar de ter muita oportunidade de conviver com isso, sabe viver no mundo, sem ser do mundo. É como se fosse uma forma desgarrada de encarar a finitude do dia.

Por último algo digno de nota sobre a Flamingo é sobre a sua aparente dureza. O preço que se paga por tentar ser o mais fiel e consigo mesmo é o estranhamento de muitos. Nesse desfacelamento de padrões para tornar-se algo muito maior(algo até difícil para a estatua média atual dela), ela criou uma carapaça dura e fria, como ferramenta de resguardar-se do desgaste de terceiros.

Só que a grande mágica que habita naquele ser, é que após a fortaleza sóbria e por vezes circunspecta dela, existe alguém doce, leve, com um sorriso frouxo e ‘aconchegável’ em qualquer sofá quente, numa noite qualquer de semana.

Apesar de não perceber, ou não admitir, existe um valor em ser o Flamingo que é, que trata-se da maneira como ela vibra para vida. Se acreditasse em astrologia poderia dizer que faz referência direta a chama do seu signo de fogo, mas como não a é, trata-se apenas da energia compartilhável que carrega consigo.


O destino para ela ainda é incerto. Para onde ela seguirá após a ilha de Asclépio não há como dizer precisamente, afinal como você poderia contar a história de algo que ainda não aconteceu, correto? Fazer isso seria um exercício de futurologia. Entretanto das poucas coisas que se podem arriscar a dizer, é que na dúvida basta ir buscar na raiz do nome dela, que no latim encontrarão: Viajante, peregrina.

Por fim, vale desejar a Flamingo, ao novo ciclo que se inicie, que ela tenha firmeza para ser cada vez mais quem ela busca ser. Que se os ventos soprarem na batuta, para o norte, que ela siga para o Sul, e não seja mais uma no meio de muitas aves desgovernadas voando apenas na corrente.

As vezes, os pássaros levam uma vida inteira viajando, buscando encontrar o destino final de seus lugares, na busca por respostas, que muitas vezes não estão no destino, mas estão no ninho. Então esse Drone voador que observa distantemente os voos, deseja também que ela encontre a resposta para: Qual é o teu propósito?

Cada idade tem os seus humores, os seus gostos e os seus prazeres,
E, como a nossa pele, embranquece os nossos desejos, então antes que os teus comecem a se esbranquecer, voa.

E se você ainda estiver se perguntando, para que serve um propósito, eu só posso te responder: As vezes é como uma utopia sabe? Serve para isso. para que tu não deixes de voar todo dia.

Que teu interior alcance a perfeição;
Tua fé nunca se abale,
Tua esperança nunca esmoreça.
Que o espírito de menina jamais se vá,
E que nunca te falte encanto.

Alguma vez você já viu uma Flamingo voar?

Feliz aniversário.

Victor Has

Written by

Literatura de Celular, Poesia de ônibus, encanto de um lanche, Soneto do breu da noite.

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