Instalar um idoso em um asilo pode ser um ato de amor (ou: “Uma história para lembrar da minha avó”)

A palavra “asilo” por si só quase sempre nos faz pensar em abandono de idosos. Eu inclusive pensava assim, sem me permitir questionar, até há uns cinco anos quando minha família precisou instalar minha avó materna num desses lares. Não foi abandono: ela recebia sempre visitas dos filhos, netos e outros parentes. Mas muitos foram os que nos julgaram. Aliás, o primeiro julgamento foi o interno, por nos permitirmos ter essa ideia preconcebida de asilos. Nos perguntamos até o último segundo se não estávamos fazendo tudo errado, se isso não era cruel. Ouvimos coisas como “Ela cuidou de todos os filhos dede pequenos e agora vocês simplesmente vão largar ela lá”? Mas a gente não “largou” ela lá. Ela precisava ser assistida 24 horas por dia, porque já não se virava sozinha, tinha que ter refeições controladas, que alguém desse banho e não podia passar as noites sem que alguma pessoa estivesse atenta às suas necessidades. E acontece que, infelizmente, não tinha ninguém da família que pudesse abandonar o emprego para se dedicar em tempo integral a ela. E daí, aconteciam coisas, como uma vez em que ela pegou o andador e saiu caminhando pelo quintal da casa do meu tio — onde morava. Só que nesse quintal tinha uma piscina e minha avó já não enxergava quase nada. Se a vizinha não tivesse enxergado da janela, minha avó poderia ter caído na água e se afogado. A melhor solução para evitar acidentes e fornecer mais conforto a ela mesma, foi instalá-la em um local com quarto amplo, ar condicionado, TV, comida preparada por cozinheiros sob orientação de nutricionista e enfermeiros prontos para auxilia-la independente de horário . Um lugar onde ela também teria contato com pessoas de idades próximas para que pudesse continuar colocando em prática suas habilidades sociais. Ela também poderia participar das celebrações religiosas, coisa que sempre amou e que quando morava na casa do meu tio, assistia pela televisão. Nesse asilo, os líderes religiosos vão até lá, tocam músicas, fazem pregações e orações. Eu tive o prazer de assistir um momento de louvor com canções e vi a felicidade do momento estampada no rosto daquelas senhoras e daqueles senhores. Como moro em outro estado, sempre que eu visitava minha avó, eu passava o dia ao lado dela, dentro do lar. O local possuía um extenso lago com patos, um canil com vários cachorrinhos, muitas árvores frutíferas, espaço amplo para tomar sol ou fazer caminhadas. Continua sendo um lugar mágico pra mim, toda vez que olho as fotos.

Lá, eu pude entrar em contato com incríveis histórias de vida. Seu Pedro* é um dos moradores do local e me contou que o que mais gosta é de colher as bergamotas (mexericas) direto do pé e comê-las. Ele é extremamente lúcido, já trabalhou muito na vida e numa dessas acabou sofrendo um acidente de trabalho e teve sua orelha direita arrancada. Ele não tem a audição do ouvido direito, mas ouve muito bem com o esquerdo. Os filhos ofereceram pagar por um asilo (antes disso ele morava sozinho). Pedro aceitou, porque prefere ter companhia o tempo todo e também porque na “cidade grande” onde morava, não tinham árvores com frutas prontas para serem colhidas. É dele que ouvi muitas histórias de pessoas do asilo. Seu Pedro é muito bonzinho e comunicativo. Acredito que não tenha raiva de ninguém. Mas minha avó criou certa implicância com ele. O motivo foi o andador! Tanto o dele, quanto o dela eram do mesmo modelo e cor. Sempre que minha avó o via andando pra lá e pra cá, feliz com o andador, falava “Mas vê se pode esse homem pegar o meu andador? Que raiva!”. Aí a gente explicava “Vó, esse é outro andador, o seu está lá em cima!”. Ela não acreditava muito e sempre voltava a implicar com ele.

Foi também de Seu Pedro que eu ouvi por primeiro que deveria tomar cuidado com o ex-policial Antônio. Esse senhorzinho acreditava que estava na guerra e não falava muito. Pedro tentou me precaver, mas teimosa que sou, fui cumprimentar o Seu Antônio. Ele apertou com tanta força minha mão que eu senti dor e precisei da ajuda de um enfermeiro para que ele soltasse. Mas provavelmente ele acreditou que eu era alguém ruim, afinal, estávamos no meio de uma guerra, não é mesmo? Seu Antônio sempre estava sentado na sala de TV, assim como Dona Mariana, que não possuía nenhuma necessidade especial, nenhuma doença, era completamente lúcida, andava para cima e para baixo sem sentir dores e adorava tricotar. Mas se auto internou no lar para idosos, para ficar ao lado de seu marido, Armando, esse sim, com Alzheimer. Antes, eles moravam só os dois em uma casa. Ela não conseguia cuidar dele sozinha, então, disse que como juntou dinheiro a vida toda, podia se dar ao luxo de pagar para cuidarem dele. Ela amava o lar, as enfermeiras, os visitantes. Mas amava acima de tudo ficar ao lado daquele que escolheu para ser seu príncipe encantado por toda uma vida. Infelizmente, seu Armando não resistiu e a doença o levou. Mesmo sendo saudável, Dona Mariana seguiu o marido nessa nova viagem e faleceu pouco tempo depois (eu não fiquei sabendo a causa).

