Se eu morresse amanhã.

Não. Não sou romântica como Álvares de Azevedo. Sou atirada, tenho “quês” de ironia poética, dor de amor, saudades… E mergulho de cabeça na luta por minhas conquistas. Porém, minhas conquistas hoje giram em torno da vida e não tenho mais aquela fixação por morte, mesmo com a certeza de que ela é a fuga, a única maneira concreta de libertação. Se eu morresse amanhã? Talvez não entendesse a escolha do momento, levaria dentro deste coração remendado, não só os beijos e as carícias que não dei, mas o carinho que me deram e os dias em que me fizeram feliz. Deixaria alguns sem chão, outros com vontade insaciável de perdão. Deixaria segredos e dúvidas de um futuro bom. E

gostaria que apenas as boas lembranças não fossem em vão. Se eu morresse amanhã, levaria as alegrias da mocidade escancarada e também da secreta, o gosto anis das aventuras e o ardente das lutas. Levaria a lembrança dos amores que tive e não me pesa agora saber se fui amada muitas ou poucas vezes, mas importa saber que todas as vezes que o amor bateu à minha porta, a ele eu me entreguei por completo, sem nenhum medo de amar. Levaria a gratidão infinita e deixaria lágrimas cretinas, amigas, saudáveis e vadias. Mas as mais sinceras. E gostaria que na minha lápide, dentre outras palavras, registrassem: “Arquiteta”. Pois sei que delineei em alguns corações, bons sonhos. Tracei planos de paz e os doei. Risquei caras amarradas e por cima, desenhei gargalhadas e sorrisos. Projetei edifícios de coragem. Elevei sobre o solo, sensações e sentimentos. E edifiquei virtuosamente, o amor.

(“Tudo pode ser então, um bom motivo pra eu desistir”.)