O digital é a nova eletricidade

(e a alma do negócio)


O Google surpreendeu o mundo ao anunciar o lançamento de uma nova holding, a Alphabet. A ideia é que o Google se torne uma das diversas empresas que integram a holding, ao lado de outras iniciativas do grupo, que fazem de carros não tripulados a robôs e balões. A explicação dos especialistas é que o CEO Larry Page quer evitar um Google complacente, uma empresa incapaz de inovar à velocidade que o contexto atual exige.

Entretanto, o movimento é menos inovador do que parece. Há 123 anos, uma empresa chamada General Electric Company criava lâmpadas, fonógrafos, dínamos e uma longa lista de invenções revolucionárias que certamente a comparariam ao Google nos dias de hoje. Em comum, as invenções da GE tinham a eletricidade.

Mas se os negócios da GE circulavam em torno da eletricidade, os negócios do Google giram em torno do digital. São os bites e bytes, aliados à uma capacidade nunca imaginada para armazenar, processar e transmitir toda essa informação que confere ao Google seu status.

E o Google, a exemplo da GE, com sua holding cria uma estrutura que evita perder o foco. Impede que grandes aquisições como as feitas pela Microsoft e Yahoo o distraiam e façam a empresa ficar lenta.

A estrutura da Alphabet

Mesmo a GE, após décadas de atividades, se mantém fiel a essa dinâmica. Recentemente, o conglomerado que hoje faz turbinas de aviões, locomotivas e LEDs, anunciou que estava acabando com sua área bancária. Um negócio bilionário, mas que tirava o foco da GE e a colocava em risco à medida que a ficava cada vez mais dependente do seu banco. O Banco GE terá o mesmo destino das lâmpadas incandescentes, que deixaram de ser produzidas pela empresa ao longo da última década, à medida que passaram a ter uma margem de lucro inferior a dos concorrentes e foram substituidas pelas de tecnologia LED, mais sustentáveis e com maior margem de lucro.

Em O Dilema da Inovação, o professor Clayton M. Christensen demonstrou que para as grandes empresas o problema está justamente em fazer todas as coisas certas. Afinal, a ordem e a inovação não costuma ser boas companheiras. A receita de Christensen para evitar o excesso de regras que engessam as empresas: criar novas empresas, independentes, dentro das próprias empresas. Assim, essas novas operações se tornam alheias às velhas regras e modelos mentais que impedem mudanças radicais. Como resultado, se veem forçadas a encontrar novos caminhos para sobreviverem sem a proteção do status de “empresa gigante”.

Neo vê a Matrix como Larry enxerga o Google

Larry Page, a exemplo de Thomas Edison, fundador da GE, entrará para a história não apenas como um grande inventor, mas também como um gestor inspirado. São líderes que entenderam a alma de seus negócios (eletricidade no caso da GE e o digital, no caso do Google). Isso permite que vejam suas empresas de maneira fluida, como Neo dentro da Matrixm que lia o código fonte. Assim, enxergam o que os outros não veem e reescrevem a história com suas próprias narrativas.

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