Tinham também os casos mais extremos, de pessoas que simplesmente não se mexiam. Dona Anna permanecia imóvel e quieta na cama, dia-após-dia. Eu não conheço a história dela. Dona Áustria que ficava no quarto logo em frente ao da minha avó, adorava cantarolar. Só que as vezes, ela entrava em algum inferno pessoal e começava a gritar apavorada. Eu queria poder tirá-la daquele lugar que ninguém sabe onde é, a não ser ela mesma. Mas tudo que pude um dia fazer foi levar um copo de água e oferecer carinho até que ela se acalmasse.

Tinha também a Dona Izabel, que não saia do quarto sem sua bolsa. Ela dizia ser diretora de todo aquele lugar. Certa vez, a cachorrinha do canil deu cria. E lá foi Dona Izabel com sua bolsa, pegar um dos cachorrinhos e levar para dentro do quarto, escondida das enfermeiras. Eu não contei pras enfermeiras o que vi e espero que elas tenham demorado a descobrir.

A história de Bento, também não sei dizer qual é. É um senhor muito simpático, de olhos azuis. Ele possui uma dificuldade na fala, então é muito difícil conseguir entende-lo. Mas eu sempre entendia quando ele dizia “você é bonita!”. Um sorriso sempre brotou nos meus lábios ao responder “Obrigada, Seu Bento, o senhor também é muito bonito!”.

Dona Gênova sempre me perguntava quando eu voltaria para visita-los. As vezes a resposta era que no dia seguinte eu estaria de volta. As vezes era apenas um desejo de voltar em breve, mas que eu era obrigada a responder a verdade, que demorariam meses.

Aprendi muito com as histórias que ouvi lá. Aprendi principalmente com minha avó. A mulher que amava contar histórias sobre a família e que eu adorava ouvir e perguntar de novo, só para ouvi-la contando mais uma vez. Seu cabelo parecia uma nuvem de tão branco, minhas mãos adoravam acariciar aqueles fios. E como ela sorria ao me ouvir elogiar os cabelos dela! Ela era tão vaidosa que sempre se lembrava do “dia em que foi ao médico e esqueceu-se de pentear os cabelos”. Minha avó era muito sensitiva também e enxergava coisas que nós, os familiares, nunca vimos. Ela pensava que era dona do asilo, que os demais velhinhos eram seus hóspedes. Ela sempre pedia para pousarmos (dormirmos) por lá. Eu sou muito grata a toda a equipe de lá por todo o cuidado e carinho que tiveram com minha vozinha. Faz um ano que a perdemos. Um ano que não ouço mais histórias. Um ano que não piso no lar de idosos. Um ano que se arrastou de maneira dolorosa. E acho que nunca vai deixar de doer.

Eu escrevi esse texto porque gostaria de lembrar às pessoas que, embora muitos idosos infelizmente sejam abandonados pelos próprios filhos nesses lares, nem sempre a história é essa. As vezes, é por necessidade, por amor, por um cuidado maior. A decisão de instalar quem nós amamos em um asilo é sim um ato de amor! Desde que você se comprometa a não abandonar seu parente, familiar ou até mesmo amigo idoso por lá. Sei que existem lugares onde há maus tratos, mas não podemos generalizar, devemos procurar saber a história do lugar, há quanto tempo abriu suas atividades, quais são os profissionais. Como eu disse anteriormente, moro em outro estado, mas sempre telefonávamos para o lar da terceira idade para saber notícias da minha avó ou até mesmo para conversar com ela por telefone, enquanto ela ainda podia.

Mesmo que os idosos fiquem mais tristes ao se verem longe da família, lá eles também recebem carinho e atenção constantes. Num primeiro momento talvez eles se sintam mesmo rejeitados. Mas com o tempo, nós podemos provar pra eles que não é bem assim. Que o amor na verdade multiplica! É difícil tomar essa decisão. Mas foi a melhor escolha para minha avó, que pôde ser bem cuidada até o fim, quando uma enfermeira ligou para meu tio avisando que ela não estava bem e nós fomos até lá para busca-la. Outra enfermeira trouxe minha avó no colo até o nosso carro que a levaria para o hospital pela última vez. Minha gratidão será eterna!

P.S.: Peço que perdoem eventuais erros desse texto por falta de revisão.

P.S. 2: A falta que minha avó faz é tão grande que eu não pude evitar que umas lágrimas caíssem enquanto eu escrevia. Mas a presença dela na minha história é tão viva e constante, que me enche de orgulho e novamente me transporta para aqueles momentos ao lado dela, de onde posso sentir o amor que ela sempre me dedicou.

*Os nomes foram alterados porque não pedi autorização para reproduzir essas histórias e a privacidade dos idosos precisa ser preservada.