Se vivêssemos em um lugar normal, a literatura não seria tão boa

(Companhia das Letras / Reprodução)

Neste ano, descobri que a principal característica da minha família é ser reclamona. Não conseguimos prosseguir em um diálogo entre nós sem que pelo menos um reclame sobre alguma coisa — o cansaço e os outros parentes, principalmente. A consciência disso tem redirecionado os modos como tento conversar com todas as pessoas ao meu redor, e identificar mais dos meus familiares em mim do que seria confortável.

Quando passamos tanto tempo com as pessoas, pode ser difícil perceber com clareza a natureza da nossa relação, e as características do grupo se tornam nebulosas. Se vivêssemos em um lugar normal (Companhia das Letras, 2013) livro do mexicano Juan Pablo Villalobos, é a história de um adolescente que vislumbra, aos poucos e cada vez mais, o lugar da família dele no mundo e, especialmente, no México — país em que a história se desenrola e onde o próprio autor nasceu.

Orestes, protagonista e narrador do romance, descobre que a família é pobre, e mais que isso, pobre durante os anos 80 em um país da América Latina.

- Mamãe, é possível deixar de ser pobre?
- Não somos pobres, Oreo, somos da classe média — replicava minha mãe, como se os níveis socioeconômicos fossem um estado mental.
Mas essa coisa de classe média parecia as quesadillas normais, algo que só podia existir em um país onde não estivessem permanentemente tratando de foder a sua vida. Todas as coisas normais eram difíceis pra caralho de conseguir.

A família de Oreo, capitaneada por uma dona de casa chorosa e um professor de colégio primário com um gosto por mitologia grega, vive no alto do Morro da Puta que Pariu, em Lagos de Moreno, cidade onde “há mais vacas que pessoas, mais charros que cavalos, mais padres que vacas, e as pessoas gostam de acreditar na existência de fantasmas, milagres, naves espaciais, santos e similares”.

Em um movimento que prioriza a leveza, Juan Pablo Villalobos aborda temas complexos, como o percusso político do México nos anos 80 — comandado Partido Revolucionário Institucional, o PRI — e a desigualdade social estrutural da América Latina sob a perspectiva do cotidiano da família.

O autor ( M. Minocri / Reprodução)

O maior símbolo disso são as quesadillas, principal (e, eventualmente, único) prato que abastece a mesa de jantar. A fartura de recheio e a quantidade de unidades para cada um servem como termômetro da saúde econômica do país. As inflacionárias, por exemplo, são bem gordas, porque precisam incluir todo o queijo que a mãe compra no mercado antes que a inflação aumente demais. Já as normais são raras, pois são “as que comeríamos todos os dias se vivêssemos em um país normal, mas se fôssemos um país normal não comeríamos as quesadillas, portanto também as chamávamos de quesadillas impossíveis”.

O deboche adolescente de Orestes, que tem 13 anos, conduz todo o romance, mas a acidez do garoto sobre o México não pinta o país negativamente, porque passa fortemente pelo humor. O exagero, caro a diversas obras latino-americanas, aparece como instrumento para ressaltar as peculiaridades do dia a dia do garoto, e mesmo o desaparecimento de alguns de seus irmãos se torna uma anedota divertida — mas repleta de significado.

[Um] grande alívio foi finalmente poder atribuir um motivo aos choros recorrentes de mamãe. Era algo que ela já costumava fazer quando lavava louça, e ficávamos perturbados porque quando perguntávamos ela sempre respondia que não era nada, como nada?, então por que estava chorando? Paramos de perguntar, descansamos de nossa angústia, pois sabíamos que ela chorava por causa de seus filhinhos perdidos, por ter trocado os gêmeos de mentira pela senha de atendimento na seção de frios.

O ritmo rápido da prosa de Villalobos condensa a história em menos de 200 páginas, ainda que ela percorra um longo caminho com os personagens — um arco que vai do desaparecimento de dois dos irmãos do protagonista à reconstrução de um lar ainda mais precário que o primeiro.

O fantástico se abriga na narração farsesca de Orestes, que pinta todos os acontecimentos ao redor dele em tons pitorescos. Evidentemente, é impossível escapar ao narrador, único acesso do leitor ao universo do romance, mas é possível entender que o mundo que ele narra pode ser bem diferente do que as palavras dele revelam. Uma mudança de perspectiva poderia revelá-lo como alguém ainda mais egoísta do que ele deixa parecer.

A Altos de Jalisco real. A imensa igreja me lembra do trecho: “‘Padre, é possível ser pobre?’, ‘Ser pobre não é pecado, filho’, ‘Ah, não?’, ‘Não’, ‘Mas é que eu não quero ser pobre, então com certeza vou acabar roubando ou matando alguém pra sair da pobreza’, ‘É preciso ser digno na pobreza, filho, é preciso aprender a viver na pobreza dignamente. Jesus Cristo nosso Senhor era pobre’, ‘Ah, e vocês são pobres?’, ‘Os tempos mudaram’, ‘Não são pobres?’, ‘Nós não nos preocupamos com questões materiais, cuidamos do espírito, o dinheiro não nos interessa’. (Pinterest / Reprodução)

Villalobos passa à margem da América Latina exótica pintada pelo olhar estrangeiro ou, mesmo, de outros autores locais. Mas, ainda assim, desenha um México particular, pontilhado por acácias e desgovernado por políticos “orquestradores de cataclismos” assistidos pela TV.

Ainda assim, as páginas finais do romance desdobram um universo fantástico, em que o surrealismo aparece como chave para entender que, como o título do livro indica, a história não se passa em “lugar normal”, mas em um lugar em que a imaginação, o delírio e a perspicácia são os meios que os personagens encontram para sobreviver.

Enquanto, aqui em casa, nosso meio é a reclamação, como se vivêssemos em um grande SAC.