Porquê eu não quero ser o velho dos livros de matemática

Quando eu tinha uns 16 anos, um senhor foi à minha escola. Entrou na nossa sala após o professor anunciar, o que não adiantou muito pois a algazarra continuou como sempre. Limpou a garganta para chamar um pouco a atenção. Vendo que não conseguiria mais do que uma porçãozinha de olhos atentos, começou seu discurso.

Tratava-se de um matemático. Sua maior conquista encontrava-se em suas mãos: uma caixa cheia de livros de sua própria autoria. Ele tentava vendê-los, explicando sobre como aquele era o trabalho de sua vida.

Era uma turma de alunos de segundo grau. Tínhamos apenas 16 anos. Alguns de nós continuou com aquela algazarra generalizada típica, alguns de nós aproveitou para copiar o dever de casa atrasado, e apenas poucos olhavam para aquele senhor. Não sei dizer o que sentiam. Eu mesmo não consigo lembrar o que eu senti enquanto aquele velho falava sobre seu trabalho, explicava sua conquista, sua obra prima. Lembro-me apenas de seu olhar triste ao perceber que mais uma vez não conseguiria vender nenhum livro. Nem meu professor quis folhear um dos exemplares, apenas ficou em pé, em frente à porta, aguardando o velho recolher seus exemplares, suspirar um agradecimento e sair.

Não consigo lembrar seu nome, nem mesmo se eu fazia parte da turma da bagunça, da turma do dever atrasado ou da que apenas olhava. Não me agrada ser de nenhuma, pois, na pior hipótese, pouco me importei com o fato de aquele senhor encontrar-se alí, enquanto que, na melhor hipótese, não pude fazer nada para ajudá-lo. Me agarro à hipótese de que, naquele momento, eu era apenas parte das paredes daquela sala. Prefiro me agarrar a esse devaneio do que encarar o fato de que, por ser tão egoísta e tão inexperiente, não contribuí de nenhuma forma para que aquele senhor recebesse ao menos um pouco de respeito.

O fato é, não quero me tornar aquele senhor. Não me entenda mal, não estou tentando julgar ninguém, nem ao menos menosprezar nada, mas tenho medo de que, quando enfim eu encontre minhas palavras, elas sejam desdenhadas, ou vistas apenas como algo sem valor. Não quero que, quando enfim eu encontrar minha voz, eu acabe descobrindo que os ouvidos estão todos tapados para mim.

Pode ser uma bobagem para você, ou mesmo um ato covarde meu, mas por favor, não quero me tornar o velho dos livros de matemática.