Oito horas da manhã e já é difícil ser mulher
Hoje levantei muito plena, resolvi que iria parar de postergar e ir logo ao mercado, é muito fácil cultivar apenas garrafas d’água na geladeira, mas é altamente prejudicial ao bolso e a fome. Pois bem, fui me arrumar, escovar a franja porque ninguém merece andar com essa testona aparente, depois vesti um short, uma blusa aleatória e meus chinelos, pensei se o short não era muito curto, mas acabei ignorando a ideia, primeiro porque não tinha outro short limpo e segundo porque eu até gosto daquele short.
Chegando no estacionamento do mercado senti que estava sendo observada, mas só poderia ser coisa da minha cabeça, olhei para o lado, uma pessoa me olhando e quando viu que eu percebi, agiu parecia que tinha acabado de receber um convite. Ele não fez questão de disfarçar que realmente estava me observando, era um animal que sonhava estar seduzindo sua presa, porém não existe maneiras que seduzi-la, ela apenas sente repulsa e segue andando.
A partir daquele momento, comecei a puxar o short, talvez fique menos curto (?), parei de olhar para os rostos das pessoas, “se eu ficar bem distraída talvez não perceba quando alguém estiver me olhando”. Fui embora, passando por um segurança e falei “bom dia!”, não deixando transparecer que antes de falar pensei várias vezes se eu não iria me arrepender, por fim não me arrependi. Porém, ao atravessar a rua senti alguns olhares.
Passar por isso logo cedo me fez lembrar de ontem, estava andando por uma rua à noite, do lado que eu estava tinha um homem parado, quando pensei em atravessar, vi que do outro lado também vinha um homem descendo. E pensei, “agora é contar com a sorte, que Deus me proteja”, atravessei aqueles obstáculos sem nenhuma dificuldade aparente, eles nem deram conta da minha existência. Hoje refletindo sobre tudo, tenho certeza absoluta que não posso levar em conta casos isolados.
É uma pena mesmo… é uma pena que ainda hoje eu tenha que me preocupar com essas coisas, que esses episódios me atormentem por dias e que consequentemente eu alimente o medo de olhar para o lado quando sinto que alguém possa estar me observando.
Não é um texto pra te encorajar a nada, quero apenas que ele sirva como uma constatação do fato que até oito horas da manhã é difícil ser mulher.
Ribeirão Preto, 01 de novembro de 2019.